{"id":9526,"date":"2018-07-09T15:38:42","date_gmt":"2018-07-09T18:38:42","guid":{"rendered":"https:\/\/lavits.bemvindo.co\/artigo-a-uberizacao-da-uber\/"},"modified":"2018-07-09T15:38:42","modified_gmt":"2018-07-09T18:38:42","slug":"artigo-a-uberizacao-da-uber","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lavits.org\/en\/artigo-a-uberizacao-da-uber\/","title":{"rendered":"A uberiza\u00e7\u00e3o da Uber"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Rodrigo Firmino e Bruno Cardoso*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniele era motorista profissional, contratada por Michel para servir sua fam\u00edlia. Seu trabalho seguia todas as regras trabalhistas, como jornada de oito horas di\u00e1rias e registro em carteira. Entretanto, nas horas em que estava a trabalho e sem atividades espec\u00edficas com a fam\u00edlia de Michel, Daniele era obrigada a realizar corridas como motorista de Uber\u2026<!--more--><\/p>\n<p>Desde a d\u00e9cada de 1980, a crise que assola o mundo do trabalho e a sociedade salarial vem sendo documentada e pensada pelo trabalho acad\u00eamico e amplamente debatida nas arenas pol\u00edticas dos mais diversos pa\u00edses. Essa crise implica o abalo do modelo que prevaleceu em parte consider\u00e1vel do s\u00e9culo XX, caracterizado pelo predom\u00ednio do emprego formal, pela for\u00e7a da representa\u00e7\u00e3o sindical e pelas negocia\u00e7\u00f5es setoriais, al\u00e9m da associa\u00e7\u00e3o entre a identidade dos cidad\u00e3os e sua ocupa\u00e7\u00e3o profissional e um perfil de g\u00eanero majoritariamente masculino. Muitas dessas transforma\u00e7\u00f5es se consolidaram ou se radicalizaram com a populariza\u00e7\u00e3o e a conex\u00e3o constante de dispositivos comunicacionais digitais e a internet, assunto que vem sendo tratado de forma exaustiva pela sociologia.1 Como efeitos, temos ao mesmo tempo o lento fim dos empregos e o esvaecimento das fronteiras entre o trabalho e o n\u00e3o trabalho. Al\u00e9m disso, os dispositivos tecnol\u00f3gicos e a rede v\u00eam propiciando o surgimento de novos modelos de trabalho e de explora\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, entre os quais nos interessa aqui diretamente o da sharing economy.<\/p>\n<p>Tendo como protagonistas empresas que rapidamente se tornaram gigantes do ramo, como Airbnb e Uber, o fen\u00f4meno se espalha para v\u00e1rios tipos de servi\u00e7o, acompanhados pela grande quantidade de empresas que apostam no que ficou conhecido como uberiza\u00e7\u00e3o. Esse fen\u00f4meno \u00e9 marcado, entre outras coisas, pela precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, j\u00e1 que as empresas se apresentam apenas como fornecedoras da tecnologia de intermedia\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, n\u00e3o assumindo com isso nenhuma responsabilidade trabalhista em rela\u00e7\u00e3o a seus usu\u00e1rios-parceiros. Exemplos s\u00e3o os mais variados e assustadores, como o caso da prefeitura de Ribeir\u00e3o Preto (SP), que chegou a elaborar um projeto, popularmente conhecido como professor Uber, para a contrata\u00e7\u00e3o de aulas avulsas para a rede municipal de educa\u00e7\u00e3o.2 Se para a Uber a consequ\u00eancia mais imediata parece ser a precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho e a extin\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo formal, no caso do Airbnb os impactos se sentem mais, para al\u00e9m do setor hoteleiro, no processo de gentrifica\u00e7\u00e3o das vizinhan\u00e7as e da expuls\u00e3o dos locat\u00e1rios tradicionais, com contratos longos e valores (bem menores) mensais, e n\u00e3o di\u00e1rios. Ambos, Airbnb e Uber, colaboram para a produ\u00e7\u00e3o da cidade