{"id":9502,"date":"2018-08-20T16:56:18","date_gmt":"2018-08-20T19:56:18","guid":{"rendered":"https:\/\/lavits.bemvindo.co\/secretarias-de-educacao-entregam-alunos-de-bandeja-como-clientes-para-gigantes-da-tecnologia\/"},"modified":"2018-08-20T16:56:18","modified_gmt":"2018-08-20T19:56:18","slug":"secretarias-de-educacao-entregam-alunos-de-bandeja-como-clientes-para-gigantes-da-tecnologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lavits.org\/en\/secretarias-de-educacao-entregam-alunos-de-bandeja-como-clientes-para-gigantes-da-tecnologia\/","title":{"rendered":"Secretarias de educa\u00e7\u00e3o entregam alunos de bandeja como clientes para gigantes da tecnologia"},"content":{"rendered":"<p><em>Google vai abocanhando os dados da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica nos estados e munic\u00edpios sem nem mesmo prestar assessoria t\u00e9cnica. Termos de uso tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o adequados \u00e0 realidade brasileira<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como adultos, muitas vezes optamos por dizer sim aos termos de uso de grandes empresas de tecnologia, firmando rela\u00e7\u00f5es contratuais que s\u00e3o expl\u00edcitas e, at\u00e9 certo ponto, t\u00edpicas e tradicionais. Cabe \u00e0s crian\u00e7as que estudam nas escolas p\u00fablicas das redes estaduais tomarem o mesmo tipo de decis\u00e3o sozinhas? Os governos estaduais do Rio Grande do Sul, do Par\u00e1 e de S\u00e3o Paulo parecem achar que sim.<\/p>\n<p>O governo de S\u00e3o Paulo foi um <a href=\"http:\/\/www.educacao.sp.gov.br\/noticias\/parceria-inedita-da-educacao-com-o-google-beneficia-rede-estadual-de-ensino\/\">dos primeiros a firmar um acordo<\/a> com a Google para a inser\u00e7\u00e3o de suas aplica\u00e7\u00f5es educacionais nas escolas p\u00fablicas da rede estadual, em 2013. Em 2015, foi a vez <a href=\"http:\/\/www.educacao.rs.gov.br\/secretaria-da-educacao-firma-parceria-com-o-google-nesta-segunda\">da secretaria de educa\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul<\/a> fazer o mesmo por meio de uma empresa intermedi\u00e1ria, a MSTech. J\u00e1 no ano passado, a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica paraense fechou um grande acordo que orquestra Google, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e uma startup local de tecnologias educacionais, a Inteceleri. H\u00e1 not\u00edcias sobre acordos semelhantes envolvendo o Google e o BID no Amazonas.<\/p>\n<p>Esses acordos abrem as portas das escolas para a entrada dos alunos nas aplica\u00e7\u00f5es Google, com todas as quest\u00f5es de privacidade e uso de dados derivadas. O acesso \u00e9 feito via login institucional no formato [nome do aluno]+[sobrenome]@aluno.educacao.[estado].gov.br. H\u00e1 pequenas varia\u00e7\u00f5es entre os estados e os professores tamb\u00e9m podem receber logins semelhantes.<\/p>\n<p>A secretaria da educa\u00e7\u00e3o paulistana fornece o login automaticamente em seu pr\u00f3prio ambiente digital, criado para alunos e a comunidade escolar, a Secretaria Escolar Digital (SED). Ao se criar um login institucional (de aluno ou professor) para acessar a SED, \u00e9 gerado automaticamente uma conta institucional Google e outra Microsoft, em fun\u00e7\u00e3o do governo de S\u00e3o Paulo ter acordos com as duas empresas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Privacidade fr\u00e1gil<\/h4>\n<p>O sistema tem evidentes vulnerabilidades de seguran\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 preciso ir at\u00e9 nenhuma esquina escura da internet para encontrar manuais \u201cn\u00e3o oficiais\u201d voltados para professores que revelam que <a href=\"http:\/\/www.educacao.sp.gov.br\/noticias\/nova-parceria-da-educacao-com-o-google-traz-beneficios-aos-alunos\/\">a senha do aluno na SED \u00e9 a data de nascimento do estudante<\/a> \u2013 que este pode alterar depois do primeiro login. At\u00e9 o fechamento da reportagem, a Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o respondeu \u00e0s perguntas enviadas sobre o manual e sobre as condi\u00e7\u00f5es de acesso \u00e0s aplica\u00e7\u00f5es Google. As instru\u00e7\u00f5es nada seguras de acesso \u00e0 plataforma continuam dispon\u00edveis a partir de uma busca simples.<\/p>\n<p>No Par\u00e1, a decis\u00e3o de criar uma conta institucional Google n\u00e3o \u00e9 automatizada e as condi\u00e7\u00f5es de acesso s\u00e3o um pouco menos obscuras. Os alunos menores de 18 anos precisam retirar uma c\u00f3pia ou fazer o download de uma autoriza\u00e7\u00e3o para os pais ou respons\u00e1veis assinarem e entregar esse papel na secretaria de sua escola para, ent\u00e3o, sua conta ser criada. No Rio Grande do Sul, por outro lado, a secretaria de educa\u00e7\u00e3o (Seduc) afirma que n\u00e3o h\u00e1 um formul\u00e1rio padr\u00e3o para pedidos de autoriza\u00e7\u00e3o aos pais. H\u00e1 um modelo de autoriza\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel online timbrado com a identidade visual da Seduc direcionado para pais e respons\u00e1veis dos estudantes, mas ele \u00e9 apontado pela assessoria de imprensa como uma iniciativa independente de uma das 29 Coordenadorias Regionais de Educa\u00e7\u00e3o ga\u00fachas.<\/p>\n<p>Entre os alunos e professores das escolas estaduais do RS h\u00e1 146 mil logins institucionais ativos Google. J\u00e1 no Par\u00e1, o n\u00famero \u00e9 de 35.712 contas. O site da Seduc paraense divulga que est\u00e3o sendo \u201cativados\u201d logins institucionais de mais de <a href=\"http:\/\/www.seduc.pa.gov.br\/site\/sedutec\/modal?ptg=8727\">800 mil pessoas<\/a> entre gestores escolares, educadores e alunos da rede p\u00fablica de ensino fundamental e m\u00e9dio estadual para acesso \u00e0s aplica\u00e7\u00f5es Google.<\/p>\n<p>O contrato do BID com a empresa local terceirizada, a Inteceleri, vai at\u00e9 o final de 2018. Por isso, a meta do acordo com a secretaria estadual \u00e9, na verdade, criar contas para 120 mil alunos e professores, assim como capacitar 20 servidores estaduais da \u00e1rea t\u00e9cnica a prestar assessoria. O plano ent\u00e3o \u00e9 encarregar 100 \u201cagentes multiplicadores\u201d de ficarem respons\u00e1veis por atingir mais de 600 mil pessoas a partir de 2019. At\u00e9 l\u00e1, a Inteceleri tamb\u00e9m concentra o servi\u00e7o de atendimento para d\u00favidas e dificuldades t\u00e9cnicas, embora seja apenas uma empresa consultora.<\/p>\n<p>Walter J\u00fanior, s\u00f3cio-diretor da Inteceleri, acredita que o fim do contrato n\u00e3o significa o fim do programa porque \u201ca licen\u00e7a para a plataforma e as aplica\u00e7\u00f5es Google \u00e9 eterna para a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o\u201d. Os logins dos alunos, diz J\u00fanior, tamb\u00e9m seriam \u201ceternos\u201d, com 5TB dispon\u00edveis para cada aluno ou professor para armazenamento volunt\u00e1rio de mensagens, arquivos e contatos nos servidores Google. N\u00e3o h\u00e1, a princ\u00edpio, material did\u00e1tico disponibilizado online que possa ser acessado via login institucional. Fica a cargo dos professores escolherem, se assim desejarem, produzir, selecionar e enviar conte\u00fados a cada uma de suas turmas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Regras espec\u00edficas\u2026 \u00e0s vezes em ingl\u00eas<\/h4>\n<p>A Google empacota