{"id":9336,"date":"2020-05-06T17:39:18","date_gmt":"2020-05-06T20:39:18","guid":{"rendered":"https:\/\/lavits.bemvindo.co\/lavits_covid19_4-uma-intrusao-viral-convoca-novos-saberes-e-novos-modos-de-saber\/"},"modified":"2020-05-06T17:39:18","modified_gmt":"2020-05-06T20:39:18","slug":"lavits_covid19_4-uma-intrusao-viral-convoca-novos-saberes-e-novos-modos-de-saber","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lavits.org\/en\/lavits_covid19_4-uma-intrusao-viral-convoca-novos-saberes-e-novos-modos-de-saber\/","title":{"rendered":"#4: uma intrus\u00e3o viral convoca novos saberes e novos modos de saber"},"content":{"rendered":"<p>Nos primeiros meses de 2020, o Brasil e o mundo foram acometidos pela pandemia do novo coronav\u00edrus. A intrus\u00e3o viral fez surgir impulsos m\u00faltiplos: nega\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, cria\u00e7\u00e3o de falsos dualismos entre manuten\u00e7\u00e3o da vida e economia, vigil\u00e2ncia corporativa e entre pares, cuidado coletivo, discuss\u00e3o sobre papel do estado, solidariedade, desejos de explica\u00e7\u00e3o e temor foram apenas alguns dos sentimentos, discursos e pr\u00e1ticas que emergiram, e seguem vivos, nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p>Habitar o acontecimento <strong>covid-19<\/strong> foi a vontade que motivou a convoca\u00e7\u00e3o da <strong>Zona do Cont\u00e1gio<\/strong>, um laborat\u00f3rio situado, de pr\u00e1tica coletiva de uma ci\u00eancia do risco, espa\u00e7o de converg\u00eancia de saberes e atores sociais diversos, que deseja mobilizar uma intelig\u00eancia coletiva alternativa \u00e0 vigil\u00e2ncia e ao controle.<\/p>\n<p>\u201cCom o acontecimento COVID-19, o Laborat\u00f3rio Zona de Cont\u00e1gio instaura-se como um dispositivo de pesquisa e interven\u00e7\u00e3o na medida em que a produ\u00e7\u00e3o coletiva de conhecimento sobre as atuais possibilidades de fabrica\u00e7\u00e3o de uma vida n\u00e3o-fascista torna-se urgente. Se o fortalecimento de governos autorit\u00e1rios j\u00e1 era uma amea\u00e7a \u00e0 vida comum, a intrus\u00e3o viral potencializa a dissemina\u00e7\u00e3o de uma cultura imunit\u00e1ria e securit\u00e1ria de contornos fascistas no tecido da pr\u00f3pria vida social\u201d, descreve a <a href=\"https:\/\/www.tramadora.net\/2020\/03\/25\/laboratorio-zona-de-contagio\/\">convocat\u00f3ria<\/a>.<\/p>\n<p>Coordenado por<strong> Henrique Parra<\/strong> (Unifesp) e <strong>Alana Moraes<\/strong> (doutoranda no Museu Nacional &#8211; UFRJ), pesquisadores do <a href=\"https:\/\/pimentalab.milharal.org\">Pimentalab<\/a> &#8211; Laborat\u00f3rio de Tecnologia, Pol\u00edtica e Conhecimento &#8211; da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) e membros da <strong>Rede Latino-americana de Estudos sobre Vigil\u00e2ncia, Tecnologia e Sociedade (Lavits)<\/strong>, o Laborat\u00f3rio Zona de Cont\u00e1gio \u00e9 uma iniciativa de conflu\u00eancias, um h\u00edbrido do coletivo Tramadora, Projeto Laborat\u00f3rio do Comum do Pimentalab\/Unifesp e Lavits. O Laborat\u00f3rio recebe o apoio da Lavits\/Funda\u00e7\u00e3o Ford. A equipe da Zona de Cont\u00e1gio conta com a colabora\u00e7\u00e3o da antrop\u00f3loga Bru Pereira e da cientista social J\u00e9ssica Paifer.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da internet, os pesquisadores convidaram a todos que se sentissem interpelados pelas quest\u00f5es apresentadas a participar de um percurso coletivo de investiga\u00e7\u00e3o e de cria\u00e7\u00e3o, formas de express\u00e3o sobre o experienciado, fragmentos coletados do mundo, situa\u00e7\u00f5es vividas, sentidas, relatos, hesita\u00e7\u00f5es que ajudassem a estabelecer conversa\u00e7\u00f5es sobre a pandemia. Al\u00e9m disso, o laborat\u00f3rio promove um ciclo de leituras e \u201cConversa\u00e7\u00f5es Febris\u201d online. O primeiro encontro, realizado no dia 23 de abril de 2020, discutiu o livro <i>No tempo das cat\u00e1strofes<\/i>, da fil\u00f3sofa da ci\u00eancia Isabelle Stengers.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel participar da iniciativa e\/ou acessar informa\u00e7\u00f5es por meio do<a href=\"https:\/\/twitter.com\/_tramadora\"> twitter<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tramadora_lab\/\">instagram<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/corpocontagio\/\">facebook<\/a>, <a href=\"https:\/\/t.me\/tramadora\">telegram<\/a>, <a href=\"conspire@tramadora.net\">e-mail<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.tramadora.net\/zonadecontagio\/\">site<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Fernanda Bruno<\/strong>, pesquisadora do <a href=\"http:\/\/medialabufrj.net\/\">MediaLab.UFRJ<\/a> e membra da Lavits, entrevistou Henrique Parra e Alana Moraes sobre a iniciativa. O di\u00e1logo est\u00e1 transcrito a seguir e integra o quarto epis\u00f3dio da s\u00e9rie<b> Lavits_covid19: Pandemia, tecnologia e capitalismo de vigil\u00e2ncia<\/b>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Di\u00e1logos com Alana Moraes, Henrique Parra e Fernanda Bruno<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Fernanda Bruno:<\/b> meu primeiro convite \u00e9 que voc\u00eas apresentem brevemente a trajet\u00f3ria do <a href=\"https:\/\/trama.pimentalab.net\/\">Laborat\u00f3rio do Comum<\/a> ao Zona do Cont\u00e1gio, e a partir da\u00ed come\u00e7amos a conversa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Henrique Parra:<\/b> ano passado est\u00e1vamos desenvolvendo o projeto <i>Laborat\u00f3rio do Comum: tecnopol\u00edticas, corpos e territ\u00f3rios<\/i>, focado em um conjunto de quest\u00f5es relacionadas \u00e0s disputas no territ\u00f3rio do Campos El\u00edseos, regi\u00e3o central na cidade de S\u00e3o Paulo. Est\u00e1vamos observando um conjunto de reconfigura\u00e7\u00f5es nas formas de exerc\u00edcio do poder &#8211; seja atrav\u00e9s das tecnologias digitais, mas tamb\u00e9m em processos relacionados \u00e0 gentrifica\u00e7\u00e3o, \u00e0 militariza\u00e7\u00e3o, \u00e0 securitiza\u00e7\u00e3o da vida, atravessadas pelas formas de vida neoliberais &#8211; e como isso est\u00e1 em tens\u00e3o com as din\u00e2micas de vida existentes no territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se debru\u00e7a sobre o pr\u00f3prio desenho do Laborat\u00f3rio. Como fazer uma pesquisa situada, coletiva e aberta, a partir de um convite, uma convocat\u00f3ria aberta para pessoas interpeladas por problemas comuns?