{"id":9237,"date":"2020-10-27T18:16:42","date_gmt":"2020-10-27T21:16:42","guid":{"rendered":"https:\/\/lavits.bemvindo.co\/lavits_covid19_22-quando-se-esta-morrendo-afogado-ate-jacare-e-tronco-para-se-agarrar1-cloroquina-e-medicos-em-grupos-de-direita-do-telegram\/"},"modified":"2020-10-27T18:16:42","modified_gmt":"2020-10-27T21:16:42","slug":"lavits_covid19_22-quando-se-esta-morrendo-afogado-ate-jacare-e-tronco-para-se-agarrar1-cloroquina-e-medicos-em-grupos-de-direita-do-telegram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lavits.org\/en\/lavits_covid19_22-quando-se-esta-morrendo-afogado-ate-jacare-e-tronco-para-se-agarrar1-cloroquina-e-medicos-em-grupos-de-direita-do-telegram\/","title":{"rendered":"#22: \u201cQuando se est\u00e1 morrendo afogado, at\u00e9 jacar\u00e9 \u00e9 tronco para se agarrar\u201d* : cloroquina e m\u00e9dicos em grupos de direita do Telegram"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Leonardo F. Nascimento, Let\u00edcia Cesarino e Paulo Fonseca*<\/em><\/p>\n<h6><sup>[*]<\/sup> Trecho de mensagem enviada pelo usu\u00e1rio <em>cf5c4e49ac6e72d60bf0e9d3d9359f73<\/em> em 07 de abril de 2020 (veja a nota 2 seguinte). Ao longo de todo o per\u00edodo analisado este usu\u00e1rio foi o que produziu mais mensagens sobre a cloroquina. Parte dos dados deste texto foram apresentados no paper \u201cIgnorance as power? Chloroquine and the co-production of truth in Brazil under Bolsonaro\u201d na confer\u00eancia \u201cScience and Democracy Network 2020 Annual Meeting\u201d, John F. Kennedy School of Government in Cambridge\/Harvard University.<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8584\" src=\"https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled.png\" alt=\"\" width=\"797\" height=\"491\" srcset=\"https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled.png 797w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled-400x246.png 400w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled-768x473.png 768w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled-150x92.png 150w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled-80x49.png 80w\" sizes=\"auto, (max-width: 797px) 100vw, 797px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Fonte: <\/strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/app\/noticia\/opiniao\/2020\/07\/17\/internas_opiniao,872911\/charge.shtml\">Correio Braziliense<\/a>, 17\/07\/2020.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Durante toda a pandemia de covid-19, o incremento do uso de tecnologias digitais, combinado com a forte polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que tem marcado o Brasil nos \u00faltimos anos, produziram efeitos sanit\u00e1rios, econ\u00f4micos e psicol\u00f3gicos desastrosos. No momento inicial da chegada do novo coronav\u00edrus ao pa\u00eds, a tend\u00eancia por parte do presidente, de muitos do seu governo e de apoiadores em redes sociais foi negar a gravidade ou at\u00e9 mesmo exist\u00eancia da pandemia. As medidas sanit\u00e1rias, urgentes e necess\u00e1rias, que preconizavam o isolamento social entraram em choque com a ideia de que isso seria prejudicial \u00e0 economia e\/ou um subterf\u00fagio de inimigos para minar a popularidade do presidente.<\/p>\n<p>Quando tornou-se imposs\u00edvel continuar negando a realidade da crise, o discurso bolsonarista passou a difundir uma vis\u00e3o, inicialmente popularizada por <a href=\"https:\/\/www.statnews.com\/2020\/04\/06\/trump-hydroxychloroquine-fact-check\/\">Donald Trump<\/a>, de que a covid-19 podia ser facilmente prevenida ou curada, notadamente a partir daquele que se tornou o medicamento mais emblem\u00e1tico da pandemia: a hidroxicloroquina, ou simplesmente cloroquina. Al\u00e7ada como verdadeira solu\u00e7\u00e3o para a crise sanit\u00e1ria global &#8211; conjugando as caracter\u00edsticas de ser barata, conhecida e inofensiva &#8211; a cloroquina se tornou um s\u00edmbolo do pr\u00f3prio bolsonarismo e do seu modo de lidar com a pandemia.