suas aplica\u00e7\u00f5es de diversas formas para atender necessidades de gerenciamento de trabalho dos seus clientes organizacionais, sejam eles escrit\u00f3rios (G Suite for Business), institui\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos (G Suite for Nonprofits) ou escolas (G Suite for Education). A sua aplica\u00e7\u00e3o mais caracter\u00edstica para o ensino \u00e9 a Google Classroom (Sala de Aula, em portugu\u00eas) que tem como funcionalidade b\u00e1sica para o professor a montagem de uma sala de aula online na qual \u00e9 poss\u00edvel disponibilizar conte\u00fados, exerc\u00edcios e agendar tarefas. Qualquer usu\u00e1rio Google pode, mesmo sem conta institucional, ter acesso ao Google Classroom. Somente o acesso ao Classroom via G Suite for Education \u00e9 que se encontra restrito por login institucional porque esse <a href=\"https:\/\/tecnoblog.net\/213723\/google-classroom-para-todos\/\">seria um ambiente Google onde os dados dos usu\u00e1rios s\u00e3o tratados por regras um pouco diferentes<\/a> das que regem as contas comuns.<\/p>\n<p>Uma das diferen\u00e7as principais \u00e9 que os dados originalmente gerados ou armazenados a partir do login em conta institucional no G Suite n\u00e3o seriam usados para refinar os an\u00fancios que a Google veicula para aquele usu\u00e1rio em particular. As aplica\u00e7\u00f5es da empresa acessadas a partir dessas contas espec\u00edficas teriam ambientes online livres de propaganda. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o significa que as informa\u00e7\u00f5es dos usu\u00e1rios n\u00e3o sejam coletadas e processadas pela empresa em suas an\u00e1lises de intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Outra diferen\u00e7a, pelo menos no caso das contas dos alunos da rede estadual paulista, \u00e9 que o administrador do dom\u00ednio \u2013 a Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o do Estado de S\u00e3o Paulo \u2013 \u201ctem acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es da sua conta, incluindo os dados que voc\u00ea armazenar com essa conta nos servi\u00e7os Google\u201d. Em uma das poucas p\u00e1ginas sobre privacidade e prote\u00e7\u00e3o de dados dispon\u00edveis em portugu\u00eas <a href=\"https:\/\/edu.google.com\/intl\/pt-BR\/k-12-solutions\/privacy-security\/?modal_active=none\">o site da empresa<\/a> diz especificamente: \u201cpara os usu\u00e1rios do G Suite em escolas dos ensinos fundamental e m\u00e9dio, o Google n\u00e3o usa informa\u00e7\u00f5es pessoais, ou informa\u00e7\u00f5es associadas a uma Conta do Google, para segmentar an\u00fancios.\u201d<\/p>\n<p>Os termos do G Suite for Education para os usu\u00e1rios com logins de institui\u00e7\u00f5es de ensino em geral, segundo Leonardo Ribeiro da Cruz, professor da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA) e pesquisador da Lavits, seriam melhores do que os termos que regem os logins comuns da Google. Isso porque atendem \u00e0s exig\u00eancias e garantias presentes nas leis e acordos de prote\u00e7\u00e3o aos estudantes dos Estados Unidos, em especial o Student Privacy Pledge . Os termos do G Suite for Education foram atualizados recentemente com emendas que contemplam a lei europeia de prote\u00e7\u00e3o de dados (GDPR, na sigla em ingl\u00eas). Um pedido de consentimento \u00e0 parte, espec\u00edfico para esses itens complementares emendados aos termos originais, \u00e9 recolhido online junto aos usu\u00e1rios que j\u00e1 utilizavam a plataforma desde antes da vig\u00eancia da GDPR.