<\/p>\n<p>Desenvolvemos esse projeto ao longo de seis meses e, no in\u00edcio de 2020, ele teria uma nova fase, quando fomos atravessados pelo covid-19, o que nos obrigou a repensar o cronograma de a\u00e7\u00f5es, mas ao mesmo tempo a observar as quest\u00f5es que j\u00e1 se manifestavam no percurso anterior do trabalho e que, em raz\u00e3o do coronav\u00edrus, ganham contornos mais intensos. Como fazer pesquisa em tempos de pandemia?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Alana Moraes: <\/b>o Laborat\u00f3rio do Comum e agora a Zona de Cont\u00e1gio confluem nessa aposta epist\u00eamica de convocar e insistir em uma certa intelig\u00eancia coletiva. \u00c9 sempre um experimento de uma pr\u00e1tica cient\u00edfica que se pretende ao mesmo tempo aberta e coletiva. Ent\u00e3o ela \u00e9 sempre prec\u00e1ria por um lado, porque do ponto de vista institucional, de algumas exig\u00eancias acad\u00eamicas, n\u00f3s nos colocamos de uma maneira um pouco mais livre. Ao mesmo tempo, essa instabilidade precisa ser o tempo todo repensada, cuidada, sustentada de algum modo, ela s\u00f3 funciona a partir de um engajamento entre todos.<\/p>\n<p>Uma outra converg\u00eancia importante e que a gente quer seguir experimentando \u00e9 essa ideia de uma transdisciplinaridade. Nossas pr\u00e1ticas acad\u00eamicas foram se conformando em lugares muito especializados e muito disciplinarizados. Ent\u00e3o, a partir de uma chamada aberta, que tem a ver com o territ\u00f3rio, com a vida no territ\u00f3rio, havia essa ideia de que n\u00f3s pud\u00e9ssemos experimentar uma ci\u00eancia que fosse mesmo contradisciplinar, no sentido de que as quest\u00f5es que ela enuncia n\u00e3o s\u00e3o propriamente da sociologia, ou da antropologia, ou da arquitetura e do urbanismo, mas que seja uma esquina contradisciplinar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Fernanda Bruno: <\/b>a minha primeira quest\u00e3o tem a ver com essa condi\u00e7\u00e3o, com esse convite que voc\u00eas fazem, que \u00e9 o de habitar o limite, habitar uma certa zona de incerteza. Eu acho que no Lab do Comum j\u00e1 tinha esse movimento, que se fazia, como destacou a Alana, a partir de uma contradisciplinaridade, mas que tamb\u00e9m implicava um deslocamento territorial, com a ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os da cidade em que tradicionalmente a universidade n\u00e3o estaria presente, ou n\u00e3o estaria presente de um certo modo, que \u00e9 o modo com que voc\u00eas seguem desejando habitar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, me parece que j\u00e1 havia o desejo de habitar essa fronteira entre a universidade, a rua, a cidade e o mundo, e agora essa fronteira se desloca, se encerra um pouco nesse ambiente da casa, que \u00e9 essa c\u00e9lula individual, familiar e burguesa, onde a maioria dos\u00a0 pesquisadores que est\u00e3o na universidade agora habita quase que integralmente. Voc\u00eas reinventam um movimento para retomar a pr\u00f3pria vida acad\u00eamica, em um certo sentido, e tamb\u00e9m, de novo, a rua, a cidade, o mundo. A contradisciplinaridade envolve tamb\u00e9m uma explos\u00e3o de fronteiras, que j\u00e1 estava presente no Lab do Comum, entre o pr\u00f3prio saber acad\u00eamico e os saberes que est\u00e3o sendo produzidos pelas diversas formas de habitar e viver a cidade.<\/p>\n<p>A pergunta, enfim, \u00e9 se voc\u00eas j\u00e1 t\u00eam algum germe de entendimento &#8211; n\u00e3o de respostas, de explica\u00e7\u00f5es &#8211; do que \u00e9 esse novo desenho do laborat\u00f3rio que habita o limite de um outro modo. Uma coisa que acho interessante \u00e9 essa ideia de um laborat\u00f3rio que vai se fazendo, que \u00e9 ao mesmo tempo o ambiente onde se faz a pesquisa, se produz o pensamento, mas ele tamb\u00e9m \u00e9 objeto, no sentido de que voc\u00eas tamb\u00e9m est\u00e3o tentando entender ou desenhar o laborat\u00f3rio no pr\u00f3prio movimento de fazer a pesquisa. Acho que isso mais do que nunca est\u00e1 presente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Alana Moraes:<\/b> eu queria voltar para uma quest\u00e3o que voc\u00ea colocou no come\u00e7o, Fernanda, que eu acho que tamb\u00e9m serve muito para a gente pensar esse lugar de implos\u00e3o das fronteiras, ou pelo menos para gente experimentar um pouco mais essa suspens\u00e3o das fronteiras disciplinares, ainda que seja uma pr\u00e1tica de pesquisa super dif\u00edcil, que nos exija o tempo todo um certo sentido de risco, de assumir esse risco da suspens\u00e3o de algumas bordas.<\/p>\n<p>Mas esse risco do inst\u00e1vel e do prec\u00e1rio vem nos empurrando, desde o Laborat\u00f3rio do Comum, a encontrar quest\u00f5es muito simples. As quest\u00f5es com as quais a gente se depara, a partir desse encontro entre m\u00faltiplos e heterog\u00eaneos saberes e corpos, s\u00e3o simples no sentido de que conseguem enunciar problemas muito complexos, mas de um lugar reconhec\u00edvel por qual todos n\u00f3s passamos.