{"id":9116,"date":"2021-09-09T13:36:27","date_gmt":"2021-09-09T16:36:27","guid":{"rendered":"https:\/\/lavits.bemvindo.co\/entrevista-o-avanco-do-capitalismo-de-vigilancia-nas-instituicoes-publicas-de-ensino-superior-da-america-do-sul-com-leonardo-cruz\/"},"modified":"2021-09-09T13:36:27","modified_gmt":"2021-09-09T16:36:27","slug":"entrevista-o-avanco-do-capitalismo-de-vigilancia-nas-instituicoes-publicas-de-ensino-superior-da-america-do-sul-com-leonardo-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lavits.org\/es\/entrevista-o-avanco-do-capitalismo-de-vigilancia-nas-instituicoes-publicas-de-ensino-superior-da-america-do-sul-com-leonardo-cruz\/","title":{"rendered":"O avan\u00e7o do Capitalismo de Vigil\u00e2ncia nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de ensino superior da Am\u00e9rica do Sul, com Leonardo Cruz"},"content":{"rendered":"<p>Em entrevista para a Lavits, o professor e pesquisador Leornardo Cruz (UFPA) analisa o avan\u00e7o das <em>big techs<\/em>, em especial o Google e a Microsoft, no \u00e2mbito das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de ensino superior na Am\u00e9rica do Sul. Um dos coordenadores do <a href=\"https:\/\/educacaovigiada.org.br\/\">Educa\u00e7\u00e3o Vigiada<\/a> e da pesquisa <em>\u00abMapeando o avan\u00e7o do Capitalismo de Vigil\u00e2ncia nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de ensino superior da Am\u00e9rica do Sul\u00bb<\/em>, Cruz nos conta do surgimento do projeto, detalha a metodologia e os achados da investiga\u00e7\u00e3o, aponta os interesses de grandes corpora\u00e7\u00f5es de tecnologia nos dados de ensino e de pesquisa do continente e alerta para as causas e para os perigos da transfer\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es do campo educacional p\u00fablico para empresas privadas internacionais.<\/p>\n<p>\u00ab<em><span style=\"font-weight: 400;\">A quest\u00e3o do financiamento, ou melhor, da falta de investimento nas universidades \u00e9 o maior impulsionador da plataformiza\u00e7\u00e3o privada da educa\u00e7\u00e3o. No Brasil, ao menos, \u00e9 o maior incentivo. As universidades n\u00e3o t\u00eam como manter os seus parques tecnol\u00f3gicos. Temos um hist\u00f3rico de cortes no or\u00e7amento da educa\u00e7\u00e3o, contingenciamentos, teto de gastos, etc. Tudo isso tem um impacto direto nas condi\u00e7\u00f5es das universidades conseguirem manter os parques tecnol\u00f3gicos delas\u00bb,<\/span><\/em><span style=\"font-weight: 400;\"> afirma Cruz<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Confira abaixo a entrevista completa.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Lavits: Como surge o projeto e a Educa\u00e7\u00e3o Vigiada?<\/b><\/p>\n<p><b>Leonardo Cruz: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">O projeto surge de uma iniciativa que reuniu inicialmente eu, o Tel Amiel (Iniciativa Educa\u00e7\u00e3o Aberta &#8211; UnB), o Filipe Saraiva (Centro de Compet\u00eancia em Software Livre &#8211; UFPA) e a Priscila Gonsales (EducaDigital). Desde 2016, eu j\u00e1 pesquisava as rela\u00e7\u00f5es entre a Google e as universidades p\u00fablicas na minha pesquisa de p\u00f3s-doc no LabJor (Unicamp) com a orienta\u00e7\u00e3o do Rafael Evangelista (LAVITS) e da Marta Kanashiro (LAVITS). Pr\u00f3ximo ao LabJor, estava o N\u00facleo de Inform\u00e1tica Aplicada \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o (NIED\/Unicamp)<\/span><b>,<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> o centro de produ\u00e7\u00e3o de tecnologias educacionais da Unicamp e local em que o Tel Amiel trabalhava. A rela\u00e7\u00e3o entre as <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">big techs<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> e as universidades tamb\u00e9m come\u00e7ou a interessar ao Tel porque envolvia diretamente o trabalho dele. Mais