<\/p>\n<p>A aposta do presidente no f\u00e1rmaco antimal\u00e1rico como cura para a covid-19 foi amplamente noticiada ao longo dos \u00faltimos meses, em discursos e decis\u00f5es que tomavam de forma altamente seletiva as evid\u00eancias cient\u00edficas dispon\u00edveis. Para al\u00e9m dessas den\u00fancias, resta compreender mais a fundo como, n\u00e3o obstante a progressiva disponibilidade de estudos contestando a sua efic\u00e1cia, a f\u00e9 na cloroquina como solu\u00e7\u00e3o para a covid-19 logrou grande difus\u00e3o no ecossistema midi\u00e1tico bolsonarista e seus circuitos de desinforma\u00e7\u00e3o. Mais ainda, \u00e9 preciso investigar como esse desprezo pelos consensos na comunidade cient\u00edfica internacional tem transbordado para as institui\u00e7\u00f5es do Estado, a sociedade civil e, especialmente, para a pr\u00f3pria pr\u00e1tica m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Enquanto os mais robustos estudos cient\u00edficos refutavam a efic\u00e1cia do medicamento para o tratamento da covid-19, o presidente consagrava caixas de hidroxicloroquina, <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/app\/noticia\/politica\/2020\/07\/31\/interna_politica,877253\/em-bage-bolsonaro-exibe-caixa-de-hidroxicloroquina-a-apoiadores.shtml\">erguendo-as<\/a> diante de uma multid\u00e3o fren\u00e9tica de apoiadores. Dias depois, o presidente se deixou fotografar oferecendo caixas do mesmo rem\u00e9dio \u00e0s emas do Pal\u00e1cio do Alvorada &#8211; um dos animais chegou a deferir uma pequena bicada, o que tomou as manchetes dos jornais e os feeds das redes sociais. Ao longo dessas tragic\u00f4micas performances, m\u00e9dicos e at\u00e9 <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/saude\/ultimas-noticias\/redacao\/2020\/07\/19\/cloroquina-unimed-kit-covid.htm\">planos de sa\u00fade<\/a> Brasil afora prescreviam o \u201ccoquetel cloroqu\u00ednico\u201d &#8211; uma combina\u00e7\u00e3o da droga com outras subst\u00e2ncias como azitromicina, zinco, vitamina D e o verm\u00edfugo ivermectina &#8211; ancorados em suprimentos e <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/jalecos-em-guerra\/\">recomenda\u00e7\u00f5es <\/a>do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e diversas secretarias estaduais e municipais de sa\u00fade, endossados pelo Conselho Federal de Medicina e algumas associa\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas nacionais, como a AMB.<\/p>\n<p>Afinal, como tem se dado a participa\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos nos debates sobre a cloroquina? Como a pr\u00e1tica m\u00e9dica pode estar sujeita, ela mesma, aos circuitos de enviesamento cognitivo provocados pelo ecossistema de desinforma\u00e7\u00e3o e polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica? Por que a figura do m\u00e9dico tem sido t\u00e3o central na produ\u00e7\u00e3o desse Brasil cloroqu\u00ednico?<\/p>\n<p>Como primeiro passo para a explora\u00e7\u00e3o dessas quest\u00f5es, fizemos um monitoramento e an\u00e1lise sobre como a pandemia foi abordada em um grupo de extrema-direita do Telegram. O grupo possui relev\u00e2ncia especial por ter mais de 15.000 participantes e ter sido criado antes da elei\u00e7\u00e3o do atual presidente. O posicionamento adotado pelos pesquisadores foi de \u201clurker\u201d, ou seja, nenhuma intera\u00e7\u00e3o foi realizada pelos pesquisadores no grupo. Al\u00e9m disso, o grupo \u00e9 aberto a qualquer participante, n\u00e3o possui regras de conduta ou \u00e9tica de participa\u00e7\u00e3o e, por fim, foi garantido o anonimato dos usu\u00e1rios no momento da extra\u00e7\u00e3o dos dados<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>De 19 de mar\u00e7o a 24 de setembro de 2020, 867 mensagens de texto de 429 usu\u00e1rios diferentes mencionaram a cloroquina ao menos uma vez (vide gr\u00e1fico 1 abaixo).