{"id":9072,"date":"2021-12-09T13:29:41","date_gmt":"2021-12-09T16:29:41","guid":{"rendered":"https:\/\/lavits.bemvindo.co\/entrevista-anna-bentes-quase-um-tique-economia-da-atencao-vigilancia-e-espetaculo-em-uma-rede-social\/"},"modified":"2022-10-19T10:59:33","modified_gmt":"2022-10-19T13:59:33","slug":"entrevista-anna-bentes-quase-um-tique-economia-da-atencao-vigilancia-e-espetaculo-em-uma-rede-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lavits.org\/en\/entrevista-anna-bentes-quase-um-tique-economia-da-atencao-vigilancia-e-espetaculo-em-uma-rede-social\/","title":{"rendered":"[Anna Bentes] Quase um tique: economia da aten\u00e7\u00e3o, vigil\u00e2ncia e espet\u00e1culo em uma rede social"},"content":{"rendered":"<p><b>Quase um tique: economia da aten\u00e7\u00e3o, vigil\u00e2ncia e espet\u00e1culo em uma rede social<\/b>, da pesquisadora Anna Bentes, acaba de ser lan\u00e7ado pela Editora UFRJ. Com pref\u00e1cio de Fernanda Bruno, a publica\u00e7\u00e3o\u00a0 j\u00e1 est\u00e1 dispon\u00edvel para download gratuito no site <a href=\"http:\/\/www.editora.ufrj.br\">www.editora.ufrj.br<\/a>. Bentes reflete sobre como nosso tempo e nossa aten\u00e7\u00e3o est\u00e3o sendo cada vez mais capturados por tecnologias que passam a fazer parte do nosso dia a dia. Para a Lavits, a pesquisadora respondeu algumas quest\u00f5es sobre como ela aborda o tema central do livro: a for\u00e7a irresist\u00edvel de dispositivos como o Instagram que torna nossos h\u00e1bitos \u201cquase um tique\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Lavits: Voc\u00ea traz no t\u00edtulo do livro a palavra &#8220;tique&#8221;, que aponta para o uso da tecnologia como um h\u00e1bito enraizado e rotineiro. <\/b><b>E essa parece ser uma quest\u00e3o central de como as m\u00eddias, tecnologias e servi\u00e7os digitais s\u00e3o projetados<\/b><b> e desenvolvidos para o consumo dos usu\u00e1rios. Qual \u00e9 o papel da forma\u00e7\u00e3o de h\u00e1bito para o modelo de neg\u00f3cios de redes sociais como o Instagram?\u00a0\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Anna Bentes:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Essa \u00e9 uma quest\u00e3o central, de fato. Claro que h\u00e1bitos de consumo j\u00e1 existiam, especialmente no campo das m\u00eddias. Antes de te responder, s\u00f3 uma observa\u00e7\u00e3o sobre o livro. Ele segue, principalmente, uma metodologia geneal\u00f3gica, ou seja, em diferentes momentos eu recorro \u00e0 hist\u00f3ria como uma ferramenta conceitual para entender o presente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para entender essa quest\u00e3o da centralidade do h\u00e1bito hoje, precisamos compreender um pouco da hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es entre aten\u00e7\u00e3o, tempo e m\u00eddia. Eu discuto essa quest\u00e3o, sobretudo, em di\u00e1logo com a obra do Jonathan Crary, que tem um trabalho robusto sobre aten\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do observador, sobre transforma\u00e7\u00f5es nos regimes de percep\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m, em uma obra mais recente, sobre a quest\u00e3o da temporalidade no capitalismo tardio. S\u00e3o obras que nos ajudam a entender esses cruzamentos entre os modos de ver e as subjetividades.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para Crary, ao longo do s\u00e9culo XX, a televis\u00e3o j\u00e1 havia criado as condi\u00e7\u00f5es essenciais para o que viria a ser a economia da aten\u00e7\u00e3o 24\/7 no s\u00e9culo XXI. A televis\u00e3o foi um dispositivo que tamb\u00e9m criou h\u00e1bitos de uso, foram algumas gera\u00e7\u00f5es que passaram muitas horas de suas vidas colonizadas por este aparelho. Inclusive, j\u00e1 se falava de v\u00edcio tecnol\u00f3gico em rela\u00e7\u00e3o a TV tamb\u00e9m. Mas a TV implicava um sujeito observador ainda bastante passivo e que, na maior parte da hist\u00f3ria da televis\u00e3o, teve poucas op\u00e7\u00f5es de canais e programas para diversificar.