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table border=\"10\" width=\"150\" cellspacing=\"10\" cellpadding=\"10\">\n<tbody>\n<tr>\n<td colspan=\"3\"><span style=\"font-size: 14px;\"><b>\u00a0G Suite teve in\u00edcio ainda nos anos 2000<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px; line-height: inherit;\">\u00a0O G Suite, anteriormente chamado \u201cGoogle Apps for Your Domain\u201d, foi lan\u00e7ado em 2006. A Student Privacy Pledge foi lan\u00e7ada e assinada pela Google apenas em janeiro 2015, como uma campanha na qual os signat\u00e1rios deveriam se comprometer publicamente a cumprir certas regras ao lidar com dados de estudantes dos Estados Unidos. A carta expressa um compromisso p\u00fablico dos signat\u00e1rios em n\u00e3o expor os dados dos estudantes a tratamentos n\u00e3o autorizados pelas escolas e pais\/respons\u00e1veis, que excedam os prop\u00f3sitos escolares ou educacionais. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px; line-height: inherit;\">Em dezembro de 2015, a institui\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos Eletronic Frontier Foundation (EFF) <a href=\"https:\/\/www.eff.org\/press\/releases\/google-deceptively-tracks-students-internet-browsing-eff-says-complaint-federal-trade\">registrou queixa<\/a> de que a Google estaria desrespeitando a SPP, porque as configura\u00e7\u00f5es administrativas que a empresa fornece para as escolas inclu\u00edam a permiss\u00e3o para a troca de informa\u00e7\u00f5es dos estudantes com sites de terceiros. Ainda que a empresa esteja sujeita \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de outras regula\u00e7\u00f5es nos EUA, como a Family Educational Rights and Privacy Act (FERPA), a Google j\u00e1 se mostrou disposta em outras ocasi\u00f5es a desdenhar aquilo que os usu\u00e1rios tem em vista quando se valem de suas aplica\u00e7\u00f5es, mesmo quando essas inten\u00e7\u00f5es s\u00e3o expl\u00edcitas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px; line-height: inherit;\">Por exemplo: a pesquisadora de Harvard Shoshana Zuboff destaca a mudan\u00e7a hist\u00f3rica na metodologia das opera\u00e7\u00f5es da Google que se deu entre 2001 e 2004, registrada na patente do servi\u00e7o de busca da empresa. \u201cA grande novidade dessa metodologia era que eles estavam habilitados a acessar dados comportamentais independentemente das inten\u00e7\u00f5es dos usu\u00e1rios, e mesmo quando essas inten\u00e7\u00f5es dos usu\u00e1rios eram explicitadas. Desde ent\u00e3o esses dados adicionais de centenas de milh\u00f5es de usu\u00e1rios estariam sendo usados para analisar e definir padr\u00f5es preditivos. (&#8230;)Esses m\u00e9todos foram inventados e ent\u00e3o primeiramente empregados de 2001 a 2004. Foi s\u00f3 a partir da oferta p\u00fablica da Google, em 2004, que o mundo come\u00e7ou a ficar a par do que estava acontecendo.\u201d (tradu\u00e7\u00e3o minha). O sucesso dessa investida, para Zuboff, dependeria de fatores espec\u00edficos, entre eles a possibilidade de ela ser realizada em um territ\u00f3rio desregulado. A pesquisadora investiga a concentra\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os atuais da Google em desenvolver \u201cprodutos preditivos desenhados para prever e moldar comportamentos agora, em breve, mais para frente&#8221;. Ao usarem os seus servi\u00e7os, as pessoas geram dados comportamentais que a Google troca \u201ccom outras empresas, clientes que aprenderam a fazer dinheiro com apostas de baixo risco em futuros comportamentos dos usu\u00e1rios\u201d.