especificamente, ele come\u00e7ou a observar que o investimento crescente nas ferramentas da Google estava relacionado a um investimento cada vez menor no trabalho que eles realizavam no centro. Eles (no centro) come\u00e7aram a n\u00e3o ter dinheiro para estagi\u00e1rios, n\u00e3o ter dinheiro para bolsistas, e assim por diante. Ent\u00e3o, n\u00f3s j\u00e1 nos conhec\u00edamos de l\u00e1 e est\u00e1vamos pesquisando o tema, por\u00e9m de forma independente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando eu vim para a UFPA, eu conheci o Filipe Saraiva. E conheci o Filipe atrav\u00e9s das redes do Grupo de Pesquisa Informa\u00e7\u00e3o, Comunica\u00e7\u00e3o, Tecnologia e Sociedade (ICTS) do LabJor. O Filipe Saraiva j\u00e1 estava na UFPA h\u00e1 um ano e meio, na Faculdade de Computa\u00e7\u00e3o e na organiza\u00e7\u00e3o do Centro de Compet\u00eancia em Software Livre e n\u00f3s sempre convers\u00e1vamos sobre o assunto. Ele, ent\u00e3o, come\u00e7ou tamb\u00e9m a se interessar mais pelo tema, especialmente ap\u00f3s a Google fazer uma parceria com a UFPA, algo que impactava diretamente nos trabalhos dele, na rela\u00e7\u00e3o entre software e pol\u00edtica, principalmente no \u00e2mbito do software livre. Nisso, eu comecei a entrar em contato mais frequente com o Tel para ver se consegu\u00edamos pesquisar o assunto de uma forma mais robusta e sistematizada.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Logo de cara, o problema que n\u00f3s encontramos foi a falta de informa\u00e7\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil pesquisar isso porque a gente n\u00e3o sabe quantas universidades fecharam acordos. Ou seja, a dificuldade era saber como poder\u00edamos ter acesso a estes dados. A gente come\u00e7ou, cada um no seu canto, a ver como poder\u00edamos descobrir isso. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Em janeiro de 2018, eu participei <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">de uma oficina de rede mesh, em Monteiro Lobato (SP), organizada pela Coolab e pelo departamento de humanidades do ITA (Instituto Tecnol\u00f3gico de Aeron\u00e1utica) e l\u00e1 eles estavam tentando descobrir quais eram as redes pr\u00f3ximas deles. Na ocasi\u00e3o, eles utilizavam um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">comand host do linux<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> que d\u00e1 pra descobrir onde \u00e9 o servidor mx de um endere\u00e7o de email. Conversando com o Filipe eu mostrei que existia o comando que dava pra descobrir onde est\u00e1 alocado o servidor de email de cada endere\u00e7o de email.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Lavits: O comando seria, portanto, uma ferramenta metodol\u00f3gica para se descobrir os servidores dos emails das universidades?<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Leonardo Cruz:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Sim. Atrav\u00e9s dele, ir\u00edamos conseguir descobrir os servidores de cada email. Logo, pensamos em fazer um script para automatizar isso. Porque o que eu vinha fazendo antes era chegar aos e-mails um por um. Peguei a lista de todas as universidades e ia checando os emails de cada universidade um por um e fazia uma tabela. E isso dava muito trabalho. Pensei que se a gente tivesse um script dava para fazer isso com grandes quantidades de email. Conversei com o Filipe e ele falou que dava para fazer o script no Python. Ele, ent\u00e3o, fez a primeira vers\u00e3o, mandou pra mim e ficamos testando. At\u00e9 que conversei com o Tel e disse a ele que a gente conseguiu fazer um software que nos informava os dados que a Google n\u00e3o estava fornecendo, que a gente n\u00e3o conseguia e n\u00e3o tinha como conseguir atrav\u00e9s dela. S\u00f3 que novamente, isso \u00e9 algo bem trabalhoso. Com o Tel, ent\u00e3o, n\u00f3s escrevemos um <\/span><a href=\"https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Cruz_Saraiva_Amiel-2019-LAVITS-1.