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Hoje, vivemos num contexto sociot\u00e9cnico no qual h\u00e1 uma variedade muito maior de informa\u00e7\u00e3o para nos entreter. N\u00e3o somente h\u00e1 um volume muito maior de conte\u00fados para ver, ler, assistir, consumir, mas temos um sujeito observador muito mais ativo, que \u00e9 o usu\u00e1rio. O usu\u00e1rio n\u00e3o apenas pode (e deve) navegar por uma s\u00e9rie de sites e plataformas, mas ele pode tamb\u00e9m produzir conte\u00fado e ser sua pr\u00f3pria m\u00eddia. Mais do que isso, ele pode produzir conte\u00fado em todo e qualquer lugar, pois a navega\u00e7\u00e3o e as informa\u00e7\u00f5es est\u00e3o ao alcance do seu bolso. Essa mobilidade ajudou bastante a tornar o h\u00e1bito de uso de servi\u00e7os digitais tamb\u00e9m bastante intenso.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m de tudo isso, tem um fato realmente in\u00e9dito que \u00e9 o modelo de neg\u00f3cios das big techs baseado em dados e no processamento desses dados por mecanismos de intelig\u00eancia artificial. Isso \u00e9 especialmente evidente no caso das plataformas de publicidade, que s\u00e3o hoje todas as redes sociais como o Instagram. Os dados s\u00e3o uma esp\u00e9cie de mat\u00e9ria-prima que ser\u00e1 processada por essas opera\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia de m\u00e1quina que, por sua vez, precisam de um volume e uma variedade de dados muito grande para serem eficientes em suas an\u00e1lises, previs\u00f5es e recomenda\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E para acumular esses dados, \u00e9 imprescind\u00edvel que os usu\u00e1rios passem o m\u00e1ximo de tempo poss\u00edvel ali dentro, uma vez que, assim, v\u00e3o gerar mais e mais dados e tamb\u00e9m v\u00e3o estar mais expostos aos an\u00fancios. Portanto, os servi\u00e7os digitais hoje investem em uma ci\u00eancia persuasiva para formar h\u00e1bitos, visando usar mecanismos psicol\u00f3gicos a seu favor sem que o usu\u00e1rio se d\u00ea conta disso. Como um exemplo disso no livro, eu analiso um modelo criado do designer comportamental Nir Eyal chamado de modelo do gancho. Neste modelo, apresentado no livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Hooked (engajado): como construir servi\u00e7os e produtos formadores de h\u00e1bito<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, o autor oferece uma esp\u00e9cie de receita de condicionamento em quatro etapas voltada para enganchar e engajar usu\u00e1rios e, por sua vez, formar h\u00e1bitos de uso de servi\u00e7os digitais.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Lavits: Algo importante da sua pesquisa \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre as dimens\u00f5es da vigil\u00e2ncia e do espet\u00e1culo como elementos constituintes do regime de visibilidade atual. S\u00e3o dimens\u00f5es que geralmente vemos em an\u00e1lises separadas e mesmo opostas. Por\u00e9m, voc\u00ea n\u00e3o concorda que s\u00e3o elementos completamente apartados e mesmo antag\u00f4nicos.<\/b><\/p>\n<p><b>Anna Bentes:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> O pontap\u00e9 inicial desta pesquisa partiu justamente de uma inquieta\u00e7\u00e3o para compreender melhor a rela\u00e7\u00e3o entre esses dois elementos do nosso regime de visibilidade contempor\u00e2neo: a vigil\u00e2ncia e o espet\u00e1culo. Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o te\u00f3rica e conceitual, mas que nos ajuda a compreender as camadas de complexidade dos nossos modos de ver o mundo atualmente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por conta da minha trajet\u00f3ria de forma\u00e7\u00e3o e profissional, eu sempre estive ligada \u00e0s discuss\u00f5es do campo dos estudos de vigil\u00e2ncia, que foi se consolidando nas \u00faltimas d\u00e9cadas como um campo interdisciplinar aut\u00f4nomo do qual, inclusive, a Lavits surgiu. Embora alguns pesquisadores j\u00e1 estivessem alertado que as discuss\u00f5es sobre vigil\u00e2ncia contempor\u00e2nea iam muito al\u00e9m de quest\u00f5es ligadas \u00e0 seguran\u00e7a e ao Estado, por conta dos desdobramentos p\u00f3s-11 de setembro na primeira d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI, essas discuss\u00f5es ainda estavam muito voltadas para entender como os Estados estavam incorporando sistemas de vigil\u00e2ncia em massa. Por\u00e9m, com a expans\u00e3o das big techs e das redes sociais e, sobretudo, depois das revela\u00e7\u00f5es de Edward Snowden em 2013 sobre as atividades da NSA, foi ficando cada vez mais claro como a vigil\u00e2ncia estava multiplicando seus espa\u00e7os, seus prop\u00f3sitos e suas formas de atua\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma refer\u00eancia important\u00edssima aos estudos de vigil\u00e2ncia \u00e9 o livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Vigiar e Punir,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> do fil\u00f3sofo Michel Foucault, no qual ele analisa o papel da vigil\u00e2ncia como instrumento de poder nas sociedades modernas e como, a partir disso, surge uma nova l\u00f3gica de organiza\u00e7\u00e3o do vis\u00edvel e da visibilidade de indiv\u00edduos comuns. Mas, ali, Foucault est\u00e1 preocupado em explicar o que ele chama de \u201cdisciplina\u201d no final do s\u00e9culo XVIII e ao longo do s\u00e9culo XIX, contrapondo-se \u00e0s sociedades de soberania que antecederam essas formas de poder modernas. Nesse livro, publicado em 1975 \u2013\u00a0ou seja, num momento em que as m\u00eddias de massa e a publicidade j\u00e1 eram bastantes dominantes nas sociedades ocidentais \u2013, ele tem uma frase famosa que diz o seguinte: \u201cNossa sociedade na\u0303o e\u0301 de espeta\u0301culo, mas de vigila\u0302ncia\u201d. Essa frase est\u00e1 claramente se contrapondo ao conceito \u201csociedade do espet\u00e1culo\u201d de Guy Debord, que vinha se popularizando desde 1968. Para Foucault, a l\u00f3gica do espet\u00e1culo est\u00e1 presente nas sociedades soberanas e que teriam sido substitu\u00eddas pela l\u00f3gica da vigil\u00e2ncia hier\u00e1rquica da disciplina.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por\u00e9m, o que eu e alguns outros autores v\u00e3o argumentar \u00e9 que ambos \u2013\u00a0 a vigil\u00e2ncia e o espet\u00e1culo \u2013 s\u00e3o elementos centrais das sociedades modernas. Claro que cada autor com o seu foco de interesse, mas, no meu caso, interessava observar como esses dois regimes \u00f3pticos de poder foram progressivamente se fundindo e se combinando nas m\u00eddias digitais e isso \u00e9 especialmente evidente no Instagram. A vigil\u00e2ncia, em s\u00edntese, podemos dizer que \u00e9 um modo de ver voltado para produzir conhecimento e intervir sobre aquilo ou aqueles que est\u00e3o sendo observados. J\u00e1 o espet\u00e1culo est\u00e1 ligado a um modo de fazer ver e de um poder que se exerce atrav\u00e9s de imagens.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No Instagram, e em outras plataformas, as rela\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o estabelecidas atrav\u00e9s da ideia de seguir e ser seguido por algu\u00e9m. Eu acho esses termos bastante reveladores sobre o papel da visibilidade nas rela\u00e7\u00f5es sociais nesses ambientes, pois, nem importa mais se essa pessoa \u00e9 ou n\u00e3o seu amigo ou se voc\u00ea conhece ela para al\u00e9m daquela plataforma. O que importa \u00e9 ver, \u00e9 acompanhar, conhecer, saber e, portanto, seguir aquilo que a pessoa faz. E, inversamente, voc\u00ea enquanto \u201cseguido\u201d tamb\u00e9m mostra e exibe uma s\u00e9rie de aspectos da sua vida, cuidadosamente escolhidos, para os seus seguidores.