{"id":9219,"date":"2020-12-08T16:37:19","date_gmt":"2020-12-08T19:37:19","guid":{"rendered":"https:\/\/lavits.bemvindo.co\/lavits_covid19_24-a-mascara-da-covid-19-no-brasil\/"},"modified":"2022-05-19T17:20:46","modified_gmt":"2022-05-19T20:20:46","slug":"lavits_covid19_24-a-mascara-da-covid-19-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lavits.org\/es\/lavits_covid19_24-a-mascara-da-covid-19-no-brasil\/","title":{"rendered":"#24: A M\u00e1scara da Covid-19 no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><em>Por <strong>Andr\u00e9 Lemos <\/strong>*<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Agenciamento V\u00edrus<\/strong><\/h3>\n<p>Mostrei em dois artigos recentes como essa pandemia \u00e9, em primeiro lugar, um fen\u00f4meno materialmente constru\u00eddo (<a href=\"http:\/\/www.lab404.ufba.br\/a-construcao-do-novo-coronavirus\/\">A Constru\u00e7\u00e3o do Novo Coronav\u00edrus<\/a>) e como, mais do que isolar, ela revela a necessidade de contato, sendo uma met\u00e1fora para uma cidadania global e para o reconhecimento da liberdade como um bem coletivo (<a href=\"http:\/\/www.lab404.ufba.br\/covid-19-liberdade-e-cidadao-ideal\/\">Covid 19, Liberdade e Cidad\u00e3o Ideal<\/a>). O uso (ou n\u00e3o) de m\u00e1scaras \u00e9 uma forma material do \u201cagenciamento v\u00edrus\u201d. A pandemia revela a organiza\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica do pa\u00eds na mobiliza\u00e7\u00e3o (ou n\u00e3o) de a\u00e7\u00f5es concretas concernentes \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, \u00e0 economia e \u00e0 cultura.<\/p>\n<p>O governo federal do Brasil tem negado a gravidade da situa\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 Covid-19 e, portanto, a necessidade de isolamento, de uso de m\u00e1scaras, de n\u00e3o aglomera\u00e7\u00e3o&#8230; Consequentemente, h\u00e1 muito pouca pro-atividade no combate \u00e0 pandemia. N\u00e3o h\u00e1 a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica consistente global na luta para barrar o cont\u00e1gio e minimizar os malef\u00edcios da doen\u00e7a. Recomenda\u00e7\u00f5es sobre a necessidade de isolamento social e o uso de m\u00e1scaras, quando s\u00e3o publicadas pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, s\u00e3o rapidamente <a href=\"https:\/\/istoe.com.br\/ministerio-da-saude-apaga-post-em-que-defendia-isolamento\/\">apagadas<\/a>, possivelmente por contrariar a vis\u00e3o anticient\u00edfica e infantil do Presidente. Quem se preocupa com isso \u00e9 chamado de \u201c<a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/ultimas-noticias\/rfi\/2020\/11\/11\/com-pais-de-maricas-bolsonaro-mistura-homofobia-e-indecencia-diz-imprensa-internacional.htm\">maricas<\/a>\u201d. Recentemente, indo mais uma vez contra as recomenda\u00e7\u00f5es cient\u00edficas para o uso das m\u00e1scaras, o pr\u00f3prio Presidente disse que estas seriam o \u201c<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2020\/11\/mascara-e-ultimo-tabu-a-cair-diz-bolsonaro-sobre-prevencao-da-covid.shtml\">\u00faltimo tabu a cair<\/a>\u201d.