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8587\" src=\"https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled2.png\" alt=\"\" width=\"872\" height=\"547\" srcset=\"https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled2.png 872w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled2-400x251.png 400w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled2-768x482.png 768w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled2-820x514.png 820w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled2-150x94.png 150w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled2-80x50.png 80w\" sizes=\"auto, (max-width: 872px) 100vw, 872px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Gr\u00e1fico 1 &#8211; Elabora\u00e7\u00e3o dos autores<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nota-se no gr\u00e1fico o padr\u00e3o recorrente de incremento de compartilhamentos e circula\u00e7\u00e3o de conte\u00fado nas redes bolsonaristas de forma articulada com eventos significativos para o governo federal: no caso, um pronunciamento oficial do presidente, e a sa\u00edda de dois ministros da sa\u00fade nos primeiros meses da crise. Se as narrativas circuladas online ajudam a enquadrar e explicar eventos no mundo offline que possam ser disruptivos para os apoiadores do presidente, \u00e9 poss\u00edvel inferir que a cloroquina desempenhou papel importante nesses enquadres narrativos, especialmente no in\u00edcio da pandemia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das mensagens de texto, foram compartilhados no grupo in\u00fameros \u00e1udios, imagens e v\u00eddeos que n\u00e3o apenas defendem a utiliza\u00e7\u00e3o da cloroquina mas sobretudo atacam aqueles que negam a sua efic\u00e1cia (vide imagens abaixo).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-8590\" src=\"https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled3.png\" alt=\"\" width=\"248\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled3.png 248w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled3-236x400.png 236w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled3-150x254.png 150w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled3-80x135.png 80w\" sizes=\"auto, (max-width: 248px) 100vw, 248px\" \/> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-8593\" src=\"https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled4.png\" alt=\"\" width=\"262\" height=\"378\" srcset=\"https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled4.png 262w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled4-150x216.png 150w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled4-80x115.png 80w\" sizes=\"auto, (max-width: 262px) 100vw, 262px\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-thumbnail wp-image-8596\" src=\"https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Untitled5-200x200.png\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Figura 2:<\/strong> Exemplos de imagens postadas em 15 de maio de 2020, dia da sa\u00edda do Ministro Nelson Teich.