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Deste modo, vamos formando um regime de visibilidade h\u00edbrido, com diferentes camadas de vigil\u00e2ncia e de espet\u00e1culo. Por um lado, temos a visibilidade dos nossos rastros digitais aos olhos das empresas. Por outro, consumimos uma s\u00e9rie de imagens produzidas por outros usu\u00e1rios, que tornam a vigil\u00e2ncia uma atividade corriqueira em pr\u00e1ticas como \u201cfuxicar\u201d e \u201cstalkear\u201d. Ainda, temos todo o espet\u00e1culo que fazemos de n\u00f3s mesmos em nossos perfis, que eu chamo de uma \u201cexposi\u00e7\u00e3o de si\u201d num sentido tanto daquilo que mostramos quanto num sentido museol\u00f3gico, pois somos todos ao mesmo tempo artistas, curadores, produtores, fot\u00f3grafos, editores de nossas pr\u00f3prias imagens.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Diante disso, com o olhar geneal\u00f3gico que mencionei anteriormente, eu busco compreender as diferen\u00e7as entre a l\u00f3gica da vigil\u00e2ncia e do espet\u00e1culo contempor\u00e2neas a partir daquilo que Deleuze chamou de \u201ccontrole\u201d em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0quela das sociedades modernas da \u201cdisciplina\u201d tal como trabalhou o Foucault.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Lavits: Esse deslocamento da disciplina para o regime contempor\u00e2neo de vigil\u00e2ncia e visibilidade pode ser percebido em duas dimens\u00f5es. Por um lado, uma dimens\u00e3o mais vis\u00edvel em que o ver e ser visto passa a ser desej\u00e1vel e at\u00e9 um valor em si, me refiro \u00e0s influencers que voc\u00ea analisa no livro, e at\u00e9 nomeia uma nova figura &#8211; o <\/b><b><i>selfie influencer<\/i><\/b><b>. Por outro, h\u00e1 uma camada invis\u00edvel que \u00e9 justamente da gest\u00e3o algor\u00edtmica do comportamento e da aten\u00e7\u00e3o. Como essas duas dimens\u00f5es se relacionam no instagram?<\/b><\/p>\n<p><b>Anna Bentes:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Essas duas dimens\u00f5es t\u00eam a ver com a nuance que fa\u00e7o entre as no\u00e7\u00f5es de enganchamento e a de engajamento. Estamos mais familiarizados com a ideia de engajamento como uma esp\u00e9cie de palavra m\u00e1gica nas redes sociais, que descreve uma corrida pela aten\u00e7\u00e3o do outro e por ser objeto da aten\u00e7\u00e3o do outro. De um lado, temos a busca pela aten\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios por parte das plataformas para mant\u00ea-los agindo e interagindo ali e, por outro, temos a busca dos pr\u00f3prios usu\u00e1rios por mais likes, seguidores, coment\u00e1rios etc.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essas dimens\u00f5es t\u00eam a ver com o v\u00ednculo que a economia da aten\u00e7\u00e3o estabelece com o consumo. Ou seja, isso envolve todos aqueles atores, estrat\u00e9gias e processos que investem em formas de capturar a aten\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rios para que eles consumam conte\u00fados nas redes sociais e tamb\u00e9m toda din\u00e2mica de trocas intersubjetivas de aten\u00e7\u00e3o entre usu\u00e1rios.