<\/p>\n<p>Podemos ver, no entanto, seja pela a\u00e7\u00e3o dos Estados e Munic\u00edpios, seja pela iniciativa de empresas, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais e pessoas, formas concretas de luta contra o cont\u00e1gio, mobilizando diversos objetos no espa\u00e7o p\u00fablico, materializando a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds: totens com \u00e1lcool em gel, marca\u00e7\u00e3o no solo para distanciamento social em locais p\u00fablicos, barreiras de acesso, tapetes higienizadores, term\u00f4metros e c\u00e2meras com monitoramento t\u00e9rmico para detectar corpos febris, limites de entrada com bloqueio de mobili\u00e1rios como cadeiras e bancos, doa\u00e7\u00e3o de m\u00e1scaras de uso pessoal&#8230; No caso das m\u00e1scaras para a Covid-19, esses objetos t\u00eam sido utilizados, em primeiro lugar, como equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual para evitar o cont\u00e1gio. Mas elas revelam, no uso ou na nega\u00e7\u00e3o, posicionamentos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Pol\u00edtica dos Objetos<\/strong><\/h3>\n<p>As m\u00e1scaras s\u00e3o objetos performativos, sejam como elementos ritual\u00edsticos em sociedades n\u00e3o modernas, sejam como instrumentos de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica direta, como aquela usada pelo <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/07\/07\/internacional\/1530999712_945131.html\">Subcomandante Marcos<\/a> (o primeiro ciberativista), no movimento dos zapatistas no M\u00e9xico, as dos <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2019\/10\/04\/governo-de-hong-kong-proibe-o-uso-de-mascaras-em-manifestacoes.ghtml\">jovens de Hong Kong<\/a> usadas para escapar da vigil\u00e2ncia policial e pol\u00edtica chinesa, ou a m\u00e1scara de <a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/como-guy-fawkes-se-tornou-o-rosto-de-protestos-pelo-mundo\/a-18830988\">Guy Fawkes dos <em>hackers anonymous<\/em><\/a> que as utiliza na invas\u00e3o de sistemas, expondo segredos governamentais ou de pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Nortje Marres mostra como a pol\u00edtica se d\u00e1 sempre atrav\u00e9s de uma \u201c<em>material participation<\/em>\u201d, que pode ser entendida como um modo espec\u00edfico de engajamento que envolve \u201c<em>things, people, issues, settings, technologies, institutions and so on<\/em>\u201d. (MARRES, 2012, p. 2). Ao considerarmos a participa\u00e7\u00e3o material como um fen\u00f4meno espec\u00edfico que coloca em a\u00e7\u00e3o um conjunto de entidades, podemos entender o papel dos objetos \u201c<em>in the enactment of public participation<\/em>\u201d (2012, p. 5).<\/p>\n<p>Bruno Latour prop\u00f5e pensarmos a pol\u00edtica levando em considera\u00e7\u00e3o o que ele chama de um \u201cparlamento das coisas\u201d, que reconheceria o papel dos objetos como agenciadores importantes sobre a coisa p\u00fablica. Para o soci\u00f3logo franc\u00eas, a pol\u00edtica, como circula\u00e7\u00e3o da palavra, se materializa a partir de um entrela\u00e7amento de pessoas, coisas e objetos. O que ele chama de \u201cdemocracia das coisas\u201d ou \u2018parlamento das coisas\u201d (2004, p. 408):<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>(&#8230;) n\u00e3o se trata apenas da representa\u00e7\u00e3o dos centros da vida pol\u00edtica em torno da elei\u00e7\u00e3o e da autoridade, mas a representa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m no sentido bem conhecido \u2018dos instrumentos que representam as coisas de que falamos\u2019. Assim, a quest\u00e3o da democracia atual n\u00e3o \u00e9 apenas saber se n\u00f3s votamos ou n\u00e3o, se estamos ou n\u00e3o autorizados pelas pessoas que nos elegeram, o que \u00e9 a primeira parte da representa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a de saber como, quando falamos do milho transg\u00eanico, essa coisa de que falamos \u00e9 representada, desta vez no interior do recinto. Por isso, a \u2018democracia das coisas\u2019 quer dizer, justamente, o duplo interesse pelos dois sistemas de representa\u00e7\u00e3o: representa\u00e7\u00e3o dos humanos que falam das coisas, e representa\u00e7\u00e3o das coisas de que os humanos falam, em seus recintos.