contempor\u00e2nea, bastante diferente das cidades que viram o encerramento do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>A rapidez da dissemina\u00e7\u00e3o e o impacto da economia colaborativa n\u00e3o podem ser explicados apenas em raz\u00e3o do encolhimento do mercado de trabalho formal e da precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, nem por conta do desenvolvimento e populariza\u00e7\u00e3o dos dispositivos tecnol\u00f3gicos conectados pela internet. O modelo Uber-Airbnb obteve sucesso, diante de v\u00e1rias tentativas diferentes de start-ups na fervilhante economia dos aplicativos, tamb\u00e9m por ter \u201cafinidade eletiva\u201d, como diria Max Weber, com aquilo que \u00e9 chamado de self empreendedor,3 caracter\u00edstico da racionalidade neoliberal4 contempor\u00e2nea e dos modos de subjetiva\u00e7\u00e3o que a produzem. Em outras palavras, trata-se da sedu\u00e7\u00e3o do empreendedorismo, da autoconcep\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos como \u201cempresas de si\u201d, constitu\u00eddas primordialmente por capital humano e concorrendo com in\u00fameros outros indiv\u00edduos-empresa pela presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os ou por oportunidades de mercado. De propriet\u00e1rios imobili\u00e1rios com v\u00e1rios im\u00f3veis no Airbnb a motoristas de Uber que trabalham at\u00e9 catorze horas por dia, seja como forma de aumentar seu capital econ\u00f4mico ou de sobreviver em um contexto de crise e queda nos \u00edndices de vagas de trabalho formal e de encolhimento do valor real do sal\u00e1rio m\u00ednimo, cada vez mais pessoas se envolvem com o modelo da sharing economy.<\/p>\n<p><strong>Dani e o \u201ccomandante\u201d: a precariza\u00e7\u00e3o da liberdade<\/strong><\/p>\n<p>A uberiza\u00e7\u00e3o ganha contornos curiosos a cada dia, mas recentemente presenciamos o que parece ser uma tentativa de elevar ao m\u00e1ximo o aproveitamento desse tipo de precariza\u00e7\u00e3o do ponto de vista da explora\u00e7\u00e3o do trabalho. Os detalhes do esquema impressionam pela engenhosidade das rela\u00e7\u00f5es propostas para maximizar a explora\u00e7\u00e3o das horas contratadas de um trabalhador, a ponto de o contratado realizar atividades adicionais em suas horas de trabalho para, indiretamente, pagar por seu pr\u00f3prio sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um encontro da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigil\u00e2ncia, Tecnologia e Sociedade (Lavits), em S\u00e3o Paulo, tomamos um UberX conduzido por uma jovem motorista chamada Daniele,5 muito simp\u00e1tica e alegre. Daniele seguia o caminho sugerido pelo aplicativo e conduzia com efici\u00eancia. Animados com as possibilidades de novos projetos de pesquisa sobre vigil\u00e2ncia da Lavits, convers\u00e1vamos sobre Big Data e as possibilidades de uso da coleta e manipula\u00e7\u00e3o de dados por governos, empresas e cidad\u00e3os. Debat\u00edamos projetos para, por exemplo, modificar a precifica\u00e7\u00e3o de ap\u00f3lices de seguro baseada na an\u00e1lise de dados individualizados e em tempo real de clientes, personificando de maneiras cada vez mais precisas os c\u00e1lculos de risco.<\/p>\n<p>Daniele manipulava seu celular enquanto conduzia, recebendo e respondendo mensagens de um interlocutor chamado \u201ccomandante\u201d, mas parecia atenta \u00e0 nossa conversa. Foi quando nos ocorreu envolv\u00ea-la na discuss\u00e3o, questionando-a sobre as condi\u00e7\u00f5es do seguro de seu ve\u00edculo pelo fato de us\u00e1-lo como instrumento de trabalho informal. Daniele respondeu dizendo que no seguro n\u00e3o havia informa\u00e7\u00f5es sobre o uso da Uber, mas disse que o ve\u00edculo, na verdade, pertencia a outra pessoa, seu \u201cchefe\u201d. Esse fato n\u00e3o passou despercebido, e quer\u00edamos saber mais sobre o que parecia ser um exemplo de terceiriza\u00e7\u00e3o de frota Uber, o que n\u00e3o seria o primeiro caso.