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">artigo para o Simp\u00f3sio da Lavits em 2019<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. No artigo, detalhamos a metodologia, mostrando que era poss\u00edvel descobrir os dados e que estes dados podem ajudar a entender qual a atua\u00e7\u00e3o do capitalismo de vigil\u00e2ncia no Brasil.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Publicamos o artigo com o objetivo inicial de divulgar a metodologia, para outras pessoas testarem e aprimorarem, como uma forma de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica mesmo. Quando a gente consolidou isso, pensamos em buscar um financiamento para ter bolsistas para trabalhar integralmente no projeto, porque n\u00f3s sozinhos n\u00e3o ir\u00edamos dar conta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aplicamos, ent\u00e3o, para o Fundo Emergencial da Derechos Digitales. Fizemos o projeto,\u00a0 chamando-o de <\/span><b>Educa\u00e7\u00e3o Vigiada<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. Com o apoio, mapeamos todas as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas federais e estaduais e fizemos um evento para divulgar os dados. Na verdade, publicar esses dados e a metodologia, de forma que eles possam servir como base para outras pesquisas \u00e9 o grande objetivo do que estamos fazendo. A an\u00e1lise desses dados n\u00f3s fazemos em \u00e2mbito de pesquisa individuais. Mas a gente divulga os dados e a metodologia para que outras pessoas utilizem e, assim, termos mais informa\u00e7\u00f5es para pesquisar.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Come\u00e7amos a sistematizar melhor e chamamos a Priscila Gonzales para organizar o projeto. Conseguimos deixar o script redondo, mapear e fazer o site do Brasil, com as informa\u00e7\u00f5es das institui\u00e7\u00f5es brasileiras. O lan\u00e7amento do <\/span><a href=\"https:\/\/educacaovigiada.org.br\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">site<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, inclusive, foi no dia 09 de mar\u00e7o de 2020, no come\u00e7o da pandemia. Nisso, ficamos com aquilo um pouco represado, porque t\u00ednhamos pot\u00eancia de conseguir mais dados, mas n\u00e3o t\u00ednhamos financiamento para recursos materiais e humanos. A\u00ed surgiu a oportunidade junto com a Lavits. O apoio da Lavits foi o que nos permitiu expandir nossas bases de dados e formar uma rede com grupos de pesquisa de outros pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul. De modo que os dados e a metodologia n\u00e3o sejam relevantes apenas para investigadores brasileiros, mas para outras pesquisadoras e pesquisadores.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Lavits: E como essa rede na Am\u00e9rica do Sul foi formada?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Leonardo Cruz: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">O Tel Amiel j\u00e1 tinha uma rede na Am\u00e9rica do Sul a partir do projeto <\/span><a href=\"https:\/\/aberta.org.br\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Educa\u00e7\u00e3o Aberta<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. Eles est\u00e3o fazendo um mapeamento de iniciativas de educa\u00e7\u00e3o aberta na regi\u00e3o e j\u00e1 tinham alguns contatos. Fizemos um primeiro contato com as pesquisadoras do Uruguai e da Col\u00f4mbia. E a partir da rede da Lavits, a Jamila Venturini indicou a pesquisadora da Bol\u00edvia. Tivemos inicialmente dificuldades por causa da pandemia. Depois de um m\u00eas mais ou menos, conseguimos fazer um encontro com todo mundo e foi formada a rede.