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Judith Butler, em seu artigo \u201c<a href=\"https:\/\/www.n-1edicoes.org\/textos\/75\">tra\u00e7os humanos na superf\u00edcie do mundo<\/a>\u201d refor\u00e7a a ideia de que dependemos dos objetos para viver, de que o mundo material estrutura e sustenta a vida p\u00fablica, tendo um papel central em toda e qualquer dimens\u00e3o pol\u00edtica. Para Butler, o mundo material e os objetos estruturam e sustentam as rela\u00e7\u00f5es sociais, tendo rela\u00e7\u00e3o direta com a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O mesmo \u00e9 defendido por Richard Grusin em <a href=\"http:\/\/www.lab404.ufba.br\/mediacao-radical-mascaras-da-covid-e-coletividades-revolucionarias\/\">Media\u00e7\u00f5es Radicais, M\u00e1scaras da Covid e Coletividades Revolucion\u00e1rias<\/a>. Ele mostra como os objetos concretizam movimentos pol\u00edticos, como os coletes amarelos, na Fran\u00e7a, o movimento das sardinhas, na It\u00e1lia, os guarda-chuvas amarelos e as m\u00e1scaras usadas em Hong Kong, entre outros. Grusin pergunta sobre a possibilidade das m\u00e1scaras da Covid-19 funcionarem como s\u00edmbolo de resist\u00eancia, n\u00e3o apenas \u00e0 pandemia, mas contra o capitalismo.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo franc\u00eas Michel Maffesoli vem <a href=\"https:\/\/www.nice-provence.info\/2020\/10\/20\/maffesoli-le-port-obligatoire-de-la-museliere-dans-les-rues-suffit-il-a-nous-faire-obeir\/?fbclid=IwAR1i5yDbz0P2G0wz4FZtC-sbA5uS1fLqPoYBl11bvLMJG95rqFUgsFBbIHU\">denunciando a imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e1scaras<\/a>, como uma forma do poder (no caso, o governo franc\u00eas) erradicar a sociabilidade, negando a din\u00e2mica quotidiana da vida social. A obrigatoriedade de uso das m\u00e1scaras revelaria o descompasso entre as for\u00e7as pol\u00edticas da modernidade e a que emerge com a sociabilidade p\u00f3s-moderna, segundo ele, greg\u00e1ria, tribal, emocional. A m\u00e1scara, tornada obrigat\u00f3ria, \u00e9 uma \u201cfocinheira\u201d, um del\u00edrio sanit\u00e1rio, uma teatrocracia que tenta, a todo custo esconder o fiasco de uma elite que n\u00e3o v\u00ea os novos sinais dos tempos. Em suas palavras:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Et c\u2019est bien pour d\u00e9nier un tel \u2018avec\u2019 anthropologique que l\u2019on rend obligatoire le port d\u2019une \u2018museli\u00e8re\u2019 ayant pour fonction d\u2019isoler et par l\u00e0-m\u00eame de conforter une soumission n\u00e9cessaire \u00e0 la logique de la domination caract\u00e9risant un pouvoir public totalement d\u00e9connect\u00e9 de la puissance populaire. (&#8230;) Pour ceux-l\u00e0, la mascarade comme arme supr\u00eame de l\u2019hyst\u00e9rie sanitaire, c\u2019est encore de la th\u00e9\u00e2trocratie pour masquer (c\u2019est le cas de le dire) le fiasco qu\u2019une \u00e9lite en faillite va payer fort cher.