{"id":9146,"date":"2021-07-23T18:19:33","date_gmt":"2021-07-23T21:19:33","guid":{"rendered":"https:\/\/lavits.bemvindo.co\/a-guerra-dos-mundos-a-fratura-colonial-e-a-aspiracao-de-uma-conviccao-coletiva-pela-vida-digna-entrevista-de-alana-moraes-ao-ihu\/"},"modified":"2022-05-19T17:19:52","modified_gmt":"2022-05-19T20:19:52","slug":"a-guerra-dos-mundos-a-fratura-colonial-e-a-aspiracao-de-uma-conviccao-coletiva-pela-vida-digna-entrevista-de-alana-moraes-ao-ihu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lavits.org\/en\/a-guerra-dos-mundos-a-fratura-colonial-e-a-aspiracao-de-uma-conviccao-coletiva-pela-vida-digna-entrevista-de-alana-moraes-ao-ihu\/","title":{"rendered":"&#8220;A guerra dos mundos, a fratura colonial e a aspira\u00e7\u00e3o de uma convic\u00e7\u00e3o coletiva pela vida digna&#8221;: entrevista de Alana Moraes ao IHU"},"content":{"rendered":"<p><strong>Publicado originalmente <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/611172-a-guerra-dos-mundos-a-fratura-colonial-e-a-aspiracao-de-uma-conviccao-coletiva-pela-vida-digna-entrevista-especial-com-alana-moraes\">aqui<\/a><\/strong><\/p>\n<div class=\"author\">\n<p>Por:\u00a0<strong>Patricia Fachin |\u00a0<\/strong>19 Julho 2021 | Foto: Jos\u00e9 Cruz &#8211; Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n<\/div>\n<p>A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/597264-o-coronavirus-o-perfeito-desastre-para-o-capitalismo-do-desastre\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pandemia de Covid-19<\/a>\u00a0pode ser compreendida como uma das evid\u00eancias &#8220;da\u00a0<strong>cat\u00e1strofe do capitalismo extrativista<\/strong>&#8220;. \u00c9 a partir dessa leitura que\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/583308-a-polarizacao-politica-as-paixoes-da-sociedade-e-a-disputa-pelos-rumos-do-neoliberalismo-entrevista-especial-com-alana-moraes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Alana Moraes<\/a>\u00a0busca analisar n\u00e3o s\u00f3 a\u00a0<strong>crise sanit\u00e1ria<\/strong>, mas tamb\u00e9m a\u00a0<strong>conjuntura pol\u00edtica e social da sociedade brasileira<\/strong>, que agora vive mais um cap\u00edtulo sob a gest\u00e3o do\u00a0<strong>governo Bolsonaro<\/strong>.<\/p>\n<p>No atual contexto de &#8220;<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/610360-500-mil-mortos-sociedade-esta-confusa-abandonada-e-adoecida-frases-do-dia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">cat\u00e1strofe<\/a>&#8220;, ela acentua, ainda n\u00e3o foi poss\u00edvel &#8220;construir mobiliza\u00e7\u00f5es sociais ou mesmo uma convic\u00e7\u00e3o coletiva que pudesse fazer da\u00a0<strong>luta pela vida digna<\/strong>, em outras rela\u00e7\u00f5es com a Terra, uma luta inegoci\u00e1vel&#8221;. Ao inv\u00e9s de bradarmos os slogans &#8220;vacina e comida no prato&#8221;, diz, &#8220;seria o momento de nos perguntarmos se esse\u00a0<strong>af\u00e3 tecno-solucionista em torno da vacina<\/strong>\u00a0n\u00e3o seria uma forma de resolvermos r\u00e1pido demais um problema que tem a ver com o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/596242-colapso-sistemico-global\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">colapso desse mundo<\/a>\u00a0e seus aparatos t\u00e9cnicos (o que inclui obviamente a\u00a0<strong>ind\u00fastria farmac\u00eautica<\/strong>, parte important\u00edssima do agroneg\u00f3cio); ou de nos perguntarmos se a &#8216;comida&#8217; que chega ao nosso prato n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m essa que o\u00a0<strong>agroneg\u00f3cio<\/strong>\u00a0produz \u00e0s custas de\u00a0<strong>pandemias<\/strong>,\u00a0<strong>envenenamento<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>devasta\u00e7\u00e3o ambiental<\/strong>&#8220;.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, concedida por e-mail ao\u00a0<strong>Instituto Humanitas Unisinos &#8211; IHU<\/strong>,\u00a0<strong>Alana<\/strong>\u00a0ressalta que o que est\u00e1 em jogo hoje no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0&#8220;\u00e9 a express\u00e3o mais radical da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/609782-a-guerra-dos-mundos-a-brasileira-precisamos-abandonar-a-pretensao-de-pautas-unificadas-entrevista-especial-com-marcos-de-almeida-matos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Guerra de Mundos<\/a>\u00a0que estamos vivendo e muitos dos seus termos excedem a pol\u00edtica moderna porque justamente revelam nossa fratura colonial. Ou seja, \u00e9 uma guerra que n\u00e3o adquire inteligibilidade nos termos da pol\u00edtica institu\u00edda porque ela convoca \u2013 entre aqueles que se defendem \u2013 entidades outras que humanas: esp\u00edritos, outras esp\u00e9cies, a mem\u00f3ria dos mortos, as roupas marcadas de sangue, vis\u00f5es, o sagrado, pressentimentos, o tempo do sonho, adoecimentos, cozinhas e curas \u2013 dimens\u00f5es que se encontram fora dos termos dessa\u00a0<strong>democracia<\/strong>\u00a0ou das\u00a0<strong>heran\u00e7as republicanas<\/strong>&#8220;.