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A rede do projeto Educa\u00e7\u00e3o Vigiada, ent\u00e3o, \u00e9 formada por mim, Tel Amiel, Filipe Saraiva, Priscila Gonsales, Nathalia Eloisa Larrea Monta\u00f1o (Bol\u00edvia), Dariana Astrid Salas Luna (Col\u00f4mbia), Sebasti\u00e1n Andr\u00e9s Zapateiro N\u00fa\u00f1ez (Col\u00f4mbia), Mar\u00eda Viola Deambrosis (Uruguai), Andr\u00e9 Castanheira Oddone (Brasil) e C\u00e1ssio Gomes do Nascimento (Brasil). Tivemos uma s\u00e9rie de encontros, reuni\u00f5es, para explicar o projeto para as pessoas. Muita gente n\u00e3o estava \u00edntima do assunto e come\u00e7ou a entender at\u00e9 pelo diagn\u00f3stico dos problemas. Isso porque est\u00e1 bem avan\u00e7ada a plataformiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica do Sul, especialmente atrav\u00e9s da Google.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Lavits: Esse avan\u00e7o foi um dos resultados que voc\u00eas encontraram?<\/b><\/p>\n<p><b>Leonardo Cruz: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Sim. Com exce\u00e7\u00e3o do Uruguai, da Argentina e da Venezuela. Uruguai e Argentina, em especial, conseguem ainda proteger os servidores pr\u00f3prios das suas institui\u00e7\u00f5es de ensino superior. O Uruguai tem 18% de servidores da Google e o restante s\u00e3o servidores pr\u00f3prios. Na verdade, o pa\u00eds foge ao padr\u00e3o. Porque a partir desses n\u00fameros temos uma escalada at\u00e9 chegar na situa\u00e7\u00e3o do Equador que n\u00e3o tem nenhuma universidade com servidor pr\u00f3prio. No Peru, dos 62 servidores que existem, apenas dois s\u00e3o pr\u00f3prios. A Col\u00f4mbia tamb\u00e9m tem apenas quatro servidores pr\u00f3prios. O padr\u00e3o \u00e9 esse.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A partir desse diagn\u00f3stico, temos que entender o porqu\u00ea. O que h\u00e1 no Uruguai que permite que eles consigam manter servidores pr\u00f3prios nas universidades? N\u00f3s temos que pensar em algumas quest\u00f5es: como \u00e9 em termos de legisla\u00e7\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o entre as empresas de dados e as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas nos diferentes pa\u00edses? H\u00e1 uma regula\u00e7\u00e3o maior, como havia no Brasil at\u00e9 2018? \u00c9 preciso pensar tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao financiamento das universidades. A meu ver, a quest\u00e3o do financiamento, ou melhor, da falta de investimento nas universidades \u00e9 o maior impulsionador, o que mais dispara, impulsiona a plataformiza\u00e7\u00e3o privada da educa\u00e7\u00e3o. No Brasil, ao menos, \u00e9 o maior incentivo. Falo isso porque as universidades n\u00e3o t\u00eam como manter os seus parques tecnol\u00f3gicos. Temos um hist\u00f3rico de cortes no or\u00e7amento da educa\u00e7\u00e3o, contingenciamentos, teto de gastos, o projeto Future-se, etc. Tudo isso tem um impacto direto nas condi\u00e7\u00f5es das universidades conseguirem manter os parques tecnol\u00f3gicos delas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Lavits: Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia, imagina-se que o uso de plataformas educacionais de grandes empresas de tecnologia tenha aumentado. A pesquisa conseguiu mapear um avan\u00e7o neste sentido antes e depois da pandemia?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Leonardo Cruz: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">No Brasil, sim.