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo nas suas diferen\u00e7as, esses autores destacam como os objetos, em geral, e as m\u00e1scaras, em particular, acionam material e discursivamente imagin\u00e1rios e a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas concretas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>M\u00e1scaras e pol\u00edtica no Brasil<\/strong><\/h3>\n<p>O uso e o n\u00e3o uso da m\u00e1scara para a Covid-19 retrata a complexidade da dimens\u00e3o pol\u00edtico-social do pa\u00eds<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Estamos diante de um fen\u00f4meno interessante que faz do uso ou n\u00e3o da m\u00e1scara um fator de diferencia\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica. No caso da recusa temos duas a\u00e7\u00f5es: ader\u00eancia \u00e0 ordem conservadora e individualista, ou desobedi\u00eancia civil com o descaso para com ordens, normas ou recomenda\u00e7\u00f5es vindas \u201cde cima\u201d. Vejam, por exemplo, esse depoimento de um amigo no Facebook, descrevendo o seu di\u00e1logo com um carteiro no sul do pa\u00eds:<\/p>\n<p>O carteiro dos Correios que veio em minha casa hoje n\u00e3o usava m\u00e1scara. Pedi que ele a instalasse, antes de me aproximar, e ele retrucou que era desnecess\u00e1rio. Pedi novamente que usasse a bendita e me respondeu que se eu quisesse ele marcava como encomenda recusada. Falei que podia marcar o que quisesse, n\u00e3o iria atend\u00ea-lo sem m\u00e1scara. Passou a me chamar de arrogante e outras coisas que n\u00e3o vem ao caso. O cara finalizou colocando a minha encomenda toda amassada no port\u00e3o e foi embora. (&#8230;). Pois \u00e9, nem em nossas casas estamos protegidos. E essa recusa de muitos em usar m\u00e1scara eu j\u00e1 n\u00e3o sei mais como classificar.<\/p>\n<p>Acusar quem usa a m\u00e1scara de prepot\u00eancia e arrog\u00e2ncia expressa bem a fraqueza da dimens\u00e3o da cidadania, a ideia de liberdade como bem pessoal e o descaso para com regras e determina\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias locais e da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso do uso, ele revela a afirma\u00e7\u00e3o de uma diferen\u00e7a que exp\u00f5e a n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o da perpetua\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos n\u00e3o republicanos refor\u00e7ado pela pol\u00edtica (ou falta dela) do governo federal. Mesmo os que usam pensando apenas na prote\u00e7\u00e3o pessoal est\u00e3o imersos nessa dimens\u00e3o pol\u00edtica afirmando, pela a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o concordar com o posicionamento anticient\u00edfico, negacionista e inoperante (que n\u00e3o assumiu as responsabilidades para combater a pandemia), do atual governo. \u00c9 comum vermos, nas redes sociais, pessoas tirarem fotos sem m\u00e1scaras e se sentirem na obriga\u00e7\u00e3o de escrever nas legendas que as retiraram apenas para a foto, reafirmando a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e o cuidado para com a coisa p\u00fablica.<\/p>\n<p>Uma contradi\u00e7\u00e3o interessante \u00e9 o uso da m\u00e1scara pelo vice-presidente do pa\u00eds. Ele aparece frequentemente na TV dando depoimentos usando uma m\u00e1scara para a Covid-19 que estampa o escudo de um time de futebol, n\u00e3o a bandeira do Brasil, ou mesmo das For\u00e7as Armadas. E essas n\u00e3o s\u00e3o apari\u00e7\u00f5es em momentos privados, mas como vice-presidente do pa\u00eds. Imaginem a premi\u00ea alem\u00e3 Angela Merkel aparecendo no Budenstag com uma m\u00e1scara do time de futebol do Leipzig, ou Michel Macron, com o bon\u00e9 do Olympique de Marseille na Assembleia Nacional da Fran\u00e7a! Esse uso com o escudo de um time de futebol (uma \u201ctorcida\u201d) revela, simbolicamente, que ele n\u00e3o est\u00e1 atento \u00e0 representatividade republicana do cargo que ocupa, agindo como um individuo que pode expressar a sua liberdade individual.