<\/p>\n<p>A seguir, ela tamb\u00e9m reflete sobre a &#8220;<strong>pol\u00edtica algoritmizada<\/strong>&#8220;, que &#8220;define estrat\u00e9gias discursivas, fabrica candidatos e lideran\u00e7as pol\u00edticas hibridizados em &#8216;influenciadores'&#8221;. E adverte: &#8220;Temos que nos perguntar continuadamente sobre o que est\u00e1, de certa forma, &#8216;desaparecido&#8217; dessa\u00a0<strong>pol\u00edtica algoritmizada<\/strong>; quais os &#8216;pontos cegos&#8217; dessa pol\u00edtica de engajamentos e mobiliza\u00e7\u00f5es permanentes, o que \u00e9 aquilo que resiste a tornar-se recurso, identidade, e que nos sinaliza assim para lugares mais promissores de cria\u00e7\u00e3o e sustenta\u00e7\u00e3o de outros mundos&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/572943-nao-existe-outro-mundo-para-se-construir-existem-outras-relacoes-e-modos-de-vida-a-se-construir-nesse-mesmo-mundo-entrevista-especial-com-alana-moraes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Alana Moraes<\/a>\u00a0\u00e9 graduada em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro &#8211; UFRJ, mestra em Sociologia e Antropologia e doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ. Atualmente, \u00e9\u00a0pesquisadora do Pimentalab-Unifesp e do Lavits, e est\u00e1 organizando o col\u00f3quio\u00a0<strong>Guerra de Mundos e Fraturas extrativistas na Am\u00e9rica Latina<\/strong>. Mais informa\u00e7\u00f5es est\u00e3o dispon\u00edveis\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/guerrademundos.tramadora.net\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>. \u00c9 feminista e integrante do coletivo Tramadora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Confira a entrevista.<\/h3>\n<p><strong>IHU &#8211; Na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/espiritualidade\/159-noticias\/entrevistas\/583308-a-polarizacao-politica-as-paixoes-da-sociedade-e-a-disputa-pelos-rumos-do-neoliberalismo-entrevista-especial-com-alana-moraes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">entrevista que nos concedeu em 2018<\/a>, voc\u00ea destacou as tens\u00f5es sociais que estavam em curso na sociedade brasileira quando o presidente Bolsonaro foi eleito. Elas se intensificaram ou foram de algum modo reorganizadas, a partir da an\u00e1lise da sociedade acerca do governo Bolsonaro, especialmente na gest\u00e3o da crise sanit\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alana Moraes &#8211;<\/strong>\u00a0Durante os primeiros meses da\u00a0<strong>pandemia de Covid-19<\/strong>, n\u00f3s abrimos um laborat\u00f3rio coletivo e remoto entre pesquisadoras, artistas, lutadoras, professoras, para pensar juntes o significado daquele acontecimento que tinha a for\u00e7a de reconfigurar nossas vidas e pr\u00e1ticas de conhecimento em uma inflex\u00e3o planet\u00e1ria geo-hist\u00f3rica. O laborat\u00f3rio se chamou &#8220;<strong>Zona de Cont\u00e1gio<\/strong>&#8221; porque nos parecia importante retomar a for\u00e7a do cont\u00e1gio, n\u00e3o pelo emergente medo imunit\u00e1rio, mas pelas possibilidades de assumir um lugar de risco, imprevisibilidade e vulnerabilidade como ponto de partida para nossas conversas.<\/p>\n<p>Naquele momento, houve uma explos\u00e3o de reflex\u00f5es, muitos textos e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/599985\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">previs\u00f5es sobre os impactos da pandemia<\/a>\u00a0\u2013 algumas an\u00e1lises apostavam que a experi\u00eancia pand\u00eamica iria abrir fraturas sem precedentes no regime capitalista e suas formas de dom\u00ednio; outras falavam em um recrudescimento do\u00a0<strong>controle securit\u00e1rio e da biovigil\u00e2ncia<\/strong>. Enquanto tent\u00e1vamos dar conta de todas as leituras, sent\u00edamos tamb\u00e9m que era preciso criar um &#8220;lugar de mirada&#8221;, um regime de sensibilidade que nos permitisse compreender o que se passava; uma localiza\u00e7\u00e3o \u00e9tica e est\u00e9tica que pudesse conter todas as fric\u00e7\u00f5es que naquele momento se faziam presentes entre n\u00f3s: a domesticidade e seus ordenamentos, a escassez da presen\u00e7a, o cansa\u00e7o do corpo, a satura\u00e7\u00e3o informacional, o luto coletivo, o colapso da forma metr\u00f3pole, a degrada\u00e7\u00e3o das nossas condi\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas, o assombro \u2013 tudo aquilo que os\u00a0<strong>ambientes tecnomediados<\/strong>\u00a0pareciam querer esconder como &#8220;ru\u00eddo&#8221; nos pequenos quadrados e<strong>\u00a0novos protocolos<\/strong>\u00a0de conversa, aulas, avalia\u00e7\u00f5es, trabalhos que as plataformas nos exigiam.<\/p>\n<p>Rapidamente nos pareceu importante voltar a quest\u00f5es muito simples como, por exemplo, pensar sobre o que \u00e9 um encontro nessas condi\u00e7\u00f5es ou que tipo de experi\u00eancias ainda era poss\u00edvel criar? Ou como experimentar varia\u00e7\u00f5es do corpo diante das telas, recuperar os sil\u00eancios e as interrup\u00e7\u00f5es n\u00e3o previstas; como seria praticar coletivamente uma\u00a0<strong>forma de conhecimento<\/strong>\u00a0que assume as ru\u00ednas, a cat\u00e1strofe, a destrui\u00e7\u00e3o como forma de cumplicidade?<\/p>\n<p>Enquanto isso, o\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0se tornava um dos maiores laborat\u00f3rios pand\u00eamicos do mundo. Mas apesar de todas as evid\u00eancias da cat\u00e1strofe em curso, nos pareciam insuficientes as respostas oferecidas em enunciados bastante reduzidos como o de &#8220;fique em casa&#8221; ou &#8220;viva a ci\u00eancia&#8221;. Ent\u00e3o partimos em busca de outras paisagens que fossem al\u00e9m dos textos modernos. Levar a s\u00e9rio a intrus\u00e3o viral e a\u00a0<strong>emerg\u00eancia pand\u00eamica<\/strong>\u00a0nos fazia tentar recompor a cartografia patog\u00eanica que conectava nossos corpos a um mundo de\u00a0<strong>monoculturas<\/strong>,\u00a0<strong>toxicidades<\/strong>,\u00a0<strong>extra\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>simplifica\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica<\/strong>. A escassez produzida