<\/p>\n<p>Por exemplo, no Laborat\u00f3rio do Comum, a gente estava muito interessado, inicialmente, em pesquisar esse tema das novas tecnologias de vigil\u00e2ncia, que hoje s\u00e3o muito presentes no territ\u00f3rio. Mas a gente acabou se dando conta de que existia uma camada para al\u00e9m de todo o arranjo t\u00e9cnico dos poderes que era o fato de as pessoas, nossos vizinhos, desejarem ter uma c\u00e2mera de vigil\u00e2ncia nas suas casas. O fato \u00e9 que existe um certo desejo compartilhado de seguran\u00e7a, que \u00e9 muito simples, que \u00e9 muito reconhec\u00edvel para al\u00e9m de todo novo ordenamento sociot\u00e9cnico, pode ser constatado por qualquer um e no entanto ele nos exige um esfor\u00e7o brutal de pesquisa e reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele faz a gente se perguntar o que significa vizinhan\u00e7a, o que significa fazer um bairro, a partir de outros sentidos de pertencimento que n\u00e3o seja esse da seguran\u00e7a. Esse problema, no fundo, a gente demorou muito tempo pra chegar nele, mas ele \u00e9 muito simples, n\u00e9? Ele pode ser compartilhado por qualquer pessoa que a gente encontrava em uma pra\u00e7a quando est\u00e1vamos fazendo um almo\u00e7o aberto e coletivo. Encontrar essas quest\u00f5es, que no fundo s\u00e3o quest\u00f5es simples, nos dizem sobre esse encadeamento que est\u00e1 entre a casa, a rua, as rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a, as novas tecnologias e as novas media\u00e7\u00f5es sociot\u00e9cnicas.<\/p>\n<p>Um desafio para a Zona de Cont\u00e1gio tem a ver com essa investiga\u00e7\u00e3o sobre como criar um desenho de uma pesquisa contradisciplinar; um desenho que permita com que diversos saberes, experi\u00eancias se contaminem no processo de pesquisa coletiva, mas tamb\u00e9m tem muito a ver com essa ideia persistente de encontrar esses lugares que s\u00e3o muito simples, mas que tamb\u00e9m s\u00e3o os lugares em que se cruzam a casa, como uma tecnologia da domesticidade, e essas novas media\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, o corpo, o que entendemos como sa\u00fade coletiva. Esse lugar do cruzamento, da encruzilhada, \u00e9 um lugar importante nesse desenho agora do Laborat\u00f3rio Zona de Cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Henrique Parra:<\/b> a situa\u00e7\u00e3o que estamos vivendo evidencia um conjunto de elementos relacionados ao funcionamento das infraestruturas da vida ordin\u00e1ria, da vida cotidiana, que est\u00e3o absolutamente invisibilizadas, naturalizadas na paisagem.<\/p>\n<p>Um elemento importante no desenho do laborat\u00f3rio \u00e9 como criamos estrat\u00e9gias de visibiliza\u00e7\u00e3o das infraestruturas da vida comum e que, por diversas raz\u00f5es, tornam-se invis\u00edveis \u00e0 nossa percep\u00e7\u00e3o. Quando experienciamos o acontecimento covid-19, surge de forma mais aguda uma percep\u00e7\u00e3o sobre diversos mecanismos que participam da produ\u00e7\u00e3o de diversas assimetrias sobre, por exemplo, os nossos deslocamentos, as infraestruturas de comunica\u00e7\u00e3o (qual a qualidade do meu acesso \u00e0 internet), como ficam as rela\u00e7\u00f5es dentro da sua casa, a divis\u00e3o do trabalho, como a gente se alimenta, como trabalhamos, como cuidamos das crian\u00e7as, e tudo muito mediado pelas tecnologias digitais.<\/p>\n<p>Se por um lado o acontecimento covid-19 permite uma intensifica\u00e7\u00e3o, um avan\u00e7o dos mecanismos de produ\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias assimetrias de classe, g\u00eanero, ra\u00e7a e de novas formas de controle, ao mesmo tempo a gente consegue perceber esses elementos que est\u00e3o inscritos na paisagem.<\/p>\n<p>Outra dimens\u00e3o importante do desenho do laborat\u00f3rio \u00e9 tomar o ser humano como sensor, um sensor de percep\u00e7\u00e3o que \u00e9 sempre singular diante do est\u00e1 sendo vivido. Partimos da ideia de um corpo-sensor. O corpo que percebe, que sente e que produz a possibilidade de uma nova evid\u00eancia, um novo elemento que pode abrir ou instalar uma controv\u00e9rsia sobre a realidade.<\/p>\n<p>Algo que nos atravessa a todos \u00e9 a nova sensa\u00e7\u00e3o e percep\u00e7\u00e3o de risco e\u00a0 vulnerabilidade. A vulnerabilidade n\u00e3o como elemento negativo, da falta ou da exclus\u00e3o, mas como esse elemento que produz nossa interdepend\u00eancia, e ao mesmo tempo que instala a possibilidade de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a partir dessa vulnerabilidade, porque ela \u00e9 reveladora da nossa condi\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o do comum.<\/p>\n<p>Uma contraste te\u00f3rico\/pol\u00edtico importante no desenho desse laborat\u00f3rio \u00e9 investigar como o acontecimento covid-19 instala uma disputa em torno dos sentidos dessa experi\u00eancia: por um lado temos as enuncia\u00e7\u00f5es, pr\u00e1ticas e tecnologias que produzem um tipo de sujeito que se imagina aut\u00f4nomo, autossuficiente, eficiente no trabalho, que s\u00f3 tem uma \u201cgripezinha\u201d, versus outras possibilidades que sustentam uma pol\u00edtica do Comum, nossa condi\u00e7\u00e3o de seres interdependentes (inclusive com entes n\u00e3o-humanos) e de um risco comum.<\/p>\n<p>Claro que as situa\u00e7\u00f5es de risco s\u00e3o diferentes para cada um (sobretudo numa sociedade altamente desigual em termos raciais, de classe e g\u00eanero), mas a possibilidade de experienciar essa vulnerabilidade como uma condi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica permite interrogar a ideia do indiv\u00edduo soberano, de cidad\u00e3o que est\u00e3o imunizado das rela\u00e7\u00f5es com seu entorno, em que o outro \u00e9 visto como uma amea\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Fernanda Bruno: <\/b>me parece que esse corpo-sensor passa a ser um indicador ainda mais essencial. A conex\u00e3o entre as formas de vida e as possibilidades de pensar ganha uma nova urg\u00eancia. Me parece que h\u00e1 tamb\u00e9m uma outra vulnerabilidade: a pandemia muito rapidamente disparou uma eloqu\u00eancia explicativa que, de alguma maneira, silenciava ou resolvia muito r\u00e1pido essa experi\u00eancia de poder habitar essa zona de incerteza por um tempo mais alargado, de uma forma um pouco distinta, que voc\u00eas chamaram na convocat\u00f3ria de dimens\u00e3o experiencial, que me parece estar super conectada com esse corpo-sensor.<\/p>\n<p>Agora eu gostaria de fazer uma outra associa\u00e7\u00e3o, ainda sobre a quest\u00e3o do risco e a dimens\u00e3o da vulnerabilidade. Eu super me afino com a ideia de pensar o risco n\u00e3o na chave ou contorno da atitude individual, de uma prud\u00eancia individual, tampouco de uma l\u00f3gica securit\u00e1ria mais ampla e coletiva, que pensa na seguran\u00e7a no sentido de uma elimina\u00e7\u00e3o do risco e do perigo. Voc\u00eas est\u00e3o trabalhando com a ideia da vulnerabilidade como interdepend\u00eancia que sup\u00f5e, tamb\u00e9m, suportar uma certa margem de perigo, uma certa margem de risco.