<\/p>\n<p>N\u00e3o usar as m\u00e1scaras \u00e9 para muitos uma forma de refor\u00e7ar e apoiar as a\u00e7\u00f5es atuais do governo federal, exibindo uma dimens\u00e3o pol\u00edtica conservadora e alinhada \u00e0 extrema direita no pa\u00eds. Mas, como em outros pa\u00edses, n\u00e3o usar a m\u00e1scara \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de desobedi\u00eancia civil, indo de encontro \u00e0 racionalidade governamental, cient\u00edfica e sanit\u00e1ria que quer restringir os prazeres (ir \u00e0 praia, reunir a galera nos pared\u00f5es&#8230;). N\u00e3o usar a m\u00e1scara \u00e9, portanto, um posicionamento pol\u00edtico que expressa, por um lado, um movimento conservador de extrema direita defendendo privil\u00e9gios e a ideia de liberdade como bem pessoal, a nega\u00e7\u00e3o da pandemia, o desprezo e descaso pelo comum e pela doen\u00e7a, a ci\u00eancia e as regras sanit\u00e1rias e, por outro, a afirma\u00e7\u00e3o da vida (mesmo sendo uma puls\u00e3o de morte) pelos menos favorecidos que lidam com a amea\u00e7a de morte constante e diariamente, que n\u00e3o querem se render \u00e0s ordens da elite cient\u00edfica, pol\u00edtica ou sanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Como pergunta meu amigo do Facebook, como classificar essa atitude, como entender a politiza\u00e7\u00e3o da m\u00e1scara no Brasil?<\/p>\n<p>Aqui, de uma forma ou de outra, a m\u00e1scara \u00e9 um objeto atrav\u00e9s do qual vemos o que somos, uma sociedade na qual \u00e9 dif\u00edcil identificar comportamentos pol\u00edticos e inten\u00e7\u00f5es de forma linear ou bem estruturada. A politiza\u00e7\u00e3o conservadora, hedonista ou de protesto contra o governo no uso ou n\u00e3o da m\u00e1scara atravessa toda a sociedade brasileira. Ela n\u00e3o \u00e9 exclusividade de classes, g\u00eaneros ou ra\u00e7as, refor\u00e7ando a polariza\u00e7\u00e3o disseminada pelos diversos estratos sociais do pa\u00eds &#8211; desde o morador de um condom\u00ednio de luxo que n\u00e3o usa a m\u00e1scara, mas obriga o porteiro, pobre e preto a usar; o carteiro que afronta o meu amigo branco de classe m\u00e9dia no Sul do pa\u00eds, acusando-o de prepotente e arrogante por, justamente, usar a m\u00e1scara e pedir que ele use no seu trabalho; ou o vice presidente que usa mas, nesse caso, ela \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o do particular (da minha \u201cgalera\u201d, dos que pensam como eu) e n\u00e3o dos valores da rep\u00fablica.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 respostas f\u00e1ceis. O uso e o n\u00e3o uso podem ser bem conservadores, como um refor\u00e7o aos ideais individualistas, n\u00e3o republicanos e de ades\u00e3o ao atual governo. Mas tamb\u00e9m podem ser contestadores (embora estejam longe de potencializar movimentos revolucion\u00e1rios contra o governo ou o capital, como gostaria Grusin no seu texto). Se h\u00e1 alguma posi\u00e7\u00e3o contestadora, ela estaria por um lado, pela afirma\u00e7\u00e3o do seu uso como uma forma de dizer n\u00e3o ao governo e ao Presidente e, por outro, no n\u00e3o uso como afirma\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o greg\u00e1ria e da desobedi\u00eancia civil.