{"id":9226,"date":"2020-12-01T15:59:03","date_gmt":"2020-12-01T18:59:03","guid":{"rendered":"https:\/\/lavits.bemvindo.co\/lavits_covid19_23-os-laboratorios-do-trabalho-em-plataformas\/"},"modified":"2020-12-01T15:59:03","modified_gmt":"2020-12-01T18:59:03","slug":"lavits_covid19_23-os-laboratorios-do-trabalho-em-plataformas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lavits.org\/en\/lavits_covid19_23-os-laboratorios-do-trabalho-em-plataformas\/","title":{"rendered":"#23: Os Laborat\u00f3rios do Trabalho em Plataformas"},"content":{"rendered":"<p><em>Por <strong>Rafael Grohmann <\/strong>*<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A plataformiza\u00e7\u00e3o do trabalho, entendida como a crescente depend\u00eancia de infraestruturas digitais para executar atividades de trabalho, \u00e9 a materializa\u00e7\u00e3o e a combina\u00e7\u00e3o de processos j\u00e1 existentes, com financeiriza\u00e7\u00e3o, datafica\u00e7\u00e3o e flexibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho. A pandemia contribui para acelerar seu processo, seja no trabalho em casa ou nas ruas, por meio da intensifica\u00e7\u00e3o do uso de softwares de vigil\u00e2ncia sobre os trabalhadores, extra\u00e7\u00e3o de dados como forma de capital e gerenciamento algor\u00edtmico do trabalho, considerando as desigualdades existentes desde a produ\u00e7\u00e3o desses sistemas automatizados. S\u00e3o novos-velhos experimentos que evidenciam que o trabalho em plataformas \u00e9 um verdadeiro laborat\u00f3rio da luta de classes.<\/p>\n<p>O que estamos acompanhando \u00e9 a crescente generaliza\u00e7\u00e3o da plataformiza\u00e7\u00e3o do trabalho para todas as atividades. O trabalho docente, por exemplo, tem dependido de plataformas propriet\u00e1rias, com suas materialidades e reorganiza\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas, como o \u201cvoc\u00eas est\u00e3o me ouvindo?\u201d. H\u00e1 plataformas em que h\u00e1 menus e bot\u00f5es para voc\u00ea solicitar profissionais de sa\u00fade \u2013 como dentista, fisioterapeuta e geront\u00f3logo \u2013 ou mesmo trabalhadores que a plataforma considera como \u201cinusitados\u201d, como assessor de imprensa, <em>drag queen<\/em>, cervejeiro, <em>ghost writer<\/em>, Papai Noel e piloto de drone \u2013 todos reunidos na mesma categoria.<\/p>\n<p>Entretanto, a plataformiza\u00e7\u00e3o do trabalho est\u00e1 longe de ser um processo homog\u00eaneo, pois h\u00e1 distintos tipos de plataformas digitais e, por conseguinte, diversos perfis de trabalhadores, com marcadores de g\u00eanero, ra\u00e7a, fra\u00e7\u00f5es de classe e territ\u00f3rio. Tem desde a plataforma francesa <em>Creme de la Creme<\/em>, considerada \u201ca primeira comunidade seletiva de <em>freelancers<\/em>\u201d, especialmente dos setores de tecnologia, dados, design e marketing digital, at\u00e9 as conhecidas plataformas de entrega de mercadorias, passando por plataformas cujos trabalhadores produzem dados para sistemas de intelig\u00eancia artificial. Cada plataforma, mesmo de um mesmo setor, possui seus mecanismos e materialidades, o que contribui para a complexifica\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio. Desta maneira, \u00e9 imposs\u00edvel dizer que existe apenas um perfil de trabalhadores ou de plataformas.