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rios momentos voc\u00eas falam em uma ci\u00eancia do risco. Eu vou ler um trechinho aqui sobre o qual me paira uma certa d\u00favida. Voc\u00eas dizem: \u201cuma ci\u00eancia de risco \u00e9 sempre uma ci\u00eancia que hesita, uma ci\u00eancia de retomada de uma intelig\u00eancia coletiva, que funciona apesar e contra os chamamentos da p\u00e1tria ou da grande ci\u00eancia e seus regimes de autoridade e de verdade\u201d.<\/p>\n<p>A provoca\u00e7\u00e3o que eu queria fazer tem a ver com a &#8220;grande ci\u00eancia&#8221; e com esse momento singular que estamos vivendo. Se por um lado h\u00e1 essa proposta de uma ci\u00eancia do risco, n\u00f3s (professores universit\u00e1rios) estamos fazendo isso desde as nossas casas. N\u00e3o estou sugerindo que n\u00e3o dever\u00edamos estar em casa, mas h\u00e1 um risco bem concreto que est\u00e1 sendo vivido por muitas pessoas e tamb\u00e9m por parte da \u201cgrande ci\u00eancia\u201d, por profissionais de sa\u00fade e pesquisadores que est\u00e3o na linha de frente. Eu fico me perguntando se essa oposi\u00e7\u00e3o, nesse momento, n\u00e3o rateia um pouco ou se ela n\u00e3o merece ser pensada com um pouco mais de cuidado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Henrique Parra: <\/b>voc\u00ea tem raz\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cgrande ci\u00eancia\u201d, mas tamb\u00e9m com rela\u00e7\u00e3o ao Estado. A provoca\u00e7\u00e3o que a gente faz n\u00e3o \u00e9 contra a ci\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 \u201ca grande ci\u00eancia\u201d, mas disputas em torno dos modos de produ\u00e7\u00e3o de verdades, em que, aparentemente, o que est\u00e1 em jogo seria qual a evid\u00eancia ou o dado \u201cmais verdadeiro\u201d. \u00c9 um debate que tamb\u00e9m se relaciona \u00e0s discuss\u00f5es sobre <em>fake news<\/em> e p\u00f3s-verdade.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 que, diante de um mundo que parece desmoronar, onde as vers\u00f5es n\u00e3o podem mais ser verificadas, h\u00e1 um movimento de tentar restabelecer uma forma de produ\u00e7\u00e3o de evid\u00eancias, inclusive com a volta de um argumento digamos, cient\u00edfico, como se as coisas passassem apenas por uma quest\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es ou evid\u00eancias de melhor qualidade, quando o que est\u00e1 em jogo, parece-nos, \u00e9 uma guerra de mundos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 suficiente a gente falar em termos de dados e evid\u00eancias. \u00c9 claro que elas s\u00e3o fundamentais para as tomadas de decis\u00e3o, para organizar a nossa a\u00e7\u00e3o no mundo, mas h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o em deslocar o debate para al\u00e9m do falso e do verdadeiro, sair dessa dicotomia, e dizer \u201colha, o que seriam as formas de produ\u00e7\u00e3o de cuidado para a manuten\u00e7\u00e3o da vida, para al\u00e9m do que est\u00e1 dispon\u00edvel como forma-Estado? (no sentido de uma biopol\u00edtica maior)\u201d.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos em uma situa\u00e7\u00e3o de absoluta urg\u00eancia, de perceber o que temos dispon\u00edvel como formas de resposta a um problema de sa\u00fade coletiva. Precisamos muito de toda a estrutura e de pol\u00edticas fortalecimento da sa\u00fade p\u00fablica. N\u00e3o \u00e9 suficiente entrar em uma investiga\u00e7\u00e3o que est\u00e1 simplesmente preocupada em produzir mais evid\u00eancia da mesma forma, mas pensar tamb\u00e9m que a forma de produ\u00e7\u00e3o dessa informa\u00e7\u00e3o est\u00e1, de alguma maneira, situada e implicada na produ\u00e7\u00e3o de mundos, de formas de vida. Do contr\u00e1rio, n\u00e3o somos capazes de comunicar outra experi\u00eancia de vida, de dizer ao outro como ele participa da produ\u00e7\u00e3o da sa\u00fade coletiva.<\/p>\n<p>Quando pensamos no debate sobre a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento cient\u00edfico, quais s\u00e3o as formas de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento cient\u00edfico, diante dessa situa\u00e7\u00e3o, que interrogam as formas hegem\u00f4nicas de conhecimento tecnocient\u00edfico orientados por normatividades econ\u00f4micas e pol\u00edticas de car\u00e1ter privatista, corporativo e mercadol\u00f3gico?<\/p>\n<p>Observamos, nesse momento, o fortalecimento de formas de produ\u00e7\u00e3o colaborativa\/aberta que confrontam in\u00fameras limita\u00e7\u00f5es relacionadas ao regime propriet\u00e1rio-autoral, organizado em torno de uma concep\u00e7\u00e3o do conhecimento como propriedade intelectual e mercadoria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Alana Moraes:<\/b> essa convocat\u00f3ria parte, de fato, de um lugar bem irrigado de controv\u00e9rsia. Por mais ataque e amea\u00e7as que a pr\u00e1tica cient\u00edfica esteja recebendo agora, e por mais que tenhamos que defender essas pr\u00e1ticas, n\u00e3o queremos abrir m\u00e3o de olhar criticamente para alguns enunciados de uma ci\u00eancia que sempre se sustentou a partir de um privil\u00e9gio epistemol\u00f3gico, a partir dessa ideia de que o enunciado de autoridade do fazer cient\u00edfico bastava para que os fatos cient\u00edficos se convertessem em verdade.<\/p>\n<p>A gente est\u00e1 colocando um pouco em suspens\u00e3o esse pressuposto para tentar experimentar uma ideia aberta e engajada de fazer ci\u00eancia. Ent\u00e3o n\u00e3o queremos abrir m\u00e3o de fazer ci\u00eancia, de pensar junto, de pensar uma pr\u00e1tica investigativa que produza conhecimento objetivo sobre a realidade. N\u00e3o tem a ver com uma luta da experi\u00eancia contra a teoria. Muito pelo contr\u00e1rio, a gente acha que esses dois lugares n\u00e3o s\u00e3o opostos e n\u00e3o devem ser opostos. Queremos experimentar o que seria essa pr\u00e1tica cient\u00edfica que se sustente a partir das rela\u00e7\u00f5es de implica\u00e7\u00e3o que ela tem com o mundo, uma ci\u00eancia que est\u00e1 no mundo.