<\/p>\n<p>Independente de posicionamentos, podemos dizer que a m\u00e1scara para Covid-19 no Brasil \u00e9 um instrumento de politiza\u00e7\u00e3o que revela a tens\u00e3o atual no pa\u00eds, um objeto que serve, como toda m\u00e1scara, n\u00e3o para esconder, mas para revelar a sua face mais evidente: Um pa\u00eds fraturado, dividido, hedonista, narcisista e pouco republicano.<\/p>\n<h2>Notas<\/h2>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> N\u00e3o h\u00e1 pesquisas amplas que apontem o n\u00famero de usu\u00e1rios de m\u00e1scaras no Brasil, mas os depoimentos em redes sociais e nas mat\u00e9rias na imprensa mostram que as pessoas est\u00e3o se aglomerando sem a preocupa\u00e7\u00e3o com o uso das m\u00e1scaras. Um estudo recente realizado com 1578 adultos de 18 a 71 anos, pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) mostra que no grupo antissocial (relutantes ao uso de m\u00e1scaras), foi observado n\u00edveis baixos de empatia e altos de insensibilidade, comportamento de risco, hostilidade, impulsividade, entre outras (MIGUEL et al., 2021, p. 6). Pesquisa com 1277 indiv\u00edduos, maioria mulheres, do sul e sudeste do pa\u00eds, com alta escolaridade e sendo, na maioria profissionais da sa\u00fade (66,4%) aponta que os brasileiros estavam usando as mascaras. Essa generaliza\u00e7\u00e3o por esses fatores, \u00e9 bastante question\u00e1vel, como reconhecem os autores: \u201c<em>However, the sample is not necessarily generalizable, and this is a limitation of our study\u201d<\/em> (COTRIN et al., 2020, p. 1173).<\/p>\n<h2>Refer\u00eancias<\/h2>\n<p>BUTLER, J. Tra\u00e7os humanos nas superf\u00edcies das coisas. In <strong>Pandemia cr\u00edtica<\/strong>, N-1 Edi\u00e7\u00f5es, S\u00e3o Paulo, 2020, dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.n-1edicoes.org\/textos\/75\">https:\/\/www.n-1edicoes.org\/textos\/75<\/a><\/p>\n<p>COTRIN, P. et al. The Use of Facemasks During the COVID-19 Pandemic by the Brazilian Population. <strong>Journal of Multidisciplinary Healthcare<\/strong>, Volume 13, p. 1169\u20131178, out. 2020.<\/p>\n<p>GRUSIN, R. Media\u00e7\u00e3o Radical, m\u00e1scaras da Covid e coletividades revolucion\u00e1rias. In I<strong>nVitro<\/strong>, Lab404, UFBA, Salvador, 2020. Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.lab404.ufba.br\/mediacao-radical-mascaras-da-covid-e-coletividades-revolucionarias\/i\">http:\/\/www.lab404.ufba.br\/mediacao-radical-mascaras-da-covid-e-coletividades-revolucionarias\/<\/a><\/p>\n<p>LATOUR, B. Por uma antropologia do centro. <strong>Mana<\/strong>, v. 10, n. 2, p. 397\u2013413, out. 2004.<\/p>\n<p>LEMOS, A. A constru\u00e7\u00e3o do novo coronav\u00edrus. In <strong>InVitro<\/strong>, Lab404, UFBA, Salvador, 2020, dispon\u00edvel em http:\/\/www.lab404.ufba.br\/a-construcao-do-novo-coronavirus\/.<\/p>\n<p>LEMOS, A. Covid-19, liberdade e cidad\u00e3o ideal. In <strong>InVitro<\/strong>, Lab404, UFBA, Salvador, 2020, dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.lab404.ufba.br\/covid-19-liberdade-e-cidadao-ideal\/\">http:\/\/www.lab404.ufba.br\/covid-19-liberdade-e-cidadao-ideal\/<\/a>.<\/p>\n<p>MAFFESOLI, M. Le port obligatoire de la musili\u00e8re dans les rues suffit-il \u00e0 nous faire ob\u00e9ir? In <strong>Nice Provence<\/strong>, Nice, dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.nice-provence.info\/2020\/10\/20\/maffesoli-le-port-obligatoire-de-la-museliere-dans-les-rues-suffit-il-a-nous-faire-obeir\/?fbclid=IwAR1i5yDbz0P2G0wz4FZtC-sbA5uS1fLqPoYBl11bvLMJG95rqFUgsFBbIHU\">https:\/\/www.nice-provence.info\/2020\/10\/20\/maffesoli-le-port-obligatoire-de-la-museliere-dans-les-rues-suffit-il-a-nous-faire-obeir\/?fbclid=IwAR1i5yDbz0P2G0wz4FZtC-sbA5uS1fLqPoYBl11bvLMJG95rqFUgsFBbIHU<\/a><\/p>\n<p>MARRES, N. <strong>Material Participation: Technology, the Environment and Everyday Publics<\/strong>. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2012.<\/p>\n<p>MIGUEL, F. K. et al. Compliance with containment measures to the COVID-19 pandemic over time: Do antisocial traits matter? <strong>Personality and Individual Differences<\/strong>, v. 168, p. 1\u20136, jan. 2021.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*<strong>Andr\u00e9 Lemos <\/strong>\u00e9 Professor Titular da FACOM\/UFBA e Pesquisador 1A do CNPQ.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><strong>S\u00e9rie Lavits_Covid19<\/strong><\/h2>\n<p>A <strong>Lavits_Covid19: Pandemia, tecnologia e capitalismo de vigil\u00e2ncia<\/strong> \u00e9 um exerc\u00edcio de reflex\u00e3o sobre as respostas tecnol\u00f3gicas, sociais e pol\u00edticas que v\u00eam sendo dadas \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus, com especial aten\u00e7\u00e3o aos processos de controle e vigil\u00e2ncia. Tais respostas levantam problemas que se furtam a sa\u00eddas simples. A s\u00e9rie nos convoca a reinventar ideias, corpos e conex\u00f5es em tempos de pandemia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Andr\u00e9 Lemos * &nbsp; Agenciamento V\u00edrus Mostrei em dois artigos recentes como essa pandemia \u00e9, em primeiro lugar, um fen\u00f4meno materialmente constru\u00eddo (A Constru\u00e7\u00e3o do Novo Coronav\u00edrus) e como, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":8625,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"_EventAllDay":false,"_EventTimezone":"","_EventStartDate":"","_EventEndDate":"","_EventStartDateUTC":"","_EventEndDateUTC":"","_EventShowMap":false,"_EventShowMapLink":false,"_EventURL":"","_EventCost":"","_EventCostDescription":"","_EventCurrencySymbol":"","_EventCurrencyCode":"","_EventCurrencyPosition":"","_EventDateTimeSeparator":"","_EventTimeRangeSeparator":"","_EventOrganizerID":[],"_EventVenueID":[],"_OrganizerEmail":"","_OrganizerPhone":"","_OrganizerWebsite":"","_VenueAddress":"","_VenueCity":"","_VenueCountry":"","_VenueProvince":"","_VenueState":"","_VenueZip":"","_VenuePhone":"","_VenueURL":"","_VenueStateProvince":"","_VenueLat":"","_VenueLng":"","_VenueShowMap":false,"_VenueShowMapLink":false,"footnotes":""},"categories":[978],"tags":[],"tematica":[936,938,940],"destaque":[],"class_list":["post-9219","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-lavits_covid19-es","tematica-tecnologia-e-sociedade-es","tematica-tecnologias-digitais-es","tematica-tecnopoliticas-es"],"blocksy_meta":{"styles_descriptor":{"styles":{"desktop":"","tablet":"","mobile":""},"google_fonts":[],"version":6}},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9219","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9219"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9219\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9220,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9219\/revisions\/9220"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8625"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9219"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9219"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9219"},{"taxonomy":"tematica","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tematica?post=9219"},{"taxonomy":"destaque","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/destaque?post=9219"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}