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como comentei antes, as empresas de big tech investem hoje em uma ci\u00eancia persuasiva que articula saberes psicol\u00f3gicos, publicit\u00e1rios e tecnol\u00f3gicos para manter os usu\u00e1rios ativos dentro de suas plataformas o m\u00e1ximo de tempo poss\u00edvel. Essa \u00e9 a dimens\u00e3o que chamo de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">enganchamento<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, em refer\u00eancia ao modelo do gancho tamb\u00e9m citado anteriormente, que inclui todas as estrat\u00e9gias t\u00e9cnicas e psicol\u00f3gicas de gest\u00e3o algor\u00edtmica da aten\u00e7\u00e3o e de modula\u00e7\u00e3o dos comportamentos. No entanto, algo importante que argumento no livro \u00e9 que, para compreendermos o que faz essas redes sociais ambientes t\u00e3o irresist\u00edveis e atraentes para os usu\u00e1rios, n\u00e3o podemos nos limitar \u00e0 compreens\u00e3o das t\u00e9cnicas persuasivas das empresas. Elas s\u00e3o muito poderosas, mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes para explicar porque estamos gastando tanto tempo ali dentro.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 preciso compreender tamb\u00e9m processos mais amplos do regime de subjetividade contempor\u00e2neo, que s\u00e3o multifatoriais, contingentes, envolvem fatores hist\u00f3ricos mais amplos, quest\u00f5es culturais e sociais. E \u00e9 essa dimens\u00e3o que chamo de<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> engajamento<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Para mim, o Instagram \u00e9 um dispositivo estrat\u00e9gico para compreender dois grandes deslocamentos no regime de subjetividade contempor\u00e2neo. O primeiro diz respeito ao eixo em torno do qual as subjetividades se constituem, que se desloca do interior para o exterior. Ou seja, essa subjetividade \u00e9 aquela que v\u00ea valor na visibilidade, que a troca de aten\u00e7\u00e3o \u2013 prestar aten\u00e7\u00e3o ao outro e ser objeto da aten\u00e7\u00e3o do outro \u2013 \u00e9 algo essencial para suas rela\u00e7\u00f5es consigo e com os outros. \u00c9 mostrando, exibindo, contando, narrando, registrando e compartilhando o que voc\u00ea faz que voc\u00ea diz quem voc\u00ea \u00e9 e, por sua vez, tamb\u00e9m se torna quem voc\u00ea \u00e9. Trata-se de uma subjetividade alterdigirida, que convoca e incita o outro a te olhar ininterruptamente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 o\u00a0 segundo deslocamento no regime de subjetividade contempor\u00e2neo importante para entender a din\u00e2mica social no Instagram diz respeito aos efeitos subjetivos do neoliberalismo e da cultura empreendedora. A subjetividade neoliberal, que vem se formando pelo menos desde a d\u00e9cada de 1970 e 80, enfatiza o indiv\u00edduo, aut\u00f4nomo e livre, como respons\u00e1vel pelo seu sucesso ou seu fracasso. Assim, esse \u201cself empreendedor\u201d enfrenta as exig\u00eancias de um processo infinito de otimiza\u00e7\u00e3o de si, de supera\u00e7\u00e3o dos seus limites e de maximiza\u00e7\u00e3o do seu capital humano. \u00c9 essa subjetividade que est\u00e1 correndo nos ritmos 24\/7, que v\u00e3o apagando progressivamente qualquer fronteira entre vida pessoal e vida profissional, dia e noite, claro e escuro, a\u00e7\u00e3o e repouso.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No Instagram e em outras redes sociais, essa subjetividade est\u00e1 o tempo todo preocupada em apresentar uma melhor vers\u00e3o de si mesmo nas redes sociais, mas sempre com uma pitada de realidade para parecer o mais aut\u00eantica poss\u00edvel. Esses deslocamentos s\u00e3o especialmente vis\u00edveis na figura dos influenciadores digitais, que s\u00e3o personagens emblem\u00e1ticos dessas mudan\u00e7as. No livro, eu falo dos influenciadores n\u00e3o apenas como uma nova profiss\u00e3o, mas como um modelo de subjetividade, que eu chamo de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">selfie influencer. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">Esse modelo subjetividade envolve tanto o deslocamento da subjetividade alterdirigida quanto aquele da subjetividade neoliberal. \u00c9 um termo que uso em refer\u00eancia \u00e0 no\u00e7\u00e3o do Nikolas Rose de \u201cself empreendedor\u201d para descrever o modelo de subjetividade neoliberal, mas que eu uso em rela\u00e7\u00e3o ao deslocamento contempor\u00e2neo do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">self <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">ao <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">selfie<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, as famosas fotos de si que, por defini\u00e7\u00e3o, s\u00e3o tiradas para serem compartilhadas na internet. E os influenciadores s\u00e3o uma esp\u00e9cie de tipo de pessoas totalmente bem-adaptadas a este regime empreendedor-perform\u00e1tico do Instagram.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Acho que isso foi um aspecto da pesquisa que se tornou ainda mais evidente nos \u00faltimos anos, sobretudo depois da pandemia. Hoje, vemos cada vez mais a import\u00e2ncia para diferentes profiss\u00f5es e setores de saber se posicionar, se expor e produzir conte\u00fados para redes sociais. Todos precisam ser um pouco influenciadores em suas profiss\u00f5es para terem visibilidade e reconhecimento. Ser empreendedor \u00e9 ser um pouco influenciador tamb\u00e9m.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Lavits: Em 2019, o Instagram anunciou que iria retirar a visualiza\u00e7\u00e3o da quantidade de likes de cada post. Segundo a plataforma, a medida visava o bem-estar e um cuidado com a sa\u00fade mental dos usu\u00e1rios. Mais recentemente, com o vazamento de uma s\u00e9rie de documentos internos da empresa &#8211; os <\/b><b><i>Facebook Files <\/i><\/b><b>&#8211; vimos que o Facebook (hoje Meta) estava ciente e pesquisava o impacto negativo do Instagram especialmente em adolescentes. Como voc\u00ea enxergou a retirada dos likes e o mais recente vazamento envolvendo as empresas do Mark Zuckerberg?<\/b><\/p>\n<p><b>Anna Bentes:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Em abril de 2019, para surpresa do pu\u0301blico, a empresa anunciou que comec\u0327aria a realizar alguns testes em relac\u0327a\u0303o a\u0300 visualizac\u0327a\u0303o das curtidas na plataforma, ou o que chamaram de \u201ccontagem privada de curtidas\u201d. Em um contexto p\u00f3s-Cambridge Analytica, o Facebook come\u00e7ou com uma s\u00e9rie de discursos e medidas visando melhorar a sua credibilidade, por exemplo, afirmando que \u201co futuro e\u0301 a privacidade\u201d e que essa seria a t\u00f4nica da sua fam\u00edlia de apps nos pr\u00f3ximos anos.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em um primeiro momento, poderia parecer que a retirada dos likes teria um impacto significativo nas formas de sociabilidade da plataforma. Por\u00e9m, \u00e9 uma medida que parece mais radical \u00e0 primeira vista do que realmente \u00e9. \u00c9\u00a0 muito importante dizer que, embora popularmente essa mudan\u00e7a tenha sido chamada de \u201cfim dos likes\u201d, a empresa efetivamente n\u00e3o acabou com\u00a0 like algum.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde o in\u00edcio, a ideia da pesquisa era mapear l\u00f3gicas mais amplas que n\u00e3o ficassem obsoletas t\u00e3o r\u00e1pido quanto o aplicativo poderia ficar. E os likes integram uma l\u00f3gica de mensura\u00e7\u00e3o e quantifica\u00e7\u00e3o que vai muito al\u00e9m do Instagram. Essa mensura\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente em todas as redes sociais e seus recursos de contagem de seguidores, amigos ou inscritos, em n\u00fameros de coment\u00e1rios e likes; mas est\u00e1 tamb\u00e9m em plataformas como Ifood e Uber com as notas de motoristas, entregadores e usu\u00e1rios, entre outros.