<\/p>\n<p>Eu tenho dado um exemplo que tem a ver com o embate sobre isolamento horizontal ou vertical. Muito do pensamento progressista tem respondido a esse embate afirmando que o isolamento horizontal deve ser feito porque ele \u00e9 um fato cient\u00edfico e o isolamento vertical n\u00e3o \u00e9 um fato cient\u00edfico. No entanto, quando a gente defende o isolamento horizontal, n\u00f3s estamos defendendo porque ele pressup\u00f5e uma certa concep\u00e7\u00e3o de vida a ser defendida, porque nos importa viver em companhia no mundo em que a gente habita, porque ele cont\u00e9m uma ideia sobre o que \u00e9 sa\u00fade coletiva. Obviamente que ele \u00e9 um fato cient\u00edfico, mas ele \u00e9 um fato cient\u00edfico que mais pode ter efetividade a partir do momento em que ele se mostra em sua constru\u00e7\u00e3o \u00e9tica, a partir dos seus lugares de implica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Fernanda Bruno:<\/b> quando voc\u00eas estavam falando, eu lembrei daquele texto da Donna Haraway, que \u00e9 uma inspira\u00e7\u00e3o para todos n\u00f3s, dos saberes localizados. Agora est\u00e1 muito ativa essa ideia de um saber que pode responder pelo mundo que cria. \u00c9 um pouco nesse sentido, me parece, que voc\u00ea est\u00e1 falando, Alana. Para al\u00e9m da verdade cient\u00edfica, que mundo a gente cria quando a gente prop\u00f5e um determinado modelo de controle epidemiol\u00f3gico?<\/p>\n<p>Eu queria voltar um pouco no tema da vigil\u00e2ncia e do controle, que tamb\u00e9m aparece na chamada de voc\u00eas e est\u00e1 presente desde o Laborat\u00f3rio do Comum. Estamos vendo como uma s\u00e9rie de tecnologias de biovigil\u00e2ncia come\u00e7am a entrar em obra. A minha pergunta \u00e9 menos sobre elas e mais sobre ao que voc\u00ea est\u00e3o atentos nesse campo. Quais s\u00e3o as perguntas que est\u00e3o se fazendo? No que voc\u00eas est\u00e3o prestando aten\u00e7\u00e3o nesse espectro das tecnologias de vigil\u00e2ncia, dentro do acontecimento covid-19?.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Henrique Parra: <\/b>h\u00e1 alguns temas em que estou mais envolvido. Um deles \u00e9 sobre as pr\u00e1ticas de educa\u00e7\u00e3o tecnicamente mediada. H\u00e1 uma acelera\u00e7\u00e3o na ado\u00e7\u00e3o, por parte de secretarias estaduais da educa\u00e7\u00e3o e universidades (p\u00fablicas e privadas), e na incorpora\u00e7\u00e3o de tecnologias digitais para a educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia. Elas s\u00e3o permeadas por in\u00fameros problemas que est\u00e3o relacionados \u00e0 vigil\u00e2ncia, \u00e0 economia informacional, a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho docente, etc. Como essas quest\u00f5es est\u00e3o presentes na Zona de Cont\u00e1gio, a partir da experi\u00eancia de cada pessoa com o conhecimento, a informa\u00e7\u00e3o e a educa\u00e7\u00e3o nessa situa\u00e7\u00e3o de isolamento?<\/p>\n<p>Outro tema \u00e9 sobre a rela\u00e7\u00e3o das tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o digital com as formas de rastreabilidade, monitoramento, quantifica\u00e7\u00e3o e o que emerge como possibilidade de <em>Big Data<\/em> e governamentalidade algor\u00edtmica. H\u00e1 um enorme campo de perguntas que ganham novos contornos porque, de certa medida, h\u00e1 um desejo, amparado na urg\u00eancia sanit\u00e1ria, de fazer uso de tudo que estiver dispon\u00edvel. Outra entrada \u00e9 no universo do trabalho: como as tecnologias do trabalho remoto introduzem novas possibilidades de vigil\u00e2ncia e controle sobre as atividades do trabalhador?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Alana Moraes: <\/b>retornando aos problemas das plataformas e das media\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas no que tem se chamado de &#8220;educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia&#8221;, o que elas inserem de mais importante s\u00e3o novos sistemas de metrifica\u00e7\u00e3o e controle. Agora, para dar aula, voc\u00ea liga um cron\u00f4metro, muitas vezes voc\u00ea grava a sua aula para deixar para os alunos que n\u00e3o puderem entrar <em>online<\/em> no momento em que voc\u00ea est\u00e1 dando a aula. Voc\u00ea perde uma rela\u00e7\u00e3o muito importante no que diz respeito ao ensino e aprendizagem, que \u00e9 rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a entre professor e aluno dentro daquele espa\u00e7o da sala de aula. As plataformas de EaD est\u00e3o sendo inseridas como se n\u00e3o houvesse outras formas poss\u00edveis, &#8220;temos que nos acostumar, daqui pra frente vai ser assim&#8221;. A partir do momento em que voc\u00ea grava sua aula e ela circula por lugares que voc\u00ea n\u00e3o sabe muito bem, esse pacto, essa confian\u00e7a, que tem a ver com essa experi\u00eancia da sala de aula, ela se perde tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Vemos ainda como o capitalismo da biovigil\u00e2ncia \u00e9 tamb\u00e9m o do biodesempenho e como ele atua produzindo uma certa culpa pelo tempo fora do trabalho. A gente est\u00e1 em casa, mas ao mesmo tempo em que est\u00e1 culpado por n\u00e3o estar trabalhando do jeito que a gente deveria trabalhar. Precisamos dar provas cotidianas de que n\u00e3o estamos &#8220;aproveitando&#8221; o tempo livre.<\/p>\n<p>Eu acho que tem um \u00faltimo aspecto que merece uma reflex\u00e3o nossa, que \u00e9 pensar como habitar em companhia esse problema, que tamb\u00e9m \u00e9 o outro lado da moeda.