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o geogr\u00e1fica \u00e9 uma das muitas dimens\u00f5es nesse cen\u00e1rio. Por um lado, nossa inser\u00e7\u00e3o em projetos como <a href=\"http:\/\/fair.work\/\">Fairwork<\/a>, tem nos mostrado que h\u00e1 muitas semelhan\u00e7as nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho \u2013 especialmente o que se chama de composi\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de classes \u2013 entre, por exemplo, um entregador no Brasil, na Inglaterra \u2013 inclusive com muitos brasileiros trabalhando \u2013 na \u00cdndia, na \u00c1frica do Sul ou nas Filipinas, evidenciando articula\u00e7\u00f5es e poss\u00edveis circula\u00e7\u00f5es de lutas dos trabalhadores. Por outro, h\u00e1 contextos e especificidades locais de ordens pol\u00edticas, sociais, jur\u00eddicas, legislativas e econ\u00f4micas. Por exemplo, na Europa e na Am\u00e9rica do Norte, houve a emerg\u00eancia de express\u00f5es como <em>gig economy<\/em> para nomear o cen\u00e1rio do trabalho em plataformas. Contudo, essa \u00e9 a especificidade deles, que querem tornar universal a validade dessa no\u00e7\u00e3o. Ora, a hist\u00f3ria da economia brasileira \u00e9 uma grande <em>gig economy<\/em>, com o <em>gig<\/em> sendo a norma permanente, como algo imposto na gest\u00e3o da sobreviv\u00eancia da classe trabalhadora. E a novidade, ent\u00e3o, reside justamente na subordina\u00e7\u00e3o dos trabalhadores \u00e0s plataformas \u2013 com suas empresas e seus mecanismos. E esse cen\u00e1rio se repete em muitos outros pa\u00edses. N\u00e3o se trata, ent\u00e3o, exatamente de uma especificidade nossa.<\/p>\n<p>Mas certamente existe uma geopol\u00edtica do trabalho em plataformas. Segundo o <a href=\"https:\/\/ilabour.oii.ox.ac.uk\/online-labour-index\/\">Online Labour Index<\/a>, da Universidade de Oxford, no dia 20 de novembro de 2020, 61,8% das atividades de trabalho <em>freelancer<\/em> online do mundo tiveram como empregadoras empresas dos Estados Unidos. De acordo com o mesmo \u00edndice, os pa\u00edses em que mais s\u00e3o desenvolvidas essas tarefas concentram-se na \u00c1sia, especialmente \u00cdndia, Paquist\u00e3o e Bangladesh. Podemos tamb\u00e9m destacar a centralidade de <a href=\"https:\/\/www.technologyreview.com\/2019\/08\/22\/65375\/venezuela-crisis-platform-work-trains-self-driving-car-ai-data\/\">venezuelanos<\/a> trabalhando como treinadores de dados para carros aut\u00f4nomos \u2013 que, ali\u00e1s, <a href=\"https:\/\/noticias.r7.com\/tecnologia-e-ciencia\/fotos\/carros-autonomos-podem-atropelar-mais-pessoas-negras-do-que-brancas-11032019\">tendem a atropelar mais pessoas negras do que brancas<\/a> \u2013 e de filipinos como moderadores de conte\u00fado terceirizados de plataformas de m\u00eddias sociais, como mostra o filme <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CU2fWjm8qRY\">The Cleaners<\/a>.<\/p>\n<p>Contudo, a despeito de toda a generaliza\u00e7\u00e3o da plataformiza\u00e7\u00e3o do trabalho, ela n\u00e3o nos levar\u00e1 a uma total automa\u00e7\u00e3o do trabalho. Os discursos midi\u00e1ticos dominantes d\u00e3o a entender que os rob\u00f4s v\u00e3o nos substituir ou que a automa\u00e7\u00e3o nos levar\u00e1 a perder um alto n\u00famero de empregos. Por\u00e9m, como ressalta a economista da OIT <a href=\"https:\/\/papers.ssrn.com\/sol3\/papers.cfm?abstract_id=3413740\">Janine Berg<\/a>, pouca aten\u00e7\u00e3o tem sido dada \u00e0 crescente perda de \u201cqualidade no trabalho\u201d ao redor no mundo. Em dire\u00e7\u00e3o semelhante, Aaron Benanav, em seu recente livro <a href=\"https:\/\/www.versobooks.com\/books\/3717-automation-and-the-future-of-work\"><em>Automation and the Future of Work<\/em><\/a>, argumenta que, em vez de desemprego em massa, o que haver\u00e1 \u00e9 a crescente intensifica\u00e7\u00e3o de subempregos. Para ele, n\u00e3o \u00e9 a automa\u00e7\u00e3o, mas as consequ\u00eancias da progressiva desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica desde os anos 1970 que explicam o decl\u00ednio da demanda por trabalho, em um processo em que as transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas atuariam como uma causa secund\u00e1ria. O cen\u00e1rio desenhado, ent\u00e3o, \u00e9 que a radicaliza\u00e7\u00e3o da plataformiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a crescente <em>taskifica\u00e7\u00e3o<\/em> das atividades do trabalho e com um papel central do trabalho humano nos processos envolvendo intelig\u00eancia artificial, no que Hamid Ekbia e Bonnie Nardi chamam de <a href=\"https:\/\/mitpress.mit.edu\/books\/heteromation-and-other-stories-computing-and-capitalism\">heteroma\u00e7\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p>Os principais expoentes desse cen\u00e1rio s\u00e3o as plataformas de intelig\u00eancia artificial \u2013 que tamb\u00e9m s\u00e3o chamadas de \u201cmicrotrabalho\u201d, por\u00e9m discordamos da express\u00e3o por considerarmos que n\u00e3o leva em conta nem a mobiliza\u00e7\u00e3o total dos trabalhadores em torno dessas <em>tasks<\/em> nem o papel do trabalho humano na complexidade da <a href=\"https:\/\/www.comciencia.br\/anatomia-de-um-sistema-de-inteligencia-artificial\/\">anatomia de um sistema de IA<\/a>. E h\u00e1 brasileiros envolvidos em algumas dezenas de plataformas como essas, que tamb\u00e9m apresentam suas especificidades. Em primeiro lugar, h\u00e1 plataformas em que trabalhadores produzem e treinam dados para sistemas de intelig\u00eancia artificial, como Amazon Mechanical Turk (\u201cintelig\u00eancia artificial artificial\u201d), Appen (\u201cdados com um toque humano\u201d) e Lionbridge. H\u00e1 desde avalia\u00e7\u00e3o de publicidade e treinamento de algoritmos de reconhecimento facial at\u00e9 transcri\u00e7\u00e3o de \u00e1udio de assistentes virtuais. Em segundo, h\u00e1 plataformas de modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, cujos trabalhadores, via de regra, s\u00e3o terceirizados de Facebook e Google, como Cognizant e Pactera \u2013 e o pr\u00f3prio Facebook foi obrigado recentemente a <a href=\"https:\/\/www.theverge.com\/2020\/5\/12\/21255870\/facebook-content-moderator-settlement-scola-ptsd-mental-health\">pagar uma indeniza\u00e7\u00e3o de 52 milh\u00f5es de d\u00f3lares<\/a> a trabalhadores que desenvolveram estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico. Por \u00faltimo, h\u00e1 plataformas de fazendas de cliques \u2013 a maioria brasileiras \u2013 em que os trabalhadores s\u00e3o como \u201cbots humanos\u201d e passam o dia curtindo, comentando e compartilhando posts no Instagram em troca de pouqu\u00edssimos centavos por tarefa. Os solicitantes dessas tarefas v\u00e3o desde influenciadores at\u00e9 duplas sertanejas e candidatos a prefeitos. H\u00e1 tamb\u00e9m intensas vendas e trocas de perfis fakes e de bots para que os trabalhadores consigam aumentar os seus ganhos.<\/p>\n<p>Cada um desses tipos de plataformas tamb\u00e9m apresenta suas especificidades de forma\u00e7\u00e3o e trajet\u00f3ria de trabalhadores, no sentido de fra\u00e7\u00f5es de classes. Em algumas, como Lionbridge, h\u00e1 tarefas at\u00e9 em alem\u00e3o em que os trabalhadores t\u00eam que provar ser proficientes. Detalhes poder\u00e3o ser encontrados em cap\u00edtulo escrito por mim e Willian Fernandes Ara\u00fajo e que ser\u00e1 publicado em 2021 no livro AI for Everyone? Critical Perspectives, da University of Westminster Press. Em outras, como as plataformas de fazendas de cliques, h\u00e1 a impress\u00e3o de uma grande \u201c25 de mar\u00e7o plataformizada\u201d, e estamos investigando \u2013 considerando em primeiro plano as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero \u2013 em uma equipe de pesquisa no \u00e2mbito de um <em>grant<\/em> concedido pelo projeto <a href=\"https:\/\/www.hps.cam.ac.uk\/about\/research-projects\/histories-of-ai\"><em>Histories of AI<\/em><\/a>, da University of Cambridge. O que essa \u201c<em>deepweb<\/em> do trabalho em plataformas\u201d evidencia \u00e9 a capacidade laboratorial do capital em rela\u00e7\u00e3o aos trabalhadores. O pr\u00f3ximo passo j\u00e1 ensaiado \u00e9 o crescente uso de drones para entregas, e a <a href=\"https:\/\/www.infomoney.com.br\/negocios\/ifood-recebe-aval-da-anac-e-comecara-a-testar-delivery-de-comida-por-drones-em-breve\/\">ANAC j\u00e1 autorizou<\/a> algumas opera\u00e7\u00f5es no Brasil. Por\u00e9m, eles n\u00e3o substituir\u00e3o os trabalhadores, pois s\u00e3o necess\u00e1rios <a href=\"https:\/\/www.zonamovilidad.es\/drones-autonomos-protagonizan-trabajos-futuro\">supervisores de drones<\/a> em mais um processo de heteroma\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>Neste laborat\u00f3rio do trabalho em plataformas, os trabalhadores n\u00e3o s\u00e3o amorfos ou entes passivos, mas organizam-se a partir de t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias, por exemplo, em rela\u00e7\u00e3o aos algoritmos, como mostram pesquisas de <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/pdf\/10.1080\/17544750.2019.1583676?casa_token=DGeCE9k4R98AAAAA:oovoCMLfsKiqUK0IS1z1FS7t4mF_KL1-EMTKe4H4HpVGTFofmW7qxXshabhn8DK7TaihP5hoi7FD\">Sun<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/profile\/Mohammad_Hossein_Jarrahi\/publication\/329336053_Algorithmic_Management_and_Algorithmic_Competencies_Understanding_and_Appropriating_Algorithms_in_Gig_work\/links\/5c0cbc9c299bf139c749a4d6\/Algorithmic-Management-and-Algorithmic-Competencies-Understanding-and-Appropriating-Algorithms-in-Gig-work.pdf\">Jarrahi e Sutherland<\/a>. Isso tamb\u00e9m passa pela emerg\u00eancia de formas de organiza\u00e7\u00e3o em contextos de plataformas, desde coletividades informais at\u00e9 mobiliza\u00e7\u00f5es e constru\u00e7\u00f5es de associa\u00e7\u00f5es e sindicatos, com um papel central da comunica\u00e7\u00e3o entre trabalhadores por plataformas digitais, como mostraram o Breque dos Apps e outros exemplos em v\u00e1rios setores, que envolvem inclusive <a href=\"https:\/\/youtubersunion.org\/\">youtubers<\/a> e <a href=\"https:\/\/thecreatorunion.com\/\">influenciadores<\/a>. H\u00e1 distintas formas de auto-organiza\u00e7\u00e3o por parte dos trabalhadores \u2013 como mostra, inclusive, a experi\u00eancia de escrita de trabalhadores na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o da revista <a href=\"https:\/\/notesfrombelow.org\/article\/introduction-why-worker-writing-matters\"><em>Notes from Below<\/em><\/a>, assim como h\u00e1 complexidades e contradi\u00e7\u00f5es em torno da composi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de classe.<\/p>\n<p>As possibilidades de experimenta\u00e7\u00f5es dos trabalhadores tamb\u00e9m concentram-se na constru\u00e7\u00e3o de plataformas que sejam de suas propriedades, seja em <a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/ensaio\/2020\/Cooperativismo-de-plataforma-quais-as-possibilidades\">cooperativas de plataforma<\/a> ou outros arranjos de trabalho e desenhos institucionais. Como demonstra Ursula Huws, em seu <a href=\"https:\/\/www.plutobooks.com\/9780745341842\/reinventing-the-welfare-state\/\">novo livro<\/a> e em entrevista ao <a href=\"https:\/\/digilabour.com.br\/2020\/10\/04\/desmercantilizar-as-plataformas-entrevista-com-ursula-huws\/\">DigiLabour<\/a>, \u00e9 