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Do total de mensagens postadas, ao menos 20% citam algum tipo de fonte m\u00e9dica para o respaldo ao uso da cloroquina. Muitas delas est\u00e3o associadas a conte\u00fados de redes sociais diversas (Twitter, Youtube e sites noticiosos) figurando m\u00e9dicos e especialistas que defendiam o uso da cloroquina para a preven\u00e7\u00e3o e\/ou cura da covid-19. Os principais especialistas mencionados no grupo s\u00e3o o m\u00e9dico franc\u00eas <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/o-arauto-da-cloroquina\/\">Didier Raoult<\/a>, al\u00e9m dos brasileiros Dra. Nise Yamaguchi e Dr. Paolo Zanotto, todos conhecidos por sua milit\u00e2ncia a favor da prescri\u00e7\u00e3o para o tratamento ou uso profil\u00e1tico da cloroquina para o combate \u00e0 covid-19, com bastante visibilidade em redes sociais e canais de m\u00eddia ligados \u00e0 nova direita.<\/p>\n<p>Assim, longe de ser uma discuss\u00e3o alheia \u00e0 classe m\u00e9dica e \u00e0 sua institucionalidade, a controv\u00e9rsia sobre a cloroquina apresenta-se como um marcador sobre como a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se insere na pr\u00f3pria medicina e seus art\u00edfices. As diversas postagens, antes de buscarem negar a autoridade epist\u00eamica dos m\u00e9dicos, colocam a pr\u00f3pria ci\u00eancia como um dos principais palcos de disputa ideol\u00f3gica. Vejamos isto mais detalhadamente.<\/p>\n<p>Destacam-se, entre os argumentos mais utilizados, o respaldo em experi\u00eancias aned\u00f3ticas organizadas a partir de depoimentos sobre como a utiliza\u00e7\u00e3o do coquetel baseado em cloroquina teria sido a causa do sucesso do tratamento contra a covid-19. \u00c9 interessante notar que, ao contr\u00e1rio de fundamentarem-se em pr\u00e1ticas de automedica\u00e7\u00e3o, a maioria dos depoimentos relata tratamentos prescritos por um m\u00e9dico profissional &#8211; ou seja, a rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente continua tendo um papel central para a confian\u00e7a no sucesso do tratamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Caros amigos, Sinto-me na OBRIGA\u00c7\u00c3O de dar meu depoimento mesmo expondo publicamente, minha vida particular. (&#8230;) Segui rigorosamente a medica\u00e7\u00e3o prescrita: REUQUINOL (hidroxicloroquina), AZITROMICINA, IVERMICTINA ZINCO Na mesma noite iniciei o tratamento e tomei a dose dupla de HIDROXICLOROQUINA. Ainda tive muita tosse \u00e0 noite mas no dia seguinte me senti melhor .No terceiro dia de tratamento todos os sintomas haviam desaparecido persistindo uma leve tosse, que desapareceu no quinto dia de tratamento. Hoje estou totalmente recuperado gra\u00e7as \u00e0 HIDROXICLOROQUINA prescrita pelo infectologista. (&#8230;) <\/em><strong>(Usu\u00e1rio 844520fee58f22dd2ba376a641950f46 18\/04\/2020)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel inferir, a partir das postagens, que os partid\u00e1rios do presidente buscaram fundamentar a confian\u00e7a na efic\u00e1cia do tratamento a partir de um trabalho de demarca\u00e7\u00e3o de fronteiras amigo-inimigo dentro do pr\u00f3prio campo da sa\u00fade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Os melhores hospitais privados do Brasil e do mundo est\u00e3o usando a hidroxicloroquina no tratamento dos doentes e obtendo excelentes resultados. Mas quem produz conte\u00fado cient\u00edfico n\u00e3o \u00e9 o maior laborat\u00f3rio do mundo nem a maior autoridade em infectologia, quem produz conte\u00fado cient\u00edfico \u00e9 a OMS, um \u00f3rg\u00e3o pol\u00edtico. <\/em><strong><em>(Usu\u00e1rio cf5c4e49ac6e72d60bf0e9d3d9359f73 07\/04\/2020)<\/em> <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Assim, os m\u00e9dicos que receitam a cloroquina s\u00e3o apresentados como profissionais experientes e confi\u00e1veis, e os seus posicionamentos s\u00e3o classificados como \u201cverdadeiramente\u201d cient\u00edficos. Isso significa que estes profissionais seriam aut\u00eanticos cientistas, pois isentos de enviesamentos pol\u00edticos e\/ou interesses financeiros. Ao mesmo tempo, s\u00e3o associados a valores como ousadia, hero\u00edsmo