pela\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/565008-a-rainha-da-selva-soja-destroi-a-amazonia-e-chantageia-o-pais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">monocultura<\/a>\u00a0e a\u00a0<strong>expans\u00e3o das fronteiras agropecu\u00e1rias<\/strong>, da\u00a0<strong>m\u00e1quina extrativista<\/strong>\u00a0e suas tecnologias \u2013 tornada opaca pela forma-cidade \u2013 se expressavam agora em nosso corpo como doen\u00e7a infecciosa e era essa coextens\u00e3o entre o humano e o mundo vivo que entrava em cena como a grande quest\u00e3o febril dos nossos tempos, implodindo todas as escalas que pretensamente separavam o &#8220;local&#8221; do planet\u00e1rio. Era uma condi\u00e7\u00e3o j\u00e1 anunciada por pensadoras da terra, xam\u00e3s, mestres quilombolas que testemunham tamb\u00e9m a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/608487-agrotoxicos-o-veneno-esta-no-ar-no-solo-na-agua-e-na-mesa-dos-gauchos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">guerra biol\u00f3gica<\/a>\u00a0em curso pela contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas, mortes de outras esp\u00e9cies, pela degrada\u00e7\u00e3o de ecossistemas inteiros que se expressa tamb\u00e9m no enfraquecimento do corpo em uma esp\u00e9cie de viol\u00eancia lenta, metab\u00f3lica.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a escassez e brutalidade desse\u00a0<strong>mundo extrativista<\/strong>, que de certa forma conferem a materialidade do que se pode chamar de &#8220;<strong>bolsonarismo<\/strong>&#8220;, tamb\u00e9m se expressam na obstru\u00e7\u00e3o imaginativa da\u00a0<strong>pol\u00edtica progressista<\/strong>\u00a0que segue operando em termos de &#8220;retomada do crescimento&#8221;, &#8220;inclus\u00e3o&#8221;, &#8220;desenvolvimento&#8221;. Parte importante das\u00a0<strong>tradi\u00e7\u00f5es de esquerda<\/strong>\u00a0segue ent\u00e3o pensando o mundo a partir de uma separabilidade constitutiva (e moderna) entre o que seria o &#8220;<strong>meio ambiente<\/strong>&#8221; e a &#8220;<strong>justi\u00e7a social<\/strong>&#8220;, segue renovando a promessa de &#8220;<strong>inclus\u00e3o<\/strong>&#8221; nesse mundo de destrui\u00e7\u00e3o acelerada, adoecimentos, de extra\u00e7\u00e3o racializada, desconsidera os testemunhos sensores do corpo vivo e inconforme como revela\u00e7\u00f5es das inscri\u00e7\u00f5es do poder, como objeto e limite de toda pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>pandemia de Covid-19<\/strong>\u00a0fornece a tr\u00e1gica materialidade para a inadi\u00e1vel constata\u00e7\u00e3o da intrinsecabilidade entre as &#8220;<strong>quest\u00f5es sociais<\/strong>&#8221; e as &#8220;<strong>quest\u00f5es ambientais<\/strong>&#8220;, mas tamb\u00e9m nos apresenta os\u00a0<strong>limites da forma-metr\u00f3pole<\/strong>\u00a0como esse conjunto de dispositivos que faz funcionar o ocultamento da rela\u00e7\u00e3o entre o que nos alimenta, nos abastece, nos transporta com os mundos que precisam sucumbir para servir a essa fic\u00e7\u00e3o (bem policiada) de &#8220;bem-estar&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 A crise, intensificada pela pandemia, est\u00e1, em alguma medida, criando possibilidades de rea\u00e7\u00e3o social a partir das \u00faltimas manifesta\u00e7\u00f5es, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Alana Moraes &#8211;<\/strong>\u00a0Essas evid\u00eancias da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/606447-o-extrativismo-nao-e-uma-alternativa-valida-para-o-desenvolvimento-entrevista-com-horacio-machado-araoz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">cat\u00e1strofe do capitalismo extrativista<\/a>\u00a0(mesmo em sua gest\u00e3o progressista) se dissiparam rapidamente e n\u00e3o foram capazes de constituir mobiliza\u00e7\u00f5es sociais ou mesmo uma convic\u00e7\u00e3o coletiva que pudesse fazer da luta pela vida digna, em outras rela\u00e7\u00f5es com a Terra, uma luta inegoci\u00e1vel. Ao inv\u00e9s de &#8220;<strong>vacina e comida no prato<\/strong>&#8221; seria o momento de nos perguntarmos se esse\u00a0<strong>af\u00e3 tecno-solucionista em torno da vacina<\/strong>\u00a0n\u00e3o seria uma forma de resolvermos r\u00e1pido demais um problema que tem a ver com o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/609578-a-beira-do-abismo-uma-sociedade-inerte-diante-do-colapso-climatico-entrevista-especial-com-luiz-marquez\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">colapso desse mundo<\/a>\u00a0e seus aparatos t\u00e9cnicos (o que inclui obviamente a ind\u00fastria farmac\u00eautica, parte important\u00edssima do\u00a0<strong>agroneg\u00f3cio<\/strong>); ou de nos perguntarmos se a &#8220;<strong>comida<\/strong>&#8221; que chega ao nosso prato n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m essa que o agroneg\u00f3cio produz \u00e0s custas de\u00a0<strong>pandemias<\/strong>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/604654-agro-e-toxico-somos-o-pais-que-mais-consome-agrotoxicos-no-planeta\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">envenenamento<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/609546-relatorio-expoe-agronegocio-como-grande-motor-do-desmatamento-ilegal-de-florestas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">devasta\u00e7\u00e3o ambiental<\/a>.