<\/p>\n<p>No entanto, est\u00e1vamos equivocados. Daniele era motorista profissional, contratada por Michel para servir sua fam\u00edlia. Seu trabalho seguia todas as regras trabalhistas, como jornada de oito horas di\u00e1rias e registro em carteira. Entretanto, nas horas em que estava a trabalho e sem atividades espec\u00edficas com a fam\u00edlia de Michel, Daniele era obrigada a realizar corridas como motorista Uber, com as seguintes condi\u00e7\u00f5es: todo valor repassado pela Uber iria diretamente para a conta do chefe; o e-mail cadastrado no servi\u00e7o era o de Michel, que monitorava valores e trajetos conforme estes aconteciam; em caso de acidentes, a responsabilidade recairia sobre Daniele; celular e ve\u00edculo eram de propriedade de Michel; e n\u00e3o havia a possibilidade de trabalhar sem aceitar essas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Muito constrangidos e preocupados, come\u00e7amos a fazer cada vez mais perguntas e a tecer coment\u00e1rios, sugerindo cuidados e o registro de todo o processo em caso de problemas futuros com a justi\u00e7a trabalhista. Daniele ent\u00e3o nos revelou outro detalhe assustador: o \u201ccomandante\u201d com quem ela trocara mensagens pouco antes era o pr\u00f3prio Michel, que reclamava da quantidade pequena e do pre\u00e7o baixo das corridas. Afinal, ele recebia relatos de todas as corridas em tempo real. J\u00e1 nos preocup\u00e1vamos se nossas conversas tamb\u00e9m n\u00e3o estariam sendo monitoradas pelo \u201ccomandante\u201d. Daniele se sentia pressionada e tinha de cumprir todos os requisitos, pois, como ela pr\u00f3pria disse, \u201cdesse jeito sou eu que pago meu pr\u00f3prio sal\u00e1rio\u201d. A lucidez de sua an\u00e1lise ressaltava que o pagamento que recebia era composto por parte do que ela mesma arrecadava com o servi\u00e7o de Uber durante sua jornada de trabalho, desempenhando uma fun\u00e7\u00e3o que se desviava de sua atividade-fim \u2013 conduzir a fam\u00edlia de Michel ao shopping, \u00e0 escola, ao clube etc.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o se revelou complexa, astuta e eticamente question\u00e1vel, de uma trabalhadora \u201csemiprecarizada\u201d, em uma situa\u00e7\u00e3o constru\u00edda sobre ambiguidades, por um patr\u00e3o que se identificava no celular como \u201ccomandante\u201d. Tratava-se de uma maximiza\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o de sua for\u00e7a de trabalho. Era curioso e surpreendente que, numa atividade t\u00e3o caracter\u00edstica da sharing economy e do self empreendedor, os velhos conceitos de mais-valia e de propriedade dos \u201cmeios de produ\u00e7\u00e3o\u201d pudessem fazer tanto sentido.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria ganhou contornos de ass\u00e9dio moral quando Daniele relatou ter pedido para ser bloqueada pela pr\u00f3pria Uber. Bloqueios de usu\u00e1rios\/parceiros da Uber s\u00e3o comuns em casos de desobedi\u00eancia das regras de uso do servi\u00e7o, mas nunca ou raramente a pedido do pr\u00f3prio usu\u00e1rio\/parceiro. Isso mostra uma tentativa de Daniele de se desvencilhar da atividade adicional sem perder o emprego. Funcionou por alguns dias, apesar dos pedidos insistentes do \u201ccomandante\u201d para que ela resolvesse a situa\u00e7\u00e3o junto \u00e0 Uber. A press\u00e3o se dava por meio de constantes coment\u00e1rios de que ele n\u00e3o conseguiria manter a motorista e que seria \u201cobrigado a demiti-la\u201d. Impaciente, ele