e patriotismo, na medida em que se disp\u00f5em a enfrentar, segundo esta concep\u00e7\u00e3o, as poderosas corpora\u00e7\u00f5es que dominam os aparatos cient\u00edficos e midi\u00e1ticos internacionais. Al\u00e9m disso, estariam dispostos a experimentar e pensar \u201cfora da caixa\u201d em contextos de <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2020\/05\/22\/bolsonaro-diz-que-autoriza-que-sua-mae-receba-cloroquina-se-tiver-covid-19.htm\">crise e urg\u00eancia<\/a>, onde a pr\u00e1tica convencional da ci\u00eancia experimental parece n\u00e3o ser capaz de produzir resultados imediatos: \u201cquando se est\u00e1 morrendo afogado, at\u00e9 jacar\u00e9 \u00e9 tronco para se agarrar\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado, os m\u00e9dicos que rejeitam a cloroquina s\u00e3o associados \u00e0 omiss\u00e3o de socorro. S\u00e3o repetidas as afirma\u00e7\u00f5es de que existiriam raz\u00f5es \u201cpuramente\u201d ideol\u00f3gicas e\/ou econ\u00f4micas para rejeitar a prescri\u00e7\u00e3o e uso massivo no tratamento e na profilaxia da droga contra a covid-19, resultando inclusive em mortes desnecess\u00e1rias. S\u00e3o aventados interesses econ\u00f4micos das ind\u00fastrias farmac\u00eauticas e do \u201ccomunismo\u201d personificado no governo do partido comunista chin\u00eas &#8211; mas tamb\u00e9m a esquerda nacional &#8211; que teriam como interesse derrubar o governo federal. De maneira recorrente, s\u00e3o mencionados \u201cplanos esquerdistas\u201d para \u201cquebrar\u201d a nossa economia e endividar o pa\u00eds. O ponto central \u00e9 que os m\u00e9dicos que n\u00e3o prescrevem a cloroquina estariam supostamente aliados \u00e0 \u201centidade pol\u00edtica\u201d &#8211; portanto n\u00e3o-cient\u00edfica &#8211; encarnada pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, sem contar os planos da \u201cgrande m\u00eddia\u201d em promover a desinforma\u00e7\u00e3o contra a cloroquina. Nessa gram\u00e1tica, amplamente compartilhada com o pensamento conspirat\u00f3rio e os <a href=\"https:\/\/revista.internetlab.org.br\/serifcomo-vencer-uma-eleicao-sem-sair-de-casa-serif-a-ascensao-do-populismo-digital-no-brasil\/\">populismos<\/a> contempor\u00e2neos, o campo cient\u00edfico \u00e9 dividido entre agentes aut\u00eanticos &#8211; cientistas de fato, portadores da verdade &#8211; e inaut\u00eanticos, que representariam interesses econ\u00f4micos, pol\u00edticos e \u201cglobalistas\u201d que escondem suas reais inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A mensagem abaixo, recorrentemente compartilhada, exemplifica bem como a demarca\u00e7\u00e3o se d\u00e1 no interior das comunidades m\u00e9dicas e cient\u00edficas:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>A HIDROXICLOROQUINA EST\u00c1 DIVIDINDO OPINI\u00d5ES. DE UM LADO OS QUE DEFENDEM O SEU USO:- 6.000 m\u00e9dicos de 30 pa\u00edses defendem a sua utiliza\u00e7\u00e3o.- Na It\u00e1lia est\u00e1 sendo distribu\u00edda gratuitamente, desde que apresente receita m\u00e9dica.- A R\u00fassia inseriu este f\u00e1rmaco nos seus protocolos.- 72% dos m\u00e9dicos espanh\u00f3is est\u00e3o utilizando.- O Mayo Clinic em Rochester, nos Estados Unidos, eleito por tr\u00eas anos seguidos como O MELHOR HOSPITAL DO MUNDO, utiliza a hidroxicloroquina.- (&#8230;) Estudos em NY atestam o sucesso da associa\u00e7\u00e3o de hidroxicloroquina + azitromicina + zinco.- (&#8230;.) O CFM (Conselho Federal de Medicina) recomenda o uso.- A ANVISA liberou.- O Presidente Bolsonaro defende a utiliza\u00e7\u00e3o da hidroxicloroquina h\u00e1 2 meses. DE OUTRO LADO OS QUE S\u00c3O CONTRA:- O diretor comunista da OMS, que nem m\u00e9dico \u00e9.- A diretora do Instituto Oswaldo Cruz, que n\u00e3o \u00e9 m\u00e9dica, n\u00e3o \u00e9 bi\u00f3loga, nem cientista. Ela \u00e9 formada em filosofia e \u00e9 militante do PT.