<\/p>\n<h3>Bolsonarismo e agroneg\u00f3cio<\/h3>\n<p>O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/610999\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">bolsonarismo<\/a>, por sua vez, n\u00e3o tem d\u00favidas sobre apostar todas as suas fichas nos ataques contra\u00a0<strong>direitos territoriais ind\u00edgenas<\/strong>, oculta\u00e7\u00e3o ou\u00a0<strong>falsifica\u00e7\u00e3o de dados sobre desmatamento<\/strong>, autoriza\u00e7\u00e3o para o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/610453\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">tr\u00e1fico ilegal de madeiras<\/a>\u00a0e para o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/595670-um-em-cada-5-agrotoxicos-liberados-no-ultimo-ano-e-extremamente-toxico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">uso de mais agrot\u00f3xicos<\/a>, o\u00a0<strong>avan\u00e7o da grilagem<\/strong>\u00a0e do\u00a0<strong>garimpo ilegal<\/strong>. De certa forma, \u00e9 o agroneg\u00f3cio o principal garantidor desse governo, \u00e9 o DNA do\u00a0<strong>fascismo neocolonial<\/strong>\u00a0e do\u00a0<strong>capitalismo de asfixia<\/strong>\u00a0e &#8220;<strong>pacifica\u00e7\u00f5es<\/strong>&#8220;. A\u00a0<strong>Fiocruz<\/strong>\u00a0acaba de divulgar uma pesquisa que mostra a rela\u00e7\u00e3o entre a\u00a0<strong>dissemina\u00e7\u00e3o de Covid-19 na Amaz\u00f4nia<\/strong>\u00a0e a expans\u00e3o da<strong>\u00a0fronteira agr\u00edcola<\/strong>, da\u00a0<strong>pecu\u00e1ria<\/strong>\u00a0e do\u00a0<strong>extrativismo<\/strong>.<\/p>\n<p>Por outro lado, a\u00a0<strong>ind\u00fastria da agropecu\u00e1ria<\/strong>\u00a0\u00e9 um setor que testemunha uma das maiores\u00a0<strong>taxas de suic\u00eddio no Brasil<\/strong>\u00a0entre seus trabalhadores. No\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, de 2007 a 2015 foram registrados 77.373 suic\u00eddios, cerca de 8.597 por ano nesse setor. Algumas pesquisas v\u00eam apontando a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/592674-setembro-amarelo-ligacao-entre-suicidios-e-agrotoxicos-deve-ser-debatida\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">rela\u00e7\u00e3o entre subst\u00e2ncias qu\u00edmicas presentes nos agrot\u00f3xicos atuando no sistema nervoso central<\/a>, podendo desencadear quadros de depress\u00e3o e ansiedade entre os trabalhadores. H\u00e1 registros de crescente\u00a0<strong>uso de agrot\u00f3xicos para suic\u00eddio por envenenamento<\/strong>, por parte de trabalhadores que os manuseiam. Ainda assim, todos esses materiais que ajudam a compor a\u00a0<strong>cat\u00e1strofe ambiental-sanit\u00e1ria-s\u00f3cio-extrativista<\/strong>\u00a0em que vivemos hoje parecem n\u00e3o ter espa\u00e7o na cena do pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Os mapas das\u00a0<strong>mortes decorrentes de Covid-19<\/strong>\u00a0tamb\u00e9m revelavam uma outra paisagem pr\u00f3pria da<strong>\u00a0biopol\u00edtica\/necropol\u00edtica extrativista<\/strong>, uma paisagem repleta de<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/611124-numa-atmosfera-de-necropoder-instalada-bolsonaro-apenas-atualiza-politica-de-morte-entrevista-especial-com-paulo-bueno\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00a0zonas racializadas de descartabilidade<\/a>, exaust\u00e3o e militariza\u00e7\u00e3o. Os &#8220;servi\u00e7os essenciais&#8221; tornam-se parte importante do dispositivo legal que permite a morte de alguns em nome do &#8220;sacrif\u00edcio&#8221; pela economia nacional que beneficia uma pequena minoria. S\u00e3o tamb\u00e9m considerados territ\u00f3rios sacrific\u00e1veis aqueles que podem ser inundados por\u00a0<strong>grandes hidrel\u00e9tricas<\/strong>, por\u00a0<strong>grandes projetos de minera\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0em nome do &#8220;<strong>desenvolvimento<\/strong>&#8221; e da &#8220;<strong>inclus\u00e3o<\/strong>&#8221; em um &#8220;<strong>projeto nacional<\/strong>&#8221; que supostamente beneficia &#8220;maiorias&#8221;.<\/p>\n<p>As ocupa\u00e7\u00f5es das pessoas que mais morreram pela\u00a0<strong>doen\u00e7a infecciosa<\/strong>\u00a0fabricada pelo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/606299-o-colapso-socioambiental-nao-e-um-evento-e-o-processo-em-curso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">colapso socioambiental<\/a>\u00a0s\u00e3o aquelas que fazem funcionar silenciosamente o desempenho dos\u00a0<strong>fluxos do capital<\/strong>\u00a0nos grandes centros urbanos (que s\u00e3o respons\u00e1veis pela emiss\u00e3o de mais de 70% dos gases de efeito estufa): motoristas, entregadores, trabalhadoras da limpeza, dos cuidados, trabalhadores do agroneg\u00f3cio. Essas pessoas tamb\u00e9m s\u00e3o parte de\u00a0<strong>territ\u00f3rios racializados<\/strong>\u00a0que testemunham o avan\u00e7o da\u00a0<strong>militariza\u00e7\u00e3o<\/strong>, territ\u00f3rios nos quais as opera\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia cresceram junto com a dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Estamos j\u00e1 vivendo \u2013 nas cidades, nas florestas \u2013 a cat\u00e1strofe do\u00a0<strong>novo regime clim\u00e1tico do capitalismo de asfixia<\/strong>, mas ainda assim nos custa compreender como essa constata\u00e7\u00e3o n\u00e3o entrou no horizonte das esquerdas institucionais. Como conta um dos slogans virais do Comit\u00ea Invis\u00edvel: \u201ctodas as raz\u00f5es est\u00e3o reunidas\u201d, mas, no entanto, \u201cn\u00e3o s\u00e3o as raz\u00f5es que fazem as revolu\u00e7\u00f5es, s\u00e3o os corpos. E os corpos est\u00e3o diante das telas\u201d.