mesmo criou uma nova conta para Daniele, que precisou voltar a fazer as corridas, j\u00e1 que dependia do dinheiro para se manter. Ela contou que, no auge da press\u00e3o, foi no escrit\u00f3rio da Uber e explicou a hist\u00f3ria, sendo informada de que aquela situa\u00e7\u00e3o era irregular e que n\u00e3o seria poss\u00edvel reativar sua conta. J\u00e1 buscando abandonar definitivamente essa situa\u00e7\u00e3o de \u201cuberiza\u00e7\u00e3o da Uber\u201d, Daniele contou que estava completando um curso para motorista de \u00f4nibus e que j\u00e1 tinha trabalhado como motorista de van escolar, fun\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se importaria de desempenhar novamente.<\/p>\n<p>Pouco antes de nos deixar em nosso destino, ainda houve tempo de sabermos outra faceta do caso: Daniele mencionou haver outra motorista trabalhando para a fam\u00edlia nas mesmas circunst\u00e2ncias. Chamou-nos a aten\u00e7\u00e3o o fato de serem ambas motoristas mulheres, o que foi justificado por Daniele como ci\u00fame do \u201ccomandante\u201d pelo fato de as motoristas estarem \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de sua esposa. Para al\u00e9m do ci\u00fame da esposa, outros atravessamentos por rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero (e poder) podem ser percebidos nessa situa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o \u201ccomandante\u201d parecia inspirar medo em sua motorista e alimentava a rela\u00e7\u00e3o patronal com constantes amea\u00e7as, certamente aproveitando-se do fato de sua funcion\u00e1ria ser mulher. A raz\u00e3o de empregar apenas mulheres possivelmente o fazia exercer outras formas de domina\u00e7\u00e3o e poder mais ou menos sutis e j\u00e1 extensamente pensadas e apontadas como caracter\u00edsticas das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero no mundo do trabalho.<\/p>\n<p>Antes que deix\u00e1ssemos Daniele e ela se fosse com outro passageiro, perguntamos se ela gostaria que a avali\u00e1ssemos com a nota m\u00e1xima (cinco estrelas) ou se preferia uma nota baixa, para ser bloqueada novamente pelo aplicativo. \u201cNota alta, n\u00e9, porque a gente tem nosso orgulho.\u201d A nota que demos, cinco estrelas, n\u00e3o era de forma alguma injusta. Longe disso, a viagem acabou sendo perturbadoramente agrad\u00e1vel, apesar da hist\u00f3ria de precariza\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada, muito pela simpatia e abertura da pr\u00f3pria Daniele, duplamente uberizada e sob vigil\u00e2ncia de seu \u201ccomandante\u201d.<\/p>\n<p><strong>Uberiza\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>O caso de Daniele nos mostra aspectos sombrios daquilo que vem sendo chamado de sharing economy. No lugar da maior liberdade e autonomia prometidas pelas formas de empreendedorismo criativo, o que pudemos ver foi um trabalho ainda mais intenso, controlado e hierarquizado. Se \u00e9 verdade que o modelo de trabalho que constituiu o capitalismo industrial fordista vem se enfraquecendo desde a d\u00e9cada de 1980, pelo menos n\u00e3o foi para nos dirigirmos a um mundo no qual o pr\u00f3prio trabalho e sua import\u00e2ncia na constitui\u00e7\u00e3o disciplinar da sociologia perderiam a cada dia mais sua centralidade.6 De modo quase oposto, o trabalho vai se tornando onipresente, distribu\u00eddo por dispositivos tecnol\u00f3gicos que nos acompanham a todo momento, nos alertam, nos conectam, nos rastreiam e, at\u00e9 certo ponto, nos aprisionam na mais plena mobilidade.