<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">Na verdade, existem muitas tend\u00eancias que conflu\u00edram nos \u00faltimos anos e que n\u00e3o d\u00e1 para afirmar com certeza se \u00e9 em raz\u00e3o da pandemia ou n\u00e3o. Em alguns setores como as universidades estaduais, por exemplo, esse cen\u00e1rio j\u00e1 estava muito avan\u00e7ado antes da pandemia, com cerca de 80% dessas institui\u00e7\u00f5es com acordos com a Google e a Microsoft. As universidades federais, n\u00e3o. Isso porque as universidades federais n\u00e3o podiam fazer nenhum acordo, por lei, at\u00e9 2018. Existia um decreto do Governo Dilma que impedia que institui\u00e7\u00f5es federais armazenassem suas informa\u00e7\u00f5es em nuvem de empresas privadas. No fim de 2018, em 26 de dezembro, o Governo Temer derrubou este decreto. A\u00ed as universidades come\u00e7aram a ir atr\u00e1s da Google. Isso aconteceu, por exemplo, na Universidade Federal do Par\u00e1. Porque eles estavam precisando de espa\u00e7o em servidor. Ent\u00e3o, em 2019 e 2020, a gente v\u00ea um grande salto. Os acordos entre as <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">big techs<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> e as universidades saltaram de 11% no come\u00e7o de 2019 para 74% agora. Ou seja, quando chegou a pandemia, j\u00e1 havia alguns acordos feitos e uma l\u00f3gica de parceria com estas empresas. Agora, claro que h\u00e1 um crescimento. Em novembro de 2020, quando eu escrevi <\/span><a href=\"https:\/\/www.br-ie.org\/pub\/index.php\/rbie\/article\/view\/v28p1060\"><span style=\"font-weight: 400;\">um artigo com a Jamila Venturini<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, a gente notou um aumento de 15% de mar\u00e7o at\u00e9 outubro de 2020.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Lavits: Por que essas empresas t\u00eam o interesse em ofertar o servi\u00e7o e estar presente na educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica?<\/b><\/p>\n<p><b>Leonardo Cruz: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Existem v\u00e1rios interesses. A primeira fonte de interesse s\u00e3o os dados. E n\u00e3o necessariamente os dados expl\u00edcitos, as informa\u00e7\u00f5es que colocamos l\u00e1. Mas voc\u00ea tem um modelo de neg\u00f3cios que se valoriza atrav\u00e9s da coleta de dados sobre a utiliza\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias ferramentas. E faz isso ocupando um espa\u00e7o que antes n\u00e3o era mediado por nenhuma ferramenta digital. A sala de aula, por exemplo, n\u00e3o tinha uma captura de dados. Era um tempo, 4 horas por dia, em que a sociabilidade era realizada fora dessa din\u00e2mica de coleta e captura de dados. Agora, a gente tem esse mesmo tempo sendo realizado dentro de uma estrutura de captura de dados. Ent\u00e3o, l\u00e1 voc\u00ea tem as pessoas, o lugar onde voc\u00ea est\u00e1, as pessoas com quem voc\u00ea conversa, os assuntos que voc\u00ea conversa, quem s\u00e3o seus grupos de amigos dentro da universidade, quem s\u00e3o seus professores, quanto tempo voc\u00ea se encontra com essas pessoas durante o dia. Tudo isso fornece informa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o associadas com a quantidade imensa de dados j\u00e1 capturados de outros ambientes e dispositivos, servindo tamb\u00e9m no cruzamento para produ\u00e7\u00e3o de perfiliza\u00e7\u00e3o e para inferir comportamentos, comportamentos futuros tanto na rede quanto na vida.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outra tend\u00eancia, muito perigosa, \u00e9 a tend\u00eancia de transfer\u00eancia de dinheiro p\u00fablico para essas empresas privadas. Porque a Google ofereceu tudo isso de gra\u00e7a para as universidades. Mas voc\u00ea tem 75% das universidades que j\u00e1 fizeram acordo com a Google e, mais ainda, n\u00e3o tem mais servidores pr\u00f3prios. A Unicamp, por exemplo, transferiu todas as mensagens para os servidores da Google. E, nos contratos, a Google n\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o nenhuma de manter a gratuidade dos seus servi\u00e7os. Na verdade, ela n\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o de nada, nem de manter os seus servi\u00e7os. Se ela amanh\u00e3 disser que n\u00e3o quer mais oferecer estes servi\u00e7os, ela n\u00e3o oferece. E a empresa j\u00e1 est\u00e1 come\u00e7ando a cobrar por alguns servi\u00e7os. Come\u00e7ou