preciso combater a generaliza\u00e7\u00e3o da plataformiza\u00e7\u00e3o do trabalho com a sua ressignifica\u00e7\u00e3o em prol dos trabalhadores e do bem p\u00fablico. Isso significa uma reinven\u00e7\u00e3o de circuitos econ\u00f4micos locais de produ\u00e7\u00e3o e consumo por meio de plataformas que melhorem condi\u00e7\u00f5es de trabalho e, ao mesmo tempo, promovam pol\u00edticas de mobilidade, melhorias de transporte p\u00fablico, servi\u00e7os de cuidados e com integra\u00e7\u00e3o ao sistema de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Tomamos as plataformas de propriedade de trabalhadores como possibilidades prefigurativas \u2013 o que significa construir hoje experimentos das sociedades que imaginamos amanh\u00e3. Realisticamente, elas n\u00e3o substituir\u00e3o a curto prazo as grandes plataformas de trabalho, pois h\u00e1 a forte press\u00e3o da concorr\u00eancia \u2013 envolvida em capital de risco e possibilidades de lobby \u2013 e riscos de autoexplora\u00e7\u00e3o, entre outras contradi\u00e7\u00f5es, como apontam <a href=\"https:\/\/www.wiley.com\/en-us\/Riding+for+Deliveroo%3A+Resistance+in+the+New+Economy-p-9781509535507\">Callum Cant<\/a> e <a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/pdf\/10.1177\/0896920519870577?casa_token=SmfnDDTWGK4AAAAA:yamgeUvg4BuWwkQY4XMEqESkcSWt06aNnNaOkOaM4UfGtOad-1I6xocMd9S2AZhnL03m9_lJj538\">Marisol Sandoval<\/a>. Por\u00e9m, como tamb\u00e9m afirma <a href=\"http:\/\/revistaseletronicas.fiamfaam.br\/index.php\/recicofi\/article\/download\/567\/503\">Sandoval<\/a> em outro texto, \u00e9 preciso enfrentar dialeticamente as contradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas em torno das cooperativas \u2013 entre constrangimentos e coopta\u00e7\u00f5es, por um lado, e possibilidades de reconfigura\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Esses experimentos n\u00e3o t\u00eam f\u00f3rmula pronta e nem se fazem da noite para o dia, como um aplicativo solucionador de todos os problemas. De fato, n\u00e3o h\u00e1 lugar para solucionismo tecnol\u00f3gico. Mas h\u00e1 constru\u00e7\u00f5es interessantes de cooperativas de <a href=\"https:\/\/collective.tools\/\">servi\u00e7os de nuvem<\/a>, <a href=\"https:\/\/collective.tools\/\">plataformas de streaming audiovisual e distribui\u00e7\u00e3o de games<\/a>, entre muitos <a href=\"http:\/\/ioo.coop\/directory\/\">outros exemplos<\/a>. H\u00e1 tamb\u00e9m uma cooperativa de motoristas que tem como foco a democratiza\u00e7\u00e3o de dados. Na <a href=\"https:\/\/www.driversseat.co\/\">Driver\u2019s Seat<\/a>, os trabalhadores usam o aplicativo da cooperativa para compartilhar seus dados. Ent\u00e3o, eles coletam e vendem informa\u00e7\u00f5es sobre mobilidade para \u00f3rg\u00e3os municipais para que eles possam tomar as melhores decis\u00f5es de planejamento em rela\u00e7\u00e3o a transporte. Quando a cooperativa lucra com a venda de dados, os motoristas recebem os dividendos e compartilham a riqueza. Isso ajuda a pensar como as lutas por outras plataformiza\u00e7\u00f5es do trabalho tamb\u00e9m envolvem os direitos dos trabalhadores sobre os seus dados, conforme argumenta Christina Colclough em texto do <a href=\"https:\/\/itforchange.net\/digital-new-deal\/2020\/10\/22\/towards-workers-data-collectives\/\">IT for Change<\/a>.