<\/p>\n<h3>As fraturas e a sensibilidade das esquerdas<\/h3>\n<p>Por que essas fraturas n\u00e3o entram nos mapas e nos regimes de sensibilidade das\u00a0<strong>esquerdas progressistas<\/strong>? Por que a \u00e1gua cheia de veneno que sai das nossas torneiras e cozinha nossos alimentos n\u00e3o \u00e9 uma evid\u00eancia suficiente para deslocar nossos sentidos de urg\u00eancia? Por que as\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/609068\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">chacinas<\/a>\u00a0e avan\u00e7o de grupos armados no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/609083-carnificina-na-favela-o-espetaculo-dos-corpos-tombados-no-jacarezinho-artigo-de-pe-gege-natalino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">massacre de corpos racializados<\/a>\u00a0e seus territ\u00f3rios n\u00e3o adquire lugar nas cenas do pol\u00edtico? Penso que o que est\u00e1 em jogo hoje no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0com mais de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/610379\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">500 mil mortes pela Covid-19<\/a>, amea\u00e7as e assassinatos de lideran\u00e7as da terra, avan\u00e7o da contamina\u00e7\u00e3o da terra, das \u00e1guas, do desmatamento, das chacinas e exterm\u00ednio autorizado, \u00e9 a express\u00e3o mais radical da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/610718-isso-aqui-e-uma-guerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Guerra de Mundos que estamos vivendo<\/a>\u00a0e muitos dos seus termos excedem a pol\u00edtica moderna porque justamente revelam nossa fratura colonial. Ou seja, \u00e9 uma guerra que n\u00e3o adquire inteligibilidade nos termos da pol\u00edtica institu\u00edda porque ela convoca \u2013 entre aqueles que se defendem \u2013 entidades outras que humanas: esp\u00edritos, outras esp\u00e9cies, a mem\u00f3ria dos mortos, as roupas marcadas de sangue, vis\u00f5es, o sagrado, pressentimentos, o tempo do sonho, adoecimentos, cozinhas e curas \u2013 dimens\u00f5es que se encontram fora dos termos dessa democracia ou das heran\u00e7as republicanas.<\/p>\n<h3>Algoritmiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica<\/h3>\n<p>Desde um certo ponto de vista mais institucionalizado, cujo horizonte \u00e9 o Estado, a urg\u00eancia est\u00e1 concentrada no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/608565-2022-um-presidente-de-centro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pleito eleitoral de 2022<\/a>, na constru\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as eleitorais, no fortalecimento das figuras p\u00fablicas que est\u00e3o desde j\u00e1 trabalhando a visibiliza\u00e7\u00e3o de si nas redes sociais. Ou seja,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/610629-trabalho-na-dsi-versus-flexibilizacao-terceirizacao-e-uberizacao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">trabalhando para os algoritmos das plataformas corporativas<\/a>\u00a0que hoje canalizam e administram uma dissimula\u00e7\u00e3o de &#8220;esfera p\u00fablica&#8221; que, por sua vez, se apresentam como o espa\u00e7o total de toda pol\u00edtica. S\u00e3o esses\u00a0<strong>algoritmos<\/strong>\u00a0que imp\u00f5em suas m\u00e9tricas e modos de hierarquiza\u00e7\u00e3o de assuntos e temas, administram nossos estados ps\u00edquicos que alimentam fracos ou fortes &#8220;engajamentos&#8221;, nos oferecem recompensas, produzem fronteiras identit\u00e1rias bem ajustadas para essa economia cognitiva que nos mant\u00e9m mobilizados ainda que distantes, gerando informa\u00e7\u00f5es, reagindo ao fluxo incessante de est\u00edmulos, produzindo lugares \u00e9ticos e est\u00e9ticos de compreens\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Essa din\u00e2mica cibermediada que se acentuou ainda mais na\u00a0<strong>pandemia<\/strong>\u00a0toma uma centralidade inaudita, se infiltra na constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e seus \u00edndices de &#8220;sucessos&#8221; ou &#8220;fracassos&#8221;, define estrat\u00e9gias discursivas, fabrica candidatos e lideran\u00e7as pol\u00edticas hibridizados em &#8220;influenciadores&#8221; que convocam ades\u00f5es a partir de enunciados simplificados, mas intensamente mobilizadores. Essa\u00a0<strong>pol\u00edtica algoritmizada<\/strong>\u00a0(uma somatopol\u00edtica, nos termos do\u00a0<strong>Preciado<\/strong>) nos imp\u00f5e uma nova temporalidade, um regime est\u00e9tico e sens\u00edvel, fortalece projetos individuais e uma nova geometria de &#8220;<em>clusters<\/em>&#8221; em torno de indiv\u00edduos. Toda a\u00e7\u00e3o est\u00e1 submetida a um c\u00e1lculo midi\u00e1tico de circula\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/611106-versao-grotesca-de-sao-sebastiao-flechado-pelo-cateter-frases-do-dia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">imagens-iscas<\/a>\u00a0que possam ser convertidas em\u00a0<strong>capital eleitoral<\/strong>\u00a0\u2013 seja uma vota\u00e7\u00e3o em uma comiss\u00e3o no\u00a0<strong>Congresso Nacional<\/strong>, seja na a\u00e7\u00e3o de entrega de cestas b\u00e1sicas, em uma cena do cotidiano dom\u00e9stico, seja a presen\u00e7a em uma manifesta\u00e7\u00e3o: tudo pode ser convertido em n\u00famero de visualiza\u00e7\u00f5es e m\u00e9tricas de &#8220;alcance&#8221; competindo pela nossa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>algoritmiza\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico<\/strong>\u00a0\u00e9 um fen\u00f4meno inescap\u00e1vel para a compreens\u00e3o do momento que estamos vivendo de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/608733-o-brasil-de-joelhos-ao-colonialismo-digital\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">colonialismo digital<\/a>\u00a0e ela entrou em uma rela\u00e7\u00e3o forte de retroalimenta\u00e7\u00e3o com a\u00a0<strong>pol\u00edtica eleitoral<\/strong>: ambas fazem funcionar disposi\u00e7\u00f5es quantitativas de ades\u00e3o, zero ou um, ganhar ou perder; ambas, em associa\u00e7\u00e3o, fazem funcionar um conjunto de dispositivos maqu\u00ednicos, subjetivos, metab\u00f3licos que convertem a vida, as lutas coletivas, nossos afetos, revoltas e diferen\u00e7as em recursos. Acabam assim neutralizando ou obstruindo uma s\u00e9rie de pr\u00e1ticas que n\u00e3o s\u00e3o &#8220;rent\u00e1veis&#8221;, que n\u00e3o s\u00e3o funcionais para a m\u00e1quina de mobiliza\u00e7\u00e3o total, de antecipa\u00e7\u00e3o e condu\u00e7\u00e3o de comportamentos.