a cobrar por certas estruturas do Google Meet, agora t\u00e1 come\u00e7ando a cobrar por quantidade de tamanho de servidores. O Google Drive, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 mais ilimitado, vai come\u00e7ar a ser limitado. Ent\u00e3o, \u00e9 de se imaginar que ela vai come\u00e7ar a cobrar por essa estrutura. No cen\u00e1rio de agora, que a Google j\u00e1 tem um controle muito grande dessa estrutura, as universidades n\u00e3o ter\u00e3o mais condi\u00e7\u00e3o de voltar atr\u00e1s e v\u00e3o ter que come\u00e7ar a pagar, caso a Google volte atr\u00e1s desse fornecimento gratuito. E principalmente agora, nesse momento de pandemia, que as universidades dependem do funcionamento dessa empresa. A gente chegou numa situa\u00e7\u00e3o que \u00e9 surreal. O servi\u00e7o p\u00fablico s\u00f3 vai funcionar dependendo desta empresa. E de apenas uma empresa. Se algo acontece com o Google Meet, metade das universidades n\u00e3o v\u00e3o conseguir dar aula.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Estamos perto dessa situa\u00e7\u00e3o: o dinheiro que poderia servir para aumentar a autonomia informacional das universidades, vai come\u00e7ar a ser usado para pagar os servi\u00e7os que a Google est\u00e1 oferecendo. Podendo, assim, no futuro, se configurar em uma transfer\u00eancia de dinheiro p\u00fablico diretamente para essas empresas, pagando servi\u00e7os que eram gratuitos anteriormente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o que \u00e9 muito mais dif\u00edcil de demonstrar, mas que h\u00e1 ind\u00edcios principalmente ap\u00f3s os vazamentos do Snowden. Descobrimos que \u00e9 poss\u00edvel que departamentos e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos dos Estados Unidos \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 aqueles de seguran\u00e7a e de defesa \u2013 podem acessar o banco de dados das empresas do capitalismo de vigil\u00e2ncia. A gente come\u00e7a a pensar como isso \u00e9 estrat\u00e9gico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica dos pa\u00edses onde esses dados e essas empresas est\u00e3o. Ent\u00e3o, a\u00ed h\u00e1 a quest\u00e3o da falta de privacidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s nossas comunica\u00e7\u00f5es de pesquisas e como isso pode ser usado para fortalecer as institui\u00e7\u00f5es de pesquisa dos EUA. A gente j\u00e1 sabe, por exemplo, que comunica\u00e7\u00f5es do governo foram, em 2013, vigiadas em favor de tomada de decis\u00e3o da C\u00e2mara de Com\u00e9rcio dos EUA em acordos internacionais. N\u00e3o d\u00e1 para atestar que isso ocorre, mas as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade est\u00e3o dadas. Porque a gente n\u00e3o tem mais controle dos dados que a gente produz. N\u00e3o h\u00e1 controle nenhum. N\u00e3o tem como dizer que n\u00e3o h\u00e1 acesso a esses dados\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Lavits: No campo dos estudos de vigil\u00e2ncia, um dos grandes inimigos \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o de praticidade e comodidade. No caso da ado\u00e7\u00e3o dessas plataformas privadas durante a pandemia, o que se viu foi muitos gestores tendo que se adaptar rapidamente na transforma\u00e7\u00e3o para o ensino remoto e havia essa alternativa r\u00e1pida e pr\u00e1tica dispon\u00edvel. H\u00e1 assim uma comodidade e praticidade que \u00e9 experimentada na hora, enquanto os efeitos e problemas da vigil\u00e2ncia e da coleta de dados n\u00e3o s\u00e3o percebidos e experimentados na hora. Como escapar da armadilha da praticidade?