<\/p>\n<p>O \u201ccomandante\u201d, sem d\u00favida, foi empreendedor ao ter a ideia de colocar suas duas funcion\u00e1rias para trabalhar, nas \u201choras vagas de trabalho\u201d como motoristas de sua fam\u00edlia, tamb\u00e9m como motoristas potenciais de qualquer usu\u00e1rio da Uber em S\u00e3o Paulo. Ao ter a ideia de transformar seu ve\u00edculo particular em meio de produ\u00e7\u00e3o e, por meio de um contrato formal amb\u00edguo, apropriar-se da mais-valia produzida por suas duas trabalhadoras, o \u201ccomandante\u201d n\u00e3o faz algo muito diferente daquilo que Marx observou na aurora do capitalismo industrial, ainda no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendemos com isso afirmar que a economia compartilhada e suas varia\u00e7\u00f5es de capitalismo criativo empreendedor possam ser reduzidas ao caso que apresentamos, ou mesmo que este seja significativo das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais que emergem da sharing economy e a sustentam. Muito menos defendemos que a perspectiva marxista, elaborada 150 anos antes do surgimento de empresas como Uber e Airbnb e do modelo econ\u00f4mico que proporcionam, seja a principal chave de explica\u00e7\u00e3o para as transforma\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas do mundo do trabalho. Contudo, ao destacarmos as especificidades desse caso, levando em considera\u00e7\u00e3o o contexto pol\u00edtico do Brasil do p\u00f3s-golpe de 2016 e o avan\u00e7o das pol\u00edticas neoliberais de desregulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o pensarmos nas crescentes possibilidades de radicaliza\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o capitalista e da precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho. Gradualmente, um pouco sem sentirmos, um tanto sem reagirmos, vamos nos acostumando com formas cada vez mais criativas, empreendedoras e aut\u00f4nomas de explorar os mais pobres, mais fracos e mais prec\u00e1rios. Um mundo de uberexplora\u00e7\u00e3o de um trabalho cada vez mais uberificado.<\/p>\n<p>*Rodrigo Firmino \u00e9 professor titular do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Gest\u00e3o Urbana (PPGTU) da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Paran\u00e1 (PUCPR), editor-chefe da revista urbe (www.scielo.br\/urbe) e membro fundador da Rede Latino-Americana de Estudos em Vigil\u00e2ncia, Tecnologia e Sociedade (Lavits \u2013 lavits.org). E-mail: rodrigo.firmino@pucpr.br. Bruno Cardoso \u00e9 professor adjunto do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro fundador da Lavits. E-mail: brunovcardoso@hotmail.com.<\/p>\n<p>1 Ver, por exemplo, Manuel Castells, A sociedade em rede, Paz e Terra, S\u00e3o Paulo, 1999.<\/p>\n<p>2 Ver Ana Luiza Basilio, \u201cProfessor Uber: a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho invade as salas de aula\u201d, Carta Capital, 28 ago. 2017. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/goo.gl\/BaAMiW&gt;.<\/p>\n<p>3 Nikolas Rose, Inventando nossos selfs, Vozes, Petr\u00f3polis, 2011; Nikolas Rose e Peter Miller, Governando o presente, Paulus, S\u00e3o Paulo, 2012.<\/p>\n<p>4 Pierre Dardot e Christian Laval, A nova raz\u00e3o do mundo, Boitempo, S\u00e3o Paulo, 2016.<\/p>\n<p>5 Os nomes foram modificados para preservar a identidade dos envolvidos.<\/p>\n<p>6 Claus Offe, \u201cTrabalho: a categoria-chave da sociologia?\u201d, RBCS: Revista Brasileira de Ci\u00eancias Sociais, v.4, n.10, p.6-20, 1989.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Artigo originalmente publicado no site\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/a-uberizacao-da-uber\/\">Le Monde Diplomatique<\/a><em> no dia 02\/05\/2018.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rodrigo Firmino e Bruno Cardoso* Daniele era motorista profissional, contratada por Michel para servir sua fam\u00edlia. 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