<\/p>\n<p>Isso tudo tem um impacto ainda pouco considerado pelas tradi\u00e7\u00f5es de\u00a0<strong>esquerda<\/strong>: ainda que nos pare\u00e7a evidente que a\u00a0<strong>algoritmiza\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico<\/strong>\u00a0\u00e9 um fator extremamente relevante para compreender o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/608123-bolsonarismo-como-identidade-coletiva-a-logica-sacrificial-e-a-brutalizacao-dos-afetos-entrevista-especial-com-rodrigo-nunes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">bolsonarismo<\/a>\u00a0e toda a chamada<strong><em>\u00a0alt-right<\/em><\/strong>, precisamos nos perguntar como esse fen\u00f4meno reconfigurou as lutas coletivas, os movimentos sociais, as formas coletivas de fazer e de decidir; como ele envenenou nossas pr\u00e1ticas, conhecimentos e imagina\u00e7\u00f5es n\u00e3o &#8220;rent\u00e1veis&#8221;, as que n\u00e3o demandam nem reconhecimento, nem representa\u00e7\u00e3o: seja uma intelig\u00eancia de combate que nos exige invisibilidade, n\u00e3o-rastreamento; seja nossas pr\u00e1ticas de cuidado que nos exigem uma aten\u00e7\u00e3o ao corpo, ao que pode o corpo em muitas formas de experimenta\u00e7\u00f5es relacionais e dissidentes com humanos e outros que humanos; seja uma outra temporalidade de comunica\u00e7\u00e3o, outras po\u00e9ticas de rela\u00e7\u00e3o e dramatiza\u00e7\u00f5es compartilhadas que implodem a gram\u00e1tica de rea\u00e7\u00f5es limitadas oferecida pelas redes sociais e sua total transpar\u00eancia. O\u00a0<strong>Glissant<\/strong> (bem lembrado pelas amigues do <strong>Fecunda\u00e7\u00f5es Cruzadas<\/strong>) falava sobre a import\u00e2ncia de pensarmos sobre um &#8220;<strong>direito \u00e0 opacidade<\/strong>&#8221; quando a gram\u00e1tica do &#8220;<strong>direito \u00e0 diferen\u00e7a<\/strong>&#8221; se esgota e parece ser um combust\u00edvel fundamental para a\u00a0<strong>pol\u00edtica algoritmizada<\/strong>\u00a0de visibilidades que concorrem para nossa aten\u00e7\u00e3o e ades\u00f5es.<\/p>\n<p>Temos que lembrar que o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/570046\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Podemos<\/a>\u00a0(partido da &#8220;nova esquerda&#8221; da\u00a0<strong>Espanha<\/strong>), durante alguns anos, serviu como &#8220;paradigma&#8221; para a\u00a0<strong>renova\u00e7\u00e3o da esquerda brasileira<\/strong>\u00a0\u2013 muito porque os espanh\u00f3is pareciam ter tido sucesso nas estrat\u00e9gias comunicativas das redes; pareciam ter compreendido o funcionamento dessa pol\u00edtica algoritmizada, sua linguagem e c\u00f3digos para chegar ao poder. Mas o partido se deteriorou em pouqu\u00edssimo tempo e muito dessa deteriora\u00e7\u00e3o acelerada teve a ver com\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/586212\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">guerras internas<\/a>\u00a0entre suas lideran\u00e7as supermidi\u00e1ticas; uma din\u00e2mica que inviabilizou a constru\u00e7\u00e3o coletiva e consumiu por completo todo o impulso inventivo da revolta do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/542806\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">15M<\/a>\u00a0que o permitiu surgir. Ser\u00e1 que nossos horizontes est\u00e3o mesmo nessas experi\u00eancias europeias de novos populismos cibern\u00e9ticos? O que nos ensinam as\u00a0<strong>zapatistas<\/strong>\u00a0que sabem h\u00e1 tempos a import\u00e2ncia da opacidade para a sobreviv\u00eancia do levante e que agora reinventam o encontro com a\u00a0<strong>Europa<\/strong>\u00a0mudando radicalmente os termos desse encontro, sugerindo uma &#8220;conquista inversa&#8221; que atua na radicalidade da &#8220;<strong>luta pela vida<\/strong>&#8220;? O que nos dizem as experi\u00eancias hist\u00f3ricas de\u00a0<strong>lutas e exist\u00eancias coletivas<\/strong>\u00a0de\u00a0<strong>quilombos<\/strong>,\u00a0<strong>aldeias<\/strong>,\u00a0<strong>terreiros<\/strong>,\u00a0<strong>Canudos<\/strong>\u00a0e muitas outras pequenas comunas dissidentes (inclusive do regime de sexo-g\u00eanero) cuja exist\u00eancia esteve firmemente vinculada a estrat\u00e9gias de invisibilidade, esquivas, engana\u00e7\u00f5es, opacidades \u2013 um tema ali\u00e1s muito presente nas narrativas m\u00edticas amer\u00edndias como conta\u00a0<strong>Lucas Keese<\/strong>\u00a0em seu livro sobre a\u00a0<strong>dan\u00e7a-luta dos xondaro dos Guarani-Mbya<\/strong>?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Pensar e atuar a partir de uma outra pol\u00edtica<\/h3>\n<p>Temos que nos perguntar continuadamente sobre o que est\u00e1, de certa forma, &#8220;desaparecido&#8221; dessa\u00a0<strong>pol\u00edtica algoritmizada<\/strong>; quais os &#8220;pontos cegos&#8221; dessa\u00a0<strong>pol\u00edtica de engajamentos e mobiliza\u00e7\u00f5es permanentes<\/strong>, o que \u00e9 aquilo que resiste a tornar-se recurso, identidade, e que nos sinaliza assim para lugares mais promissores de cria\u00e7\u00e3o e sustenta\u00e7\u00e3o de outros mundos. Assumir essa\u00a0<strong>Guerra de Mundos<\/strong>\u00a0nos exige ent\u00e3o pensar e atuar a partir de uma\u00a0<strong>outra pol\u00edtica<\/strong>,\u00a0<strong>outros movimentos<\/strong>. Esses movimentos j\u00e1 est\u00e3o em curso se olhamos as zonas de conflitualidade que trazem para a cena pol\u00edtica termos que excedem a\u00a0<strong>algoritmiza\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico<\/strong>\u00a0e o horizonte estatal de mobiliza\u00e7\u00e3o de maiorias e de identidades bem fixadas. S\u00e3o movimentos que sugerem outras geometrias.