\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Leonardo Cruz: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Mais que a praticidade, a grande vantagem da Google e o fil\u00e3o que a empresa consegue ter o controle do mercado \u00e9 na \u00e1rea de armazenamento, dos servidores de armazenamento. Existem ferramentas t\u00e3o pr\u00e1ticas como as ferramentas da Google. Por\u00e9m, n\u00e3o temos um investimento em datacenter, e esse \u00e9 o grande gargalo. Por exemplo, h\u00e1 as ferramentas da <\/span><a href=\"https:\/\/nextcloud.com\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Nextcloud<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, do <\/span><a href=\"https:\/\/moodle.org\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Moodle<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, etc, que s\u00e3o muito \u00fateis e n\u00e3o s\u00e3o dif\u00edceis de usar, mas para se usar essas ferramentas tem que se investir em servidores, instalar elas em servidores. E \u00e9 isso que a gente n\u00e3o tem. E \u00e9 justamente o que a Google est\u00e1 oferecendo \u00e0s institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por exemplo, a UFPA oferecia um email de 2 giga para os professores. S\u00f3 oferecendo emails de 2 GB, a Universidade estava com 95% do datacenter deles cheio esem dinheiro. A CETIC da UFPA de Bel\u00e9m j\u00e1 come\u00e7ou o ano sem or\u00e7amento. N\u00e3o tem dinheiro para consertar um computador. A\u00ed vem a Google e oferece emails ilimitados para todos os professores, para todos os funcion\u00e1rios e para todos os alunos. N\u00e3o tem nem como a gente cogitar oferecer uma coisa dessas. N\u00e3o tem dinheiro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que a gente precisa ter \u00e9 uma vis\u00e3o mais cuidadosa sobre o que est\u00e1 trafegando nessas redes, ter um cuidado de pensar estrategicamente isso e oferecer um servi\u00e7o p\u00fablico de armazenamento para as universidades p\u00fablicas. Ao meu ver, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o que pode ser feita frente a esse dom\u00ednio \u00e9 ter consci\u00eancia de que a gente est\u00e1 passando por um problema de seguran\u00e7a nacional. Ou seja, uma organiza\u00e7\u00e3o estrangeira tem poss\u00edvel acesso \u00e0 nossa produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica, potencial acesso \u00e0s comunica\u00e7\u00f5es de pesquisa e aos resultados de pesquisa. E isso \u00e9 algo que devemos proteger, pois essa situa\u00e7\u00e3o se relaciona com competitividade no mercado internacional. S\u00f3 que estamos com um governo que n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed pra isso, n\u00e3o se importa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O ideal seria que tiv\u00e9ssemos investimento em datacenters, com uma governan\u00e7a aberta e fortalecendo as universidades e os alunos das universidades. Porque uma das grandes desvantagens, um dos grandes perigos de toda essa centralidade e controle da Google \u00e9 que a gente n\u00e3o est\u00e1 produzindo alternativas a isso. Eu digo em rela\u00e7\u00e3o aos alunos mesmo. \u00c9 uma oportunidade de trabalho para alunos de ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o, algo que o Filipe Saraiva fala bastante. Ou seja, \u00e9 um emprego, uma fun\u00e7\u00e3o que deixou de ser exercida pela universidade, logo deixou de ter uma vaga de emprego para um aluno para, por exemplo, gest\u00e3o e otimiza\u00e7\u00e3o de emails. Ou para gest\u00e3o e otimiza\u00e7\u00e3o de tecnologias educacionais. Isso deixou de ser interesse da universidade porque tem uma empresa que j\u00e1 faz isso.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Tel Amiel, o Nelson Pretto, o Miguel Sete Vieira, uma parte do nosso grupo, tem projetos visando isso. Conseguir m\u00e1quinas, servidores e recursos materiais e f\u00edsicos para, ent\u00e3o, conseguir alunos que v\u00e3o gerenciar um certo n\u00famero de tecnologias para auxiliar algumas pesquisas, alguns professores e pesquisadores que precisam de mais seguran\u00e7a. E queremos que isso sirva como um modelo para algo maior, para a RNP, ou algum cons\u00f3rcio que consiga ver isso como um problema e pensar em solu\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Lavits: E quem tiver interesse em colaborar com o projeto, o que pode fazer?