\u00a0 Existe uma recusa por parte das pessoas que est\u00e3o nesse campo progressista, de modo geral, em debater o problema da tecnologia e os seus usos. Uma recusa da esquerda de entrar nesse debate, como se toda tecnologia fosse uma tecnologia predadora, que fosse sempre piorar as experi\u00eancias de aprendizagem ou intensificar a subjetiva\u00e7\u00e3o neoliberal. Outras vezes a esquerda se interessa por esse debate mas sempre na chave da &#8220;resist\u00eancia&#8221; e conten\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 importante, mas nos deixa sempre muitas casas atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Na verdade, acho que h\u00e1 toda uma quest\u00e3o que \u00e9 como a gente pensa, primeiro, as tecnologias para al\u00e9m das tecnologias digitais, como \u00e9 que a gente recupera as tecnologias menores (ou tecnologias de desacelera\u00e7\u00e3o, tecnologias de encontro, tecnologias de perten\u00e7a), pensar como a gente pode produzir outros tipos de associa\u00e7\u00e3o mais potentes das nossas rela\u00e7\u00f5es, das nossas experi\u00eancias de aprendizagem e pesquisa, dos nossos desejos de revolta se associando tamb\u00e9m \u00e0s formas tecnol\u00f3gicas. Superar essa recusa tamb\u00e9m vai ser importante para a gente construir caminhos mais interessantes, disputar os rumos, fazer funcionar nossa intelig\u00eancia coletiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Henrique Parra:<\/b> para complementar, um outro ponto que talvez seja mais transversal nas discuss\u00f5es sobre vigil\u00e2ncia e que ganha relevo na experi\u00eancia da Zona de Cont\u00e1gio, \u00e9 poder pensar e investigar de que maneira essa situa\u00e7\u00e3o propicia um tipo de experi\u00eancia tecnomediada em que ocorre a produ\u00e7\u00e3o de um modo de subjetiva\u00e7\u00e3o, onde uma certa experi\u00eancia cultural de vigil\u00e2ncia passa a participar de diferentes inst\u00e2ncias da nossa vida.<\/p>\n<p>Basta pensarmos no modo, por exemplo, com que passamos a olhar para o outro como uma poss\u00edvel amea\u00e7a de cont\u00e1gio. Quais s\u00e3o os mecanismos que passo a adotar para me proteger de um poss\u00edvel risco de cont\u00e1gio? Como dentro da casa, na fam\u00edlia, passamos a adotar procedimentos e protocolos que podem gerar mais seguran\u00e7a?<\/p>\n<p>H\u00e1 uma certa ideia de seguran\u00e7a, de rea\u00e7\u00f5es imunit\u00e1rias que colocam em movimento uma cultura de vigil\u00e2ncia, que pode ser economicamente vantajosa e politicamente eficiente para uma certa produ\u00e7\u00e3o de mundo (neoliberal, racista, machista, antropoc\u00eantrico, etc). Quando essas duas dimens\u00f5es se entrela\u00e7am atrav\u00e9s de uma media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que se apresenta como a solu\u00e7\u00e3o neutra, mais \u201ceficiente\u201d e mais desejada, esse dispositivo ganha muita for\u00e7a.<\/p>\n<p>Preocupa a todos n\u00f3s a maneira como a experi\u00eancia de autoconfinamento e do isolamento social nos prepara e educa para uma vida sob estado de s\u00edtio. Acho que essa \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o muito transversal. Como, diante disso, estamos a criar e experimentar outras formas de vida que, orientadas por princ\u00edpios de solidariedade e emancipa\u00e7\u00e3o, criem linhas de fuga da alimenta\u00e7\u00e3o deste regime da domina\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9 muito interessante ver nas redes de consumo de alimentos, por exemplo, como v\u00e3o aparecendo outras iniciativas que criam novas cadeias de distribui\u00e7\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o da agricultura familiar, da produ\u00e7\u00e3o do MST. Como \u00e9 poss\u00edvel fazer isso em outras \u00e1reas de nossas vidas, utilizando tecnologias que n\u00e3o potencializam as formas de controle sobre os usu\u00e1rios?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Fernanda Bruno:<\/b> vou passar para a \u00faltima quest\u00e3o, que tem a ver com o coletivo, com o &#8220;n\u00f3s&#8221;, o habitar junto esse acontecimento, essa situa\u00e7\u00e3o limite, e que \u00e9, de novo, um tema recorrente no trabalho de voc\u00eas dois, e se torna absolutamente urgente em uma situa\u00e7\u00e3o de isolamento, ao mesmo tempo em que h\u00e1 grupos que est\u00e3o extremamente vulner\u00e1veis e onde as possibilidades de a\u00e7\u00e3o comum est\u00e3o bastante amea\u00e7adas pelo fantasma do cont\u00e1gio e pelas medidas efetivas da conten\u00e7\u00e3o da pandemia.<\/p>\n<p>Hoje fiz uma contribui\u00e7\u00e3o no site da Zona de Cont\u00e1gio e vi que j\u00e1 h\u00e1 um material bastante rico. Tem m\u00fasica, poesia, relato, fotografias, e uma s\u00e9rie de express\u00f5es da experi\u00eancia desse tempo. E a conversa sobre o livro da Isabelle Stengers, que rolou na semana passada, sobre o livro <i>No Tempo das Cat\u00e1strofes<\/i>, foi extremamente diversa. O fluxo da conversa\u00e7\u00e3o febril tocou em muitos temas: educa\u00e7\u00e3o, China, autonomia, sab\u00e3o de coco, moradia de albergues, coletivos art\u00edsticos na Bol\u00edvia, receitas, acupuntura, tecnologias sociais, poesia, etc.<\/p>\n<p>Que primeira impress\u00e3o voc\u00eas t\u00eam desses dois movimentos: a chamada de envio de materiais em torno de experi\u00eancia da pandemia e o grupo de estudos? Gostaria de ouvir voc\u00eas sobre o primeiro contorno que\u00a0 esse \u201cn\u00f3s\u201d ou esse coletivo ganhou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Alana Moraes:<\/b> a nossa pergunta inicial, que tem sido uma pergunta que acompanha todo o processo da investiga\u00e7\u00e3o no Laborat\u00f3rio do Comum e tamb\u00e9m agora na Zona de Cont\u00e1gio, \u00e9 como constituir um grupo de pesquisa. Como \u00e9 que a gente faz esse \u201cn\u00f3s\u201d que est\u00e1 pensando junto e que est\u00e1 pesquisando junto. Esse \u00e9 um tema que segue com a gente durante todo o percurso. Obviamente que ele tem um risco, que pode ser a pr\u00f3pria dissolu\u00e7\u00e3o do grupo. O risco justamente \u00e9 esse, de ser t\u00e3o heterog\u00eaneo, t\u00e3o particular e t\u00e3o singular, que se torna incapaz de construir um lugar mais estabilizado.<\/p>\n<p>Pensando um pouco a partir desse desafio sobre que tipo de desenho de pesquisa seria poss\u00edvel, a gente prop\u00f4s um primeiro movimento, que talvez seja um movimento de abertura total que come\u00e7a assumindo o fato de que toda produ\u00e7\u00e3o de pensamento \u00e9 tamb\u00e9m uma produ\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia a partir de corpos sensores. Queremos saber de que forma as pessoas est\u00e3o sendo afetadas por esse acontecimento e como elas elaboraram formas de narrar esse acontecimento, seja em um forma mais po\u00e9tica, uma imagem, um texto, um \u00e1udio&#8230;a gente est\u00e1 experimentando essa abertura completa.