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando o Instagram decidiu introduzir a contagem privada dos likes, empresa estava com a imagem p\u00fablica abalada e, em especial, o Instagram j\u00e1 havia sido apontado por uma s\u00e9rie de pesquisas externas como uma das redes sociais mais t\u00f3xicas para a sa\u00fade mental de seus usu\u00e1rios, particularmente, os mais jovens como mostrou, por exemplo, o relat\u00f3rio\u00a0 #StatusOfMind, realizado pelo Royal Society for Public Health em 2017. Na \u00e9poca, a medida parecia indicar que a empresa estava reconhecendo os problemas e estava tentando resolv\u00ea-los ou, ao menos, assim queria fazer parecer como ficou mais evidente recentemente com o vazamento dos Facebook Files.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As reportagens com documentos dos vazamentos mostraram como o Instagram, a partir de 2018, passou a investir em pesquisas internas \u2013 e chama aten\u00e7\u00e3o o fato deles manterem todas essas pesquisas em sigilo, uma vez que tais resultados s\u00e3o de interesse p\u00fablico \u2013 para investigar os impactos da rede social na sa\u00fade mental dos seus usu\u00e1rios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De acordo com a apura\u00e7\u00e3o do WSJ, a empresa sabia tamb\u00e9m que a compara\u00e7\u00e3o social negativa poderia agravar outras quest\u00f5es de sa\u00fade mental como ansiedade, depress\u00e3o, solid\u00e3o, impulsos suicidas, dist\u00farbios alimentares, etc. O WSJ mostra ainda que os pr\u00f3prios funcion\u00e1rios do Instagram apresentavam solu\u00e7\u00f5es que nunca foram adotadas, como diminuir os filtros de embelezamento, menos conte\u00fados de celebridades, aumentar as ferramentas para pausas no uso etc.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E uma das coisas que achei mais chocantes no que foi revelado sobre o Instagram especificamente \u00e9 que eles contam que, em 2019, quando estavam trabalhando no projeto de retirada dos likes, eles primeiro testaram em uma popula\u00e7\u00e3o pequena para ver se isso teria de fato um efeito na sa\u00fade mental e eles viram que essa medida, na verdade, n\u00e3o fazia tanta diferen\u00e7a positiva no bem-estar mental, mas tamb\u00e9m n\u00e3o piorava. Depois disso, o Facebook decide ir em frente com a implementa\u00e7\u00e3o, pois eles argumentam que a medida, embora n\u00e3o fosse t\u00e3o efetiva, iria causar impacto positivo na imprensa e na opini\u00e3o p\u00fablica.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ou seja, era s\u00f3 uma quest\u00e3o de apar\u00eancia, veja s\u00f3 a ironia n\u00e9, considerando todos os jogos ver e ser visto presentes cotidianamente nesta plataforma. Assim como os modos de exposi\u00e7\u00e3o na rede social, para a pr\u00f3pria empresa, importa mais parecer do que ser. \u00c9 mais f\u00e1cil parecer que estava se preocupando com a sa\u00fade mental de seus usu\u00e1rios e que estava fazendo alguma coisa em rela\u00e7\u00e3o a isso do que estar fazendo algo efetivamente para contornar a quest\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Claro que, assim como eles apostaram, n\u00f3s poder\u00edamos supor que a retirada da vis\u00e3o dos likes de outras pessoas poderia ajudar a diminuir esse sentimento de compara\u00e7\u00e3o, mas algo que eu acho mais significativo \u00e9 que os likes seguiam sendo vistos pelos usu\u00e1rios. Os likes dados aos seus pr\u00f3prios posts e, esse sim \u00e9 um mecanismo com\u00a0 impacto significativo na sa\u00fade mental, pois faz as pessoas se sentirem queridas ou n\u00e3o e \u00e9 tamb\u00e9m extremamente viciante. Ironicamente, mais recentemente, em maio de 2021, eles decidiram voltar atr\u00e1s com a contagem dos likes, mas com a diferen\u00e7a que agora pode ser uma op\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios visualizar ou n\u00e3o a contagem dos likes.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quase um tique: economia da aten\u00e7\u00e3o, vigil\u00e2ncia e espet\u00e1culo em uma rede social, da pesquisadora Anna Bentes, acaba de ser lan\u00e7ado pela Editora UFRJ. 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