\u00a0 <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px; line-height: inherit;\">Mesmo que seja controverso o potencial da empresa em realizar sua declarada pretens\u00e3o de conhecer seus usu\u00e1rios melhor do que eles conhecem a si mesmos, a opera\u00e7\u00e3o da Google seria em fun\u00e7\u00e3o disso caracterizada por desestabilizar princ\u00edpios como o do consentimento expl\u00edcito e (previamente) informado. Como efeito, os riscos imiscu\u00eddos nos contratos ou termos de uso firmados entre a Google e o usu\u00e1rio das suas aplica\u00e7\u00f5es ficariam todos a cargo de apenas uma das partes, ou seja, a empresa estaria vantajosamente se isentando de sofrer qualquer percal\u00e7o nessa rela\u00e7\u00e3o.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0 <\/span><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>No Par\u00e1, a autoriza\u00e7\u00e3o entregue aos pais dos alunos \u00e9 muito semelhante aos termos de uso comuns e tem nove links para sites com conte\u00fado em ingl\u00eas. Al\u00e9m disso, est\u00e1 presente repetidamente o termo \u201cK-12\u201d, usado nos EUA para se referir ao ensino prim\u00e1rio e secund\u00e1rio. Essa \u00e9 uma denomina\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m se usa na Austr\u00e1lia e no Canad\u00e1, mas estranha aqui no Brasil. Rafael Zanatta (USP), pesquisador da Lavits, destaca que nos EUA h\u00e1 uma lei federal e leis estaduais que definem regras para privacidade dos estudantes que devem incidir sobre os termos do G Suite for Education em territ\u00f3rio americano. \u201cIsso ainda n\u00e3o \u00e9 nem uma quest\u00e3o aqui, pois o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente foi criado em 1990 e n\u00e3o prev\u00ea regras para prote\u00e7\u00e3o de dados pessoais\u201d, diz Zanatta. O projeto de lei de prote\u00e7\u00e3o de dados, que foi aprovado recentemente, possui <a href=\"https:\/\/politica.estadao.com.br\/blogs\/fausto-macedo\/hora-da-decisao-qual-lei-de-protecao-de-dados-entregaremos-as-criancas-brasileiras\/\">artigo espec\u00edfico<\/a> sobre informa\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Informa\u00e7\u00f5es vendidas a terceiros<\/h4>\n<p>Zanatta ressalta fato de que, mesmo que a autoriza\u00e7\u00e3o recolhida dos pais ou respons\u00e1veis seja baseada em um referente legal dos EUA, isso n\u00e3o anula sua validade como contrato. Em tese, a rela\u00e7\u00e3o entre a comunidade escolar \u2013 pais, alunos, professores e pais \u2013 continua a mesma, com os pais confiando ao professor a sele\u00e7\u00e3o e disponibiliza\u00e7\u00e3o de conte\u00fados educativos, dentro do planejamento mais abrangente da pol\u00edtica governamental para a educa\u00e7\u00e3o. Na pr\u00e1tica, a pr\u00f3pria autoriza\u00e7\u00e3o entregue aos pais e respons\u00e1veis dos alunos da rede de ensino p\u00fablica paraense deixa expl\u00edcito que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cCom o consentimento dos pais ou respons\u00e1veis. O Google ir\u00e1 compartilhar informa\u00e7\u00f5es pessoais com empresas, organiza\u00e7\u00f5es ou indiv\u00edduos fora do Google quando tiver o consentimento dos pais (para usu\u00e1rios abaixo da idade de consentimento), que podem ser obtidos atrav\u00e9s das escolas do G Suite for Education.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>A lista do que a Google descreve como \u201cinforma\u00e7\u00f5es pessoais\u201d \u00e9 longa e inclui desde a foto do perfil que o aluno eventualmente pode vincular \u00e0 sua conta at\u00e9 dados como identifica\u00e7\u00e3o do dispositivo que ele usa para fazer o login, localiza\u00e7\u00e3o via GPS, caracter\u00edsticas da conex\u00e3o com a internet, etc. N\u00e3o menos importante, o texto do documento tamb\u00e9m cita como \u201cinforma\u00e7\u00f5es pessoais\u201d, que est\u00e3o sujeitas a irem parar na m\u00e3o de terceiros se a Google assim decidir (sem dizer quais terceiros seriam), os detalhes sobre o modo como o aluno utiliza as aplica\u00e7\u00f5es. Isso incluiria o tempo que ele demora para fazer uma determinada tarefa online passada pelo professor, por exemplo, e a pr\u00f3pria avalia\u00e7\u00e3o recebida pelo seu desempenho calculada por gabarito ou atribu\u00edda pelo educador.