<\/p>\n<p>As m\u00e3es que lutam por justi\u00e7a quando t\u00eam seus filhos assassinados pelo Estado em &#8220;opera\u00e7\u00f5es de rotina&#8221; \u2013 uma luta que arrasta para a cena do pol\u00edtico um trabalho de recomposi\u00e7\u00e3o do corpo desumanizado de seus filhos, sua carne, mem\u00f3rias, falas, as conversas que elas fazem com eles pelos sonhos, as doen\u00e7as que elas carregam no corpo por conta da perda desses filhos. Os\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/569806\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Munduruku que ocuparam as obras de Belo Monte<\/a>\u00a0denunciando o\u00a0<strong>massacre da pol\u00edtica de desenvolvimento<\/strong>\u00a0e hoje lutam contra a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/609923\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">invas\u00e3o do garimpo<\/a>\u00a0e a contamina\u00e7\u00e3o das suas \u00e1guas, corpos e peixes, assim como os\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/609157\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Yanomami que h\u00e1 mais de um m\u00eas enfrentam ataques do garimpo ilegal<\/a>, ambos convocando a for\u00e7a de seus antepassados, da rela\u00e7\u00e3o com os esp\u00edritos e seres da floresta que mostram caminhos, fortalecem o corpo para as batalhas cotidianas. As pequenas associa\u00e7\u00f5es de\u00a0<strong>pescadores<\/strong>,\u00a0<strong>ribeirinhos<\/strong>,\u00a0<strong>quilombolas<\/strong>\u00a0que resistem \u00e0s pol\u00edticas de &#8220;compensa\u00e7\u00e3o&#8221; das\u00a0<strong>grandes obras<\/strong>\u00a0mostrando que o mundo de que s\u00e3o parte n\u00e3o cabe nas m\u00e9tricas de indeniza\u00e7\u00e3o. Os\u00a0<strong>Guarani-Mbya<\/strong>\u00a0na terra ind\u00edgena\u00a0<strong>Tenond\u00e9 Por\u00e3<\/strong>\u00a0que, agora durante a pandemia, decidem experimentar uma outra forma para a escola ind\u00edgena, uma que n\u00e3o interrompa o momento de falar sobre os sonhos em volta da fogueira pela manh\u00e3 como contou\u00a0<strong>Aline<\/strong>\u00a0[<strong>Costa<\/strong>]. Os que lutam pelo\u00a0<strong>fim da pol\u00edcia e das pris\u00f5es<\/strong>\u00a0criam ru\u00eddos na imagina\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria e punitiva que infiltra nosso cotidiano.<\/p>\n<h3>A tessitura de uma sensibilidade coletiva<\/h3>\n<p>Podemos falar sobre muitas experi\u00eancias que evidenciam essa outra forma de pensar a pol\u00edtica e revelam a tessitura de uma sensibilidade coletiva que n\u00e3o atua pelo desejo de &#8220;<strong>hegemonia<\/strong>&#8220;,\u00a0<strong>totaliza\u00e7\u00e3o<\/strong>,\u00a0<strong>unifica\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0ou\u00a0<strong>grande ades\u00e3o<\/strong>\u00a0\u2013 elas abrem espa\u00e7os para a diferen\u00e7a, para os sil\u00eancios, para os sinais presentes no mundo vivo, para o risco da experimenta\u00e7\u00e3o, para a ousadia da recusa, a hesita\u00e7\u00e3o, o cont\u00e1gio. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que as experi\u00eancias de<strong>\u00a0lutas coletivas<\/strong>\u00a0mais f\u00e9rteis dessa \u00faltima d\u00e9cada t\u00eam a ver com esses mundos n\u00e3o comput\u00e1veis pelos termos da\u00a0<strong>democracia<\/strong>\u00a0e dos ambientes cibermediados.<\/p>\n<p>Podemos falar sobre um \u201c<strong>fen\u00f4meno de vid\u00eancia<\/strong>\u201d nesses\u00a0<strong>movimentos de recusa<\/strong>\u00a0\u2013 recusa de grandes obras, da militariza\u00e7\u00e3o racializada, dos consensos do desenvolvimento, recusa em \u201cser maioria\u201d. A vid\u00eancia pode ser entendida como uma sensibilidade coletiva minorit\u00e1ria que se permite ver o imponderado, que hesita e excede os enquadramentos impostos pela gest\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es em um determinado conflito, uma vis\u00e3o que tamb\u00e9m se faz com os mortos que j\u00e1 se foram, com a terra, com o corpo, com a natureza e a sobrenatureza, com variadas subst\u00e2ncias, que seguem muitas pistas desconhecidas pela pol\u00edtica moderna. Se tomamos como perspectiva privilegiada essas vid\u00eancias coletivas de lutas localizadas e seus movimentos de recusa, j\u00e1 era poss\u00edvel antever que o\u00a0<strong>bolsonarismo<\/strong>\u00a0fazia mundos bem antes da vit\u00f3ria eleitoral. Todos esses movimentos nos sinalizam tamb\u00e9m para outros horizontes de transforma\u00e7\u00e3o. Como bem identifica\u00a0<strong>Luiz Simas<\/strong>, talvez o horizonte seja mesmo pensar em como\u00a0<strong>fazer o Brasil dar errado<\/strong>. O\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0<strong>da conquista<\/strong>, das\u00a0<strong>grandes obras<\/strong>, o &#8220;<strong>Brasil do futuro<\/strong>&#8220;; do\u00a0<strong>garimpo<\/strong>\u00a0e da\u00a0<strong>soja<\/strong>, o\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0que decide todas as vezes pela\u00a0<strong>heran\u00e7a dos conquistadores<\/strong>: esse Brasil precisa dar errado.