<\/p>\n<p>A gente queria entender de onde as pessoas estavam falando e como elas queriam falar, ou seja, talvez tentar experimentar esse parlamento de corpos-sensores, que tamb\u00e9m \u00e9 uma abertura radical. A partir de agora, nos pr\u00f3ximos movimentos do laborat\u00f3rio, o que a gente vai tentar \u00e9 justamente produzir certos contornos, algumas bordas, vamos dizer assim, que s\u00e3o zonas de conflu\u00eancia.<\/p>\n<p>Essas zonas de conflu\u00eancia v\u00e3o tentar desenvolver temas que est\u00e3o dentro dessa pesquisa e que tem a ver com a biovigil\u00e2ncia, com a ideia do desempenho, com esse cruzamento entre tecnologias da domesticidade e as tecnologias digitais em suas in\u00fameras formas de media\u00e7\u00e3o, e tem a ver com esse pano de fundo maior que \u00e9 pensar o que significa isso de biopol\u00edtica e de biopoder na situa\u00e7\u00e3o como essa que a gente est\u00e1 atravessando agora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Henrique Parra:<\/b> acho h\u00e1 um di\u00e1logo entre a experi\u00eancia do site, esse grupo de estudos e algumas iniciativas que foram lan\u00e7adas de maneira relativamente independente. \u00c9 legal ver como a Zona de Cont\u00e1gio vai acontecendo. Acho que a gente tinha algumas a\u00e7\u00f5es organizadas, colocamos elas \u201cna rua\u201d, come\u00e7amos a pratic\u00e1-las e come\u00e7amos a visualizar como elas est\u00e3o acontecendo e como elas podem criar linhas e tramas entre elas.<\/p>\n<p>No pr\u00f3prio site Zona de Cont\u00e1gio, o primeiro movimento que a gente fez foi passar a publicar coisas que nos interessavam, ler e compartilhar com outras pessoas, textos que j\u00e1 estavam em circula\u00e7\u00e3o, textos que servem de inspira\u00e7\u00e3o e que, de alguma maneira, ajudam a nortear um pouco a forma como a gente est\u00e1 querendo habitar esse problema.<\/p>\n<p>A gente tinha tamb\u00e9m uma vontade, que estava organizada para esse semestre, que era fazer um ciclo de estudos, que est\u00e1vamos chamando de ciclo de estudos insurgentes. Com a Zona de Cont\u00e1gio virou um ciclo de conversa\u00e7\u00f5es febris, que a princ\u00edpio poderia correr paralelo ao processo de investiga\u00e7\u00e3o, mas a medida que as coisas acontecem, n\u00f3s repensamos. A gente lan\u00e7a um texto para conversar, mas a coisa que acontece a partir desse texto traz uma outra diversidade de debates, o que faz com que a gente tenha um inflex\u00e3o para ver como vai alinhando e tramando essas coisas. \u00c9 muito a partir do retorno que a gente recebe, que n\u00f3s compreendemos melhor a maneira como a gente est\u00e1 elaborando e e comunicando um problema de pesquisa.\u00a0 O fato de que a gente tenha recebido muitas respostas de pessoas que fizeram uma produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica \u00e9 um dado importante.<\/p>\n<p>A proposta de que um Laborat\u00f3rio do Comum deve ser permeada por um conjunto heterog\u00eaneo de perspectivas \u00e9 outro elemento importante. Claro que quando a gente divulga algo pela internet, isso j\u00e1 exclui um monte de gente. Claro que a maneira como escrevemos um texto faz com que algumas pessoas se sintam mais interpeladas que outras. Ainda assim, parece importante produzir um problema que possa ser transversal e experimentar criar um espa\u00e7o em que pessoas de diferentes perspectivas possam estar juntas.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed surge um outro problema que \u00e9 como a gente constitui um coletivo de investiga\u00e7\u00e3o e como que a gente vai criando protocolos, infraestruturas, acordos, perguntas, que podem dar sustenta\u00e7\u00e3o a uma pr\u00e1tica coletiva. H\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o de um laborat\u00f3rio do Comum, que \u00e9 como que a gente desenvolve essas tecnologias de pertencimento em torno de uma mesma pr\u00e1tica, uma saber-fazer habitar.<\/p>\n<p>Saber qual \u00e9 o conjunto de perguntas e implica\u00e7\u00f5es que atravessam essas diferentes hist\u00f3rias e interesses dessas pessoas, mas que podem, gradualmente, ir ganhando um contorno que tamb\u00e9m nos interessa (\u201cinteresse\u201d como aquilo que diz respeito a \u201cestar entre\u201d. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que a gente n\u00e3o tenha perguntas que organizam isso. Temos e, de alguma forma, elas participam da cria\u00e7\u00e3o dessa borda.<\/p>\n<p>Uma preocupa\u00e7\u00e3o nossa, desde o in\u00edcio, em fazer uma chamada de pesquisa que est\u00e1 acontecendo nessasitua\u00e7\u00e3o de pandemia, em que as pessoas est\u00e3o em isolamento e parte dessa intera\u00e7\u00e3o vai acontecer a partir de uma media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, \u00e9 como a gente evita uma certa pr\u00e1tica de pesquisa tecnicamente mediada, que \u00e9 de ordem extrativista, em que a gente elabora a pergunta, define os problemas e quer saber como as pessoas est\u00e3o dialogando com essa pergunta que a gente tem.