<\/p>\n<p>\u00c9 razo\u00e1vel afirmar que isso tamb\u00e9m \u00e9 valido para os professores, ou seja, a plataforma tamb\u00e9m pode se valer de informa\u00e7\u00f5es sobre os planos de aula elaborados pelos docentes e o modo como eles corrigem as atividades dos alunos online, respondem d\u00favidas ou se relacionam com a dire\u00e7\u00e3o da escola por email, entre muitas outras coisas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Dom\u00ednio do mercado e falsa moderniza\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>\u201cA princ\u00edpio, existe o problema da hegemoniza\u00e7\u00e3o do uso de uma tecnologia propriet\u00e1ria em sala de aula, principalmente essa, criada por uma empresa que se financia atrav\u00e9s de dados e tamb\u00e9m pelo uso cont\u00ednuo de sua pr\u00f3pria plataforma\u201d, ressalta Leonardo.<\/p>\n<p>As aplica\u00e7\u00f5es Google para a educa\u00e7\u00e3o possuem <a href=\"http:\/\/www.cbc.ca\/radio\/spark\/as-google-for-education-tools-enter-classrooms-across-canada-some-parents-are-asking-to-opt-out-1.4694939\">60 milh\u00f5es<\/a> de usu\u00e1rios, entre alunos e professores, pelo mundo. No Brasil, segundo a empresa, <a href=\"https:\/\/www.thinkwithgoogle.com\/intl\/pt-br\/advertising-channels\/aplicativos\/google-compromisso-om-educacao-crescimento-pais\/\">s\u00e3o 26 milh\u00f5es<\/a>. A assessoria de imprensa da Google se recusou a responder as perguntas enviadas sobre contratos vigentes e seus planos de neg\u00f3cio envolvendo a educa\u00e7\u00e3o brasileira. Para Leonardo, as informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis para que a comunidade escolar da rede estadual paraense possa tomar decis\u00e3o sobre fazer ou n\u00e3o parte disso s\u00e3o muito fracas. A autoriza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m destaca que os dados dos alunos da rede p\u00fablica que s\u00e3o menores de idade n\u00e3o seriam usados para segmentar publicidade. No entanto, n\u00e3o diz quais os tipos de opera\u00e7\u00f5es a Google est\u00e1 fazendo a partir desses mesmos dados, al\u00e9m de pedir permiss\u00e3o para recolher e entregar ou vender informa\u00e7\u00f5es para terceiros.<\/p>\n<p>A assessoria de imprensa da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo fez quest\u00e3o, por exemplo, de ressaltar que as informa\u00e7\u00f5es da plataforma pr\u00f3pria do governo voltada para a comunidade escolar n\u00e3o compartilha os dados da SED com a Google. Al\u00e9m disso, afirma que o acesso \u00e0s contas (da SED, da Microsoft, da Google) \u00e9 \u201copcional\u201d tanto para alunos, quanto para professores e gestores de escolas p\u00fablicas. A Secretaria n\u00e3o informou quantos alunos das escolas estaduais paulistanas possuem atualmente contas Google.<\/p>\n<p>A plataforma seria, portanto, algo que os alunos paulistas, com seus logins institucionais, usariam em casa para atividades de ensino complementares \u00e0quelas realizadas na escola. Os tutoriais disponibilizados ensinam a usar as aplica\u00e7\u00f5es Google no celular, ou seja, em um dispositivo pessoal do aluno. H\u00e1 incentivos e tutoriais da Google, por exemplo, para que alunos tamb\u00e9m se tornem \u201ctutores\u201d com a incumb\u00eancia de levar outros alunos e mesmo seus professores a usarem as aplica\u00e7\u00f5es da empresa.