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m a emerg\u00eancia de uma s\u00e9rie de coletivos e cooperativas de entregadores \u2013 na Europa, com apoio forte da federa\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/coopcycle.org\/\">CoopCycle<\/a>, que criou um software CoopLeft. No Brasil, h\u00e1 cooperativas e coletivos mais antigos, como <a href=\"http:\/\/www.pedalexpress.com.br\/\">Pedal Express<\/a>, e outros mais recentes como <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/senoritas_courier\/?hl=pt\">Se\u00f1oritas Courier<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/trans.entrega\/\">TransEntrega<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/levocourier\/\">Lev\u00f4 Courier<\/a>, circulando, a depender da iniciativa, sentidos de mobilidade, responsabilidade ambiental e social e lutas em torno da igualdade de g\u00eanero. Esses exemplos demonstram as possibilidades de constru\u00e7\u00e3o, de baixo para cima, de iniciativas locais que desenhem outros circuitos de produ\u00e7\u00e3o e consumo \u2013 e que h\u00e1 potenciais de desenvolvimento sem que haja instru\u00e7\u00f5es prescritivas ou normativas, em verdadeiros experimentos. Coletivos e cooperativas de entregadores, por exemplo, podem estar em intercoopera\u00e7\u00e3o com cooperativas de programadores e agricultores, al\u00e9m de pequenos restaurantes, projetando valores de <a href=\"https:\/\/fair.work\/\">trabalho decente,<\/a> <a href=\"https:\/\/designjustice.org\/\"><em>design justice<\/em><\/a>, <a href=\"https:\/\/www.mdpi.com\/2071-1050\/12\/18\/7640\/pdf\">desenvolvimento sustent\u00e1vel<\/a> e alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>O cooperativismo de plataforma e as plataformas de propriedade dos trabalhadores tamb\u00e9m desafiam a ideia de que a economia de plataformas necessita de escala. No caso de trabalhadores, nem as famigeradas <em>startups<\/em> possuem muitos trabalhadores como regras. Um levantamento da <a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1WAw_6rExZfuKBSxGdIwgvvjtPgfO-8Z7\/view\">Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Startups<\/a> mostra que 63% das <em>startups<\/em> brasileiras possuem at\u00e9 cinco pessoas. Da mesma forma, n\u00e3o podem esperar de cooperativas e coletivos de entregadores ou motoristas com 30 mil pessoas envolvidas. E n\u00e3o h\u00e1 argumentos para deslegitimar iniciativas autogestion\u00e1rias com tr\u00eas ou cinco trabalhadores apenas por causa de seu tamanho. Uma das fortalezas das plataformas de propriedade de trabalhadores \u00e9 justamente as suas capacidades de articula\u00e7\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o entre iniciativas.<\/p>\n<p>Portanto, longe de uma solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil de constru\u00e7\u00e3o de um aplicativo, as experi\u00eancias de constru\u00e7\u00e3o de plataformas cooperativas e de propriedade de trabalhadores envolve m\u00faltiplas dimens\u00f5es, que estamos investigando em pesquisa em andamento, como, por exemplo, <em>design<\/em> e materialidades das plataformas, organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e processos produtivos, organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, pol\u00edticas e regimes de dados e algoritmos, intercoopera\u00e7\u00e3o, estrat\u00e9gias midi\u00e1ticas e consumo das plataformas \u2013 e suas rela\u00e7\u00f5es com valores acima mencionados desde trabalho decente at\u00e9 <em>design justice<\/em>.