<\/p>\n<p>No fundo, a gente tamb\u00e9m est\u00e1 atr\u00e1s da cria\u00e7\u00e3o de outras perguntas, outros problemas para olhar para essa situa\u00e7\u00e3o. Evitar tamb\u00e9m uma pr\u00e1tica de uma pesquisa que desconhece ou n\u00e3o se relaciona com o contexto dessa pessoa que est\u00e1 respondendo tamb\u00e9m nos parece importante. Por isso que um ponto de partida na arquitetura do laborat\u00f3rio e na ideia do corpo-sensor, \u00e9 como criar uma infraestrutura de pertencimento. Isso se tornar uma parte do problema da pesquisa, pensar como a gente vai dando sustenta\u00e7\u00e3o coletiva a uma pr\u00e1tica de investiga\u00e7\u00e3o. A ideia de um Laborat\u00f3rio do Comum funda uma certa comunidade, n\u00e3o no sentido do unit\u00e1rio e homog\u00eaneo mas no sentido de um coletivo de afetados por aquelas mesmas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Fernanda Bruno:<\/b> essa quest\u00e3o do pertencimento me parece essencial. Hoje, dando uma olhada nas contribui\u00e7\u00f5es enviadas ao site, vi algo comum: me pareceu que quase todo mundo desejou expressar algo que era da ordem de uma interrup\u00e7\u00e3o, um intervalo, uma brecha, algo que estava fora das respostas imediatas que esse momento nos exige, seja de trabalho, seja de pensamento articulado ou de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Me pareceu que estavam todos tentando expressar momentos de respiro, de interrup\u00e7\u00e3o de um certo automatismo cotidiano ou de fuga dessa culpa de n\u00e3o estar trabalhando, n\u00e3o estar produzindo. Capacidade de cria\u00e7\u00e3o mesmo. Tudo que apareceu ali, apareceu um pouco como brecha, respiros, inven\u00e7\u00f5es dentro desse contexto que \u00e9 muito asfixiante. Essa foi a minha sensa\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m o meu desejo. N\u00e3o quis enviar nada que fosse, por exemplo, uma reflex\u00e3o intelectual que pudesse ser confundida com trabalho, no sentido mais convencional, mas\u00a0 sim algo que escapasse das demandas que est\u00e3o colocadas, as demandas dos nossos aparatos de trabalho, de sa\u00fade, de poder, de vigil\u00e2ncia. Enfim, a impress\u00e3o foi de um tom recorrente, apesar da heterogeneidade dos materiais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Henrique Parra:<\/b> voltando um pouco nesse coment\u00e1rio que voc\u00ea fez, acho que esse \u00e9 um desafio dessa proposta de laborat\u00f3rio: como a gente vai modulando e incorporando novos elementos. Uma coisa que chamou aten\u00e7\u00e3o no perfil das pessoas que entraram em contato conosco \u00e9 que quase todas est\u00e3o desenvolvendo, de alguma forma, a\u00e7\u00f5es de pesquisa, seja de maneira informal ou n\u00e3o, mas elas est\u00e3o interessadas, est\u00e3o praticando uma forma de reflex\u00e3o sobre o que est\u00e1 sendo vivido.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m surge para n\u00f3s a pergunta sobre de que maneira a Zona de Cont\u00e1gio pode ser tanto uma investiga\u00e7\u00e3o coletiva, a partir de um conjunto de quest\u00f5es que a gente constitui como borda desse percurso mais coletivo de investiga\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma zona de conflu\u00eancia entre essas diferentes iniciativas de pesquisa (informal ou formal) que as pessoas est\u00e3o fazendo.<\/p>\n<p>Estou imaginando como \u00e9 que a Zona de Cont\u00e1gio pode ser as duas coisas: ela cria a possibilidade de realizarmos o percurso coletivo de investiga\u00e7\u00e3o, a partir de perguntas que est\u00e3o balizando e da \u201carquitetura\u201d da forma laborat\u00f3rio, mas ao mesmo tempo ela pode ser atravessada pelas novas perguntas e investiga\u00e7\u00f5es que as pessoas est\u00e3o criando e que podem compartilhar, fazendo da Zona de Cont\u00e1gio uma caixa de reverbera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Fernanda Bruno:<\/b> esse atravessamento me pareceu acontecer mais vigorosamente na conversa em torno do texto da Isabelle Stengers do que na chamada. Na chamada, talvez tenha que haver uma segunda onda, novos movimentos para que essa dimens\u00e3o da pesquisa apare\u00e7a mais. O que senti, muito de fora, foi um desejo de fuga de um certo lugar da pesquisa. N\u00e3o da pesquisa em si, mas de um certo lugar de pesquisa.<\/p>\n<p>As pessoas est\u00e3o querendo habitar um outro lugar nesse momento e alimentar outros fluxos de pensamento, de express\u00e3o, de narrativa etc. \u00c9 fundamental que esse cruzamento com a pesquisa, para usar a imagem da encruzilhada que voc\u00eas utilizam tamb\u00e9m, seja feito. Vai ser muito rico quando isso acontecer e vai acontecer, com certeza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Alana Moraes:<\/b> eu queria agradecer pela conversa. Achei muito importante sua observa\u00e7\u00e3o final desse primeiro material que a gente recebeu na Zona de Cont\u00e1gio. Ela conflui muito para uma coisa que n\u00f3s estamos pensando juntos, que talvez seja justamente sobe pensar essas tecnologias de frenagem ou como a gente produz infraestruturas que possam sustentar coletivamente esses momentos de frenagem, esses momentos de respiro.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos eu tenho estudado com os sem-teto as ocupa\u00e7\u00f5es de terreno tamb\u00e9m como tecnopol\u00edticas de habitar a exce\u00e7\u00e3o. Uma coisa que aparece muito, nessa experi\u00eancia, \u00e9 como as pessoas chegam nos acampamentos, nas periferias aqui de S\u00e3o Paulo, a partir desse relato de cansa\u00e7o e de esgotamento. As pessoas falam muito que a ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 um lugar de descanso, um descanso da casa, da domesticidade, mas um lugar de descanso em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho, \u00e0s vira\u00e7\u00f5es, \u00e0 essa ideia de que voc\u00ea tem que estar sempre trabalhando ou procurando um trabalho. Ela se torna potente justamente porque ela se constitui como uma tecnologia de frenagem, de respirar junto e de pensar em companhia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><b>S\u00e9rie Lavits_Covid19<\/b><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A <strong>Lavits_Covid19: Pandemia, tecnologia e capitalismo de vigil\u00e2ncia<\/strong> \u00e9 um exerc\u00edcio de reflex\u00e3o sobre as respostas tecnol\u00f3gicas, sociais e pol\u00edticas que v\u00eam sendo dadas \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus, com especial aten\u00e7\u00e3o aos processos de controle e vigil\u00e2ncia. Tais respostas levantam problemas que se furtam a sa\u00eddas simples. A s\u00e9rie nos convoca a reinventar ideias, corpos e conex\u00f5es em tempos de pandemia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos primeiros meses de 2020, o Brasil e o mundo foram acometidos pela pandemia do novo coronav\u00edrus. 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