<\/p>\n<p>Gosto de pensar que estamos nesse momento de voltar a experimentar &#8220;<strong>zonas de cont\u00e1gio<\/strong>&#8220;, esses espa\u00e7os de cumplicidade, das artes, da aten\u00e7\u00e3o imanente, das investiga\u00e7\u00f5es compartilhadas, pr\u00e1ticas de conhecimento insurgentes e multiesp\u00e9cie que possam saber ouvir e se associar aos movimentos que perfuram a\u00a0<strong>democracia algoritmizada<\/strong>\u00a0e a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/591603\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pol\u00edtica do empresariamento de si<\/a>\u00a0e intuem outros movimentos, outros ritmos, formas de sonhar, outras tecnologias que podem, de repente, &#8220;pegar&#8221;. O cont\u00e1gio, como escreveu\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/publicacoes\/564182-peter-pal-pelbart-estamos-em-guerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Peter Pal Pelbart<\/a>, &#8220;carrega part\u00edculas de mundos diversos e os espalha a seu bel-prazer, misturando dom\u00ednios e embaralhando os g\u00eaneros, esp\u00e9cies, linhagens e hereditariedades&#8221;.<\/p>\n<p>Uma ci\u00eancia para esse\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/584423\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">tempo das cat\u00e1strofes<\/a>\u00a0s\u00f3 poder\u00e1 ter sucesso na medida em que abrir seus laborat\u00f3rios e a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento para aqueles que, como chama tamb\u00e9m\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/stories\/cadernos\/ideias\/285cadernosihuideias1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Stengers<\/a>, &#8220;n\u00e3o foram convidados para as assembleias modernas&#8221;, aquelas que fazem, todos os dias, esse\u00a0<strong>Brasil dar errado<\/strong>\u00a0mais um pouco. Se estamos em guerra, n\u00e3o \u00e9 evidente ainda para n\u00f3s quais s\u00e3o as formas de lutar essa guerra \u2013 como tamb\u00e9m pergunta\u00a0<strong>Amador Savater<\/strong>: qual \u00e9 a guerra das que n\u00e3o querem a guerra, das que se recusam converter-se em soldados? Qual a guerra daquelas que n\u00e3o querem a conquista, o palanque, o like, a visualiza\u00e7\u00e3o ou o poder? Qual a guerra daquelas que n\u00e3o querem obedecer aos comandos militaristas, centralizados, daqueles que \u2013 em nome de combater um inimigo comum \u2013 se pensam comandantes de uma guerra pelo restabelecimento da ordem? Como insistir nos espa\u00e7os de cumplicidade, experimenta\u00e7\u00e3o e hesita\u00e7\u00f5es, na\u00a0<strong>urg\u00eancia da luta pela vida<\/strong>\u00a0como convocam as\u00a0<strong>zapatistas<\/strong>, apesar do calend\u00e1rio eleitoral e seus imperativos? Como retomar o corpo vivo do combate, as experimenta\u00e7\u00f5es de cura e as coreografias da esquiva?\u00a0<strong>Jota Momba\u00e7a<\/strong> fala sobre um tipo de cuidado que n\u00e3o deseja restituir a &#8220;funcionalidade&#8221; do corpo, mas que atua como &#8220;solvente&#8221;, dedicando aten\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas que deterioram; na desmontagem do &#8220;imperativo do ser&#8221;. Um cuidado que seja tamb\u00e9m uma intelig\u00eancia sens\u00edvel que atua nas infiltra\u00e7\u00f5es e rachaduras que a todo tempo criam ru\u00eddos no sistema e permitem vazamentos inesperados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente aqui Por:\u00a0Patricia Fachin |\u00a019 Julho 2021 | Foto: Jos\u00e9 Cruz &#8211; Ag\u00eancia Brasil A\u00a0pandemia de Covid-19\u00a0pode ser compreendida como uma das evid\u00eancias &#8220;da\u00a0cat\u00e1strofe do capitalismo extrativista&#8220;. \u00c9 a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":8809,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"_EventAllDay":false,"_EventTimezone":"","_EventStartDate":"","_EventEndDate":"","_EventStartDateUTC":"","_EventEndDateUTC":"","_EventShowMap":false,"_EventShowMapLink":false,"_EventURL":"","_EventCost":"","_EventCostDescription":"","_EventCurrencySymbol":"","_EventCurrencyCode":"","_EventCurrencyPosition":"","_EventDateTimeSeparator":"","_EventTimeRangeSeparator":"","_EventOrganizerID":[],"_EventVenueID":[],"_OrganizerEmail":"","_OrganizerPhone":"","_OrganizerWebsite":"","_VenueAddress":"","_VenueCity":"","_VenueCountry":"","_VenueProvince":"","_VenueState":"","_VenueZip":"","_VenuePhone":"","_VenueURL":"","_VenueStateProvince":"","_VenueLat":"","_VenueLng":"","_VenueShowMap":false,"_VenueShowMapLink":false,"footnotes":""},"categories":[956],"tags":[],"tematica":[890,919,921,935,937,939],"destaque":[],"class_list":["post-9146","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-2-en","tematica-divulgacao-cientifica-en","tematica-lutas-sociais-en","tematica-producao-do-comum-en","tematica-tecnologia-e-sociedade-en","tematica-tecnologias-digitais-en","tematica-tecnopoliticas-en"],"blocksy_meta":{"styles_descriptor":{"styles":{"desktop":"","tablet":"","mobile":""},"google_fonts":[],"version":6}},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9146","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9146"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9146\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9149,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9146\/revisions\/9149"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8809"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9146"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9146"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9146"},{"taxonomy":"tematica","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tematica?post=9146"},{"taxonomy":"destaque","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/destaque?post=9146"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}