<\/p>\n<p>Vale lembrar que o Gmail, que faz as vezes de sala de entrada para as aplica\u00e7\u00f5es Google, j\u00e1 foi at\u00e9 mesmo noticiado como um servi\u00e7o de email no qual a empresa <a href=\"https:\/\/tecnologia.uol.com.br\/noticias\/reuters\/2017\/03\/16\/juiza-dos-eua-rejeita-acordo-do-google-sobre-varredura-de-emails.htm\">n\u00e3o s\u00f3 vasculha o conte\u00fado das mensagens<\/a> como tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/www.wsj.com\/articles\/techs-dirty-secret-the-app-developers-sifting-through-your-gmail-1530544442?\">permite que terceiros o fa\u00e7am<\/a>. Leonardo, da Lavits, destaca o modo como a Google est\u00e1 concentrando cada vez mais dados da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica brasileira como um todo. \u201cAcaba sendo a \u2018\u00fanica forma\u2019 de moderniza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica nas escolas p\u00fablicas\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Mapa das escolas em m\u00e3os privadas<\/h4>\n<p>Leonardo aponta ainda que um das consequ\u00eancias \u00e9 a \u201ccentraliza\u00e7\u00e3o dos registros escolares dos alunos, como notas, evolu\u00e7\u00e3o nas disciplinas, facilidades e dificuldades, at\u00e9 quanto tempo eles gastam para resolver uma tarefa. Quem vai ter acesso a esses dados? Para que ser\u00e3o utilizados? A Google, uma empresa que trabalha com coleta de dados, vai monopolizar os registros educacionais de todos os alunos dos estados que t\u00eam esse acordo com ela\u201d.<\/p>\n<p>Nos munic\u00edpios, por sua vez, a empresa t\u00eam investido mais ostensivamente com a inser\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas de aplica\u00e7\u00f5es, mas de dispositivos Chromebooks (o notebook da Google) na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. H\u00e1 registros de alunos de <a href=\"https:\/\/mestra.org\/escola-municipal-professor-geraldo-apparecido-rocha\/\">Cordeir\u00f3polis<\/a> (SP) e <a href=\"http:\/\/www.mogidascruzes.sp.gov.br\/noticia\/escolas-municipais-receberam-12-mil-novos-equipamentos-de-informatica-nesta-quinta-feira\">Mogi das Cruzes<\/a> (SP) entre os que foram introduzidos nas tecnologias Google dessa forma.<\/p>\n<p>As regras para tratamento de dados da comunidade escolar do ensino p\u00fablico contida nas autoriza\u00e7\u00f5es e mesmo nas regula\u00e7\u00f5es vigentes, para Leonardo, s\u00e3o insuficientes. \u201cTamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o de privacidade na pr\u00e1tica, n\u00e3o s\u00f3 de esperar uma prote\u00e7\u00e3o formal. \u00c9 preciso criar espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o para que a crian\u00e7a comece a entender o que \u00e9 a Google, o que s\u00e3o dados pessoais, o que s\u00e3o os metadados, como funciona o mercado de dados etc. \u00c9 uma cadeia de gente \u2013 professores, administradores, alunos e pais de alunos \u2013 que precisa estar muito bem informada e saber o que est\u00e1 acontecendo\u201d.<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>Ver: ZUBOFF, Shoshana. Secrets of Surveillance Capitalism. Confer\u00eancia apresentada na Queen\u2019s University. Kingston, Canad\u00e1, Novembro de 2017. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/stream.queensu.ca\/Watch\/a7ZBk45D\">https:\/\/stream.queensu.ca\/Watch\/a7ZBk45D&gt;<\/a> Acesso em: 30 de jul. de 2018.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Google vai abocanhando os dados da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica nos estados e munic\u00edpios sem nem mesmo prestar assessoria t\u00e9cnica. 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