<\/b><\/p>\n<p><b>Leonardo Cruz: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">A gente tem o site <\/span><a href=\"https:\/\/educacaovigiada.org.br\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">educacaovigiada.org.br<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. O site tem os resultados da nossa pesquisa no Brasil e a gente vai atualizar ele com os resultados da pesquisa da Am\u00e9rica do Sul. O script \u00e9 feito em c\u00f3digo aberto, ent\u00e3o pode ser utilizado amplamente. Temos uma volunt\u00e1ria no M\u00e9xico que se interessou pela pesquisa e se voluntariou a colher os dados do M\u00e9xico com os nossos scripts. Ela entrou em contato conosco e estamos ajudando. Tem um local l\u00e1 de contato no site. Ent\u00e3o, quem tiver interesse em mapear algum lugar ou ajudar a gente com os dados \u00e9 s\u00f3 entrar em contato com a gente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Lavits: E quais s\u00e3o os pr\u00f3ximos passos do projeto?<\/b><\/p>\n<p><b>Leonardo Cruz: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Queremos mapear a Am\u00e9rica Latina toda. Depois, pensamos em conseguir os dados de algum pa\u00eds central do capitalismo. A gente j\u00e1 mapeou Portugal, mas queremos mapear ou os EUA ou Alemanha para tentar comparar a situa\u00e7\u00e3o deles com a nossa. O objetivo \u00e9 que a gente consiga mapear o mundo (risos).<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista para a Lavits, o professor e pesquisador Leornardo Cruz (UFPA) analisa o avan\u00e7o das big techs, em especial o Google e a Microsoft, no \u00e2mbito das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":23,"featured_media":8853,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"_EventAllDay":false,"_EventTimezone":"","_EventStartDate":"","_EventEndDate":"","_EventStartDateUTC":"","_EventEndDateUTC":"","_EventShowMap":false,"_EventShowMapLink":false,"_EventURL":"","_EventCost":"","_EventCostDescription":"","_EventCurrencySymbol":"","_EventCurrencyCode":"","_EventCurrencyPosition":"","_EventDateTimeSeparator":"","_EventTimeRangeSeparator":"","_EventOrganizerID":[],"_EventVenueID":[],"_OrganizerEmail":"","_OrganizerPhone":"","_OrganizerWebsite":"","_VenueAddress":"","_VenueCity":"","_VenueCountry":"","_VenueProvince":"","_VenueState":"","_VenueZip":"","_VenuePhone":"","_VenueURL":"","_VenueStateProvince":"","_VenueLat":"","_VenueLng":"","_VenueShowMap":false,"_VenueShowMapLink":false,"footnotes":""},"categories":[957],"tags":[],"tematica":[865,867,895,936,938,940],"destaque":[],"class_list":["post-9116","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-2-es","tematica-capitalismo-de-plataforma-es","tematica-capitalismo-de-vigilancia-es","tematica-economia-politica-es","tematica-tecnologia-e-sociedade-es","tematica-tecnologias-digitais-es","tematica-tecnopoliticas-es"],"blocksy_meta":{"styles_descriptor":{"styles":{"desktop":"","tablet":"","mobile":""},"google_fonts":[],"version":6}},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9116","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/23"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9116"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9116\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8853"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9116"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9116"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9116"},{"taxonomy":"tematica","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tematica?post=9116"},{"taxonomy":"destaque","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/destaque?post=9116"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}