- Governadores que, por mero acaso, est\u00e3o sendo investigados por superfaturamentos e desvios de verba.- Estudos feitos na China comunista.- Lobistas dos grandes laborat\u00f3rios, pois a hidroxicloroquina j\u00e1 existe h\u00e1 70 anos e j\u00e1 tem a patente livre.- Dr. Uip \u00e9 contra, mas usou a hidroxicloroquina quando pegou Covid-19.- Ex-Ministro Mandetta (demitido)- Ex-Ministro Nelson Teich (saiu)- Folha de S\u00e3o Paulo- Rede Globo de televis\u00e3o Agora, pensem sobre cada um e tire suas conclus\u00f5es. <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depreende-se, portanto, que os apoiadores de Bolsonaro n\u00e3o negam a legitimidade das institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas em si, mas buscam instrumentaliz\u00e1-las a favor de posicionamentos inflexionados por crit\u00e9rios externos aos consensos mais amplos na comunidade cient\u00edfica. Mais do que tentar emplacar um paradigma alternativo de m\u00e9dicos patriotas apoiadores da cloroquina, as narrativas circuladas no grupo ensejaram o papel de \u201c<a href=\"https:\/\/www.comciencia.br\/mercadores-da-duvida-cientistas-contra-ciencia\/\">mercadores da d\u00favida<\/a>\u201d: ao constantemente negar evid\u00eancias e produzir fatos alternativos, impedem a estabiliza\u00e7\u00e3o de consensos na comunidade cient\u00edfica. Isto, em si, j\u00e1 se configura como um resultado satisfat\u00f3rio, visto que a manuten\u00e7\u00e3o de um ambiente de confus\u00e3o e ambiguidade \u00e9 parte importante do <em>modus operandi<\/em> de populistas como <a href=\"https:\/\/www.vox.com\/policy-and-politics\/2020\/1\/16\/20991816\/impeachment-trial-trump-bannon-misinformation\">Trump <\/a>e Bolsonaro: a impossibilidade de tra\u00e7ar causalidade impede a atribui\u00e7\u00e3o de responsabiliza\u00e7\u00e3o. As consequ\u00eancias negativas, sanit\u00e1rias e econ\u00f4micas da pandemia podem assim ser sempre atribu\u00eddas a outros: governadores e prefeitos, Congresso Nacional e STF, ex-ministros e outros inimigos internos, China, Bill Gates e mesmo aos pr\u00f3prios m\u00e9dicos que, neste caso, se negam a prescrever a cloroquina.<\/p>\n<p>O modo como a narrativa da cloroquina ganhou tra\u00e7\u00e3o no Brasil encontra resson\u00e2ncias com padr\u00f5es mais gerais relativos aos ecossistemas de desinforma\u00e7\u00e3o em m\u00eddias digitais. Lisbeth Van Zoonen (<a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/abs\/10.1177\/0267323112438808\">2012<\/a>) se valeu do termo \u201ceu-pistemologia\u201d (<em>i-pistemology<\/em>) para indicar o tipo de reorganiza\u00e7\u00e3o epist\u00eamica que ocorre nessas condi\u00e7\u00f5es, marcadas por desconfian\u00e7a crescente de mediadores como especialistas e o jornalismo profissional. Como tamb\u00e9m observamos em nossos dados, usu\u00e1rios t\u00eam privilegiado cada vez mais o recurso aos sentidos imediatos (aquilo que se pode ver, ouvir por si mesmo), \u00e0 trajet\u00f3ria pessoal (aquilo que se viveu, que se conhece em primeira m\u00e3o), \u00e0 opini\u00e3o de pares (entendidos como espont\u00e2neos e aut\u00eanticos) e \u00e0 busca ativa de informa\u00e7\u00f5es na internet (fazer a pr\u00f3pria \u201cpesquisa\u201d sem necessidade de intermedi\u00e1rios).