<\/p>\n<p>Entre as tentativas de radicaliza\u00e7\u00e3o da plataformiza\u00e7\u00e3o por parte do capital \u2013 com a <em>taskifica\u00e7\u00e3o <\/em>e o trabalho que sustenta a intelig\u00eancia artificial \u2013 e as potencialidades de enfrentamento a esse cen\u00e1rio e de organiza\u00e7\u00e3o de plataformas alternativas, residem os laborat\u00f3rios do trabalho em plataformas em um mundo em que o <a href=\"https:\/\/autonomialiteraria.com.br\/loja\/teoria-politica\/o-velho-esta-morrendo-e-o-novo-nao-pode-nascer\/\">velho j\u00e1 morreu e o novo ainda n\u00e3o nasceu, mas sempre vem<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*<strong>Rafael Grohmann <\/strong>\u00e9 professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e coordenador do Laborat\u00f3rio de Pesquisa DigiLabour, que mant\u00e9m uma newsletter. Coordenador no Brasil do projeto Fairwork, vinculado \u00e0 Universidade de Oxford, e pesquisador do projeto Histories of AI: Genealogy of Power (Universidade de Cambridge) a partir de um International Research and Collaboration Award.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><strong>S\u00e9rie Lavits_Covid19<\/strong><\/h2>\n<p>A <strong>Lavits_Covid19: Pandemia, tecnologia e capitalismo de vigil\u00e2ncia<\/strong> \u00e9 um exerc\u00edcio de reflex\u00e3o sobre as respostas tecnol\u00f3gicas, sociais e pol\u00edticas que v\u00eam sendo dadas \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus, com especial aten\u00e7\u00e3o aos processos de controle e vigil\u00e2ncia. Tais respostas levantam problemas que se furtam a sa\u00eddas simples. A s\u00e9rie nos convoca a reinventar ideias, corpos e conex\u00f5es em tempos de pandemia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rafael Grohmann * &nbsp; A plataformiza\u00e7\u00e3o do trabalho, entendida como a crescente depend\u00eancia de infraestruturas digitais para executar atividades de trabalho, \u00e9 a materializa\u00e7\u00e3o e a combina\u00e7\u00e3o de processos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":8614,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"_EventAllDay":false,"_EventTimezone":"","_EventStartDate":"","_EventEndDate":"","_EventStartDateUTC":"","_EventEndDateUTC":"","_EventShowMap":false,"_EventShowMapLink":false,"_EventURL":"","_EventCost":"","_EventCostDescription":"","_EventCurrencySymbol":"","_EventCurrencyCode":"","_EventCurrencyPosition":"","_EventDateTimeSeparator":"","_EventTimeRangeSeparator":"","_EventOrganizerID":[],"_EventVenueID":[],"_OrganizerEmail":"","_OrganizerPhone":"","_OrganizerWebsite":"","_VenueAddress":"","_VenueCity":"","_VenueCountry":"","_VenueProvince":"","_VenueState":"","_VenueZip":"","_VenuePhone":"","_VenueURL":"","_VenueStateProvince":"","_VenueLat":"","_VenueLng":"","_VenueShowMap":false,"_VenueShowMapLink":false,"footnotes":""},"categories":[977],"tags":[],"tematica":[858,866,868,935,939,942],"destaque":[],"class_list":["post-9226","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-lavits_covid19-en","tematica-algoritmos-politica-en","tematica-capitalismo-de-plataforma-en","tematica-capitalismo-de-vigilancia-en","tematica-tecnologia-e-sociedade-en","tematica-tecnopoliticas-en","tematica-trabalho-en"],"blocksy_meta":{"styles_descriptor":{"styles":{"desktop":"","tablet":"","mobile":""},"google_fonts":[],"version":6}},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9226","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9226"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9226\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8614"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9226"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9226"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9226"},{"taxonomy":"tematica","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tematica?post=9226"},{"taxonomy":"destaque","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/en\/wp-json\/wp\/v2\/destaque?post=9226"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}