<\/p>\n<p>Nesses contextos, a figura do m\u00e9dico pode ganhar relev\u00e2ncia enquanto um tipo de rela\u00e7\u00e3o com o paciente menos mediada que o conhecimento experimental produzido pela epidemiologia e outras ci\u00eancias estat\u00edsticas mediadas por \u201cabstra\u00e7\u00f5es\u201d e procedimentos metodol\u00f3gicos complexos. A rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a com o <em>seu<\/em> m\u00e9dico de escolha no mercado da sa\u00fade pode ser assim inflexionada por fatores n\u00e3o-t\u00e9cnicos mobiliz\u00e1veis a partir da experi\u00eancia pessoal, como avalia\u00e7\u00f5es do \u201cpatriotismo\u201d ou da \u201cfama\u201d do profissional (na m\u00eddia, em redes sociais), indica\u00e7\u00f5es de familiares, amigos ou grupos online, ou da busca por aquilo que \u201ca grande m\u00eddia n\u00e3o quer que voc\u00ea saiba\u201d. E mesmo essa media\u00e7\u00e3o pode ser exclu\u00edda, j\u00e1 que a cloroquina pode ser potencialmente acessada por meio da automedica\u00e7\u00e3o, subsidiada por \u201cpesquisas\u201d feitas online pelo pr\u00f3prio paciente ou por testemunhos de experi\u00eancia pessoal de cura e preven\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a registrados por usu\u00e1rios comuns em v\u00eddeos e textos circulados nas redes. No melhor <a href=\"https:\/\/www.antropologicas-epidemicas.com.br\/post\/coronav%C3%ADrus-como-for%C3%A7a-de-mercado-e-o-fim-da-sociedade\">estilo neoliberal<\/a>, a \u201csoberania\u201d e a \u201cliberdade\u201d de escolha sobre como lidar com a pandemia recai, em \u00faltima inst\u00e2ncia, sobre os pr\u00f3prios sujeitos e suas fam\u00edlias: e portanto, tamb\u00e9m recai sobre eles apenas a responsabiliza\u00e7\u00e3o por eventuais consequ\u00eancias negativas dos riscos assumidos.<\/p>\n<h2>Notas<\/h2>\n<p><sup>[1]<\/sup> Utilizamos uma fun\u00e7\u00e3o hash da linguagem R (cf. <a href=\"https:\/\/cran.r-project.org\/web\/packages\/digest\/index.html\">https:\/\/cran.r-project.org\/web\/packages\/digest\/index.html<\/a>) para criptografar os nomes de cada um dos usu\u00e1rios no momento da coleta dos dados. Isto impossibilitou aos pesquisadores e suas equipe saber o \u201cnome real\u201d do usu\u00e1rios dentro do grupo.<\/p>\n<h2><strong>Refer\u00eancia<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h2>\n<p>VAN ZOONEN, L. I-Pistemology: Changing Truth Claims in Popular and Political Culture. <strong>European Journal of Communication<\/strong>, v. 27, n. 1, p. 56\u201367, 2012.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>*<strong>Leonardo F. Nascimento<\/strong> \u00e9 professor do Bacharelado Interdisciplinar em Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o, do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais e coordenador do Laborat\u00f3rio de Humanidades Digitais da Universidade Federal da Bahia (UFBA).<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Let\u00edcia Cesarino<\/strong> \u00e9 professora no Departamento de Antropologia e Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).<\/em><\/p>\n<p><em><strong>Paulo Fonseca<\/strong> \u00e9 professor no Instituto de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o (ICTI) e pesquisador do Laborat\u00f3rio de Humanidades Digitais da Universidade Federal da Bahia (UFBA).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><strong>S\u00e9rie Lavits_Covid19<\/strong><\/h2>\n<p>A <strong>Lavits_Covid19: Pandemia, tecnologia e capitalismo de vigil\u00e2ncia<\/strong> \u00e9 um exerc\u00edcio de reflex\u00e3o sobre as respostas tecnol\u00f3gicas, sociais e pol\u00edticas que v\u00eam sendo dadas \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus, com especial aten\u00e7\u00e3o aos processos de controle e vigil\u00e2ncia. Tais respostas levantam problemas que se furtam a sa\u00eddas simples. A s\u00e9rie nos convoca a reinventar ideias, corpos e conex\u00f5es em tempos de pandemia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Leonardo F. Nascimento, Let\u00edcia Cesarino e Paulo Fonseca* [*] Trecho de mensagem enviada pelo usu\u00e1rio cf5c4e49ac6e72d60bf0e9d3d9359f73 em 07 de abril de 2020 (veja a nota 2 seguinte). 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