{"id":9260,"date":"2020-09-15T17:38:19","date_gmt":"2020-09-15T20:38:19","guid":{"rendered":"https:\/\/lavits.bemvindo.co\/lavits_covid19_19-desengajamento-moral-e-paixoes-do-risco\/"},"modified":"2020-09-15T17:38:19","modified_gmt":"2020-09-15T20:38:19","slug":"lavits_covid19_19-desengajamento-moral-e-paixoes-do-risco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lavits.org\/es\/lavits_covid19_19-desengajamento-moral-e-paixoes-do-risco\/","title":{"rendered":"#19: Desengajamento moral e paix\u00f5es do risco"},"content":{"rendered":"<p><em>Por David Le Breton*<\/em><\/p>\n<p class=\"p1\"><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Alexandre Zarias<\/em><\/p>\n<p class=\"p1\"><em>Artigo originalmente publicado, no jornal <a href=\"https:\/\/www.lemonde.fr\/idees\/article\/2020\/08\/06\/coronavirus-ensemble-est-devenu-un-terme-de-circonstance_6048261_3232.html\">Le Monde<\/a>, em 06 de agosto de 2020.**<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\">Apesar das recomenda\u00e7\u00f5es para conter uma poss\u00edvel nova onda do cont\u00e1gio pelo coronav\u00edrus, muitas pessoas se recusam a colocar a m\u00e1scara e a observar os cuidados de preven\u00e7\u00e3o. Festas s\u00e3o organizadas desconsiderando qualquer recomenda\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria. A ambival\u00eancia est\u00e1 na ordem do dia e \u00e0s vezes se exprime de forma quase ing\u00eanua quando os foli\u00f5es declaram que entendem a necessidade do uso da m\u00e1scara ou da ado\u00e7\u00e3o de cuidados de preven\u00e7\u00e3o quando fazem suas compras, mas reivindicam o direito de relaxar em determinados momentos desses encontros festivos. Um \u00abEu sei, mas mesmo assim\u00bb rege seus comportamentos. Trata-se de renunciar aos prazeres elementares, alimentando o gosto pela vida por um benef\u00edcio hipot\u00e9tico, um ganho de seguran\u00e7a que n\u00e3o \u00e9 necessariamente percebido como invej\u00e1vel a tal pre\u00e7o. Trata-se de gozar sua exist\u00eancia sem levar em conta o pre\u00e7o a pagar e, \u00e0s vezes, sem se preocupar com os outros ao seu redor. Na exist\u00eancia real, a afetividade \u00e9 sempre prim\u00e1ria e subordina uma racionalidade, a qual \u00e9 reformulada sempre de acordo com as circunst\u00e2ncias. Ciente do perigo, o indiv\u00edduo persiste em sua conduta por causa do prazer que obt\u00e9m ou porque considera que os outros n\u00e3o s\u00e3o ele e que, no que lhe diz respeito, nada h\u00e1 a temer.<\/p>\n<p class=\"p1\">As justificativas s\u00e3o por vezes amb\u00edguas: \u201cSomos jovens, n\u00e3o corremos riscos, n\u00e3o amea\u00e7amos nada\u201d. Uma jovem diz baixinho: \u00abN\u00f3s somos jovens, n\u00e3o somos obesos, n\u00e3o somos diab\u00e9ticos, por que nos privar?\u201d. No entanto, eles podem estar contaminados e transmitir o v\u00edrus a seus pais, parentes ou an\u00f4nimos quando usam o transporte p\u00fablico ou em outro lugar. Ajuntamentos de pessoas desprotegidas s\u00e3o matrizes potenciais de contamina\u00e7\u00e3o. A liberdade de \u201caproveitar a vida\u201d como certas pessoas afirmam \u00e9 tamb\u00e9m, paralelamente, uma liberdade para propagar o v\u00edrus. O \u201cn\u00e3o colocamos nada em perigo\u201d \u00e9 um frase terr\u00edvel, uma maneira de dizer, \u201cdepois de mim, o dil\u00favio\u201d. Os jovens festeiros estatisticamente correm menos riscos do que os mais velhos, mas, muitas vezes, s\u00e3o portadores assintom\u00e1ticos do v\u00edrus, que espalham junto aos seus parentes ou de pessoas an\u00f4nimas quando circulam pela cidade ou em suas pr\u00f3prias resid\u00eancias.<\/p>\n<p class=\"p1\">Esses gestos demonstrativos de contato f\u00edsico, sem m\u00e1scara, ou essas festas em que n\u00e3o se observam os cuidados de preven\u00e7\u00e3o traduzem uma maneira de se sentir imune \u00e0s leis comuns. \u00abN\u00f3s n\u00e3o fazemos isso com eles!\u00bb Eles se libertam da autoridade pol\u00edtica ou m\u00e9dica considerada paternalista. Eles mostram que s\u00e3o corajosos. Que um min\u00fasculo v\u00edrus n\u00e3o lhes faz medo. Eles riem daqueles que se protegem. Eles vivem a for\u00e7a da transgress\u00e3o. Por\u00e9m, no dia seguinte, durante a pausa para o caf\u00e9, no trabalho, ou no escrit\u00f3rio, retornando para casa, alguns disseminam o v\u00edrus pelo caminho. N\u00e3o cabe a eles argumentar, mas mostrar sua indiferen\u00e7a, como um jovem entrevistado: \u00aba gente t\u00e1 nem a\u00ed\u00bb. Eles n\u00e3o se sentem respons\u00e1veis. Rompem o la\u00e7o social afirmando um puro gozo que n\u00e3o tolera nenhum obst\u00e1culo, independentemente das poss\u00edveis consequ\u00eancias para com os outros dessas m\u00faltiplas conex\u00f5es. Eles est\u00e3o na sociedade, mas n\u00e3o formam mais a sociedade.<\/p>\n<p class=\"p1\">Durante o confinamento ou ap\u00f3s a manuten\u00e7\u00e3o das medidas preventivas de sa\u00fade, nenhuma coletividade conseguiu construir uma unidade. O arcabou\u00e7o \u00e9tico e normativo fixado por m\u00e9dicos e pol\u00edticos, se \u00e9 que algum foi globalmente respeitado, n\u00e3o cessou de ser contestado nessas margens. As <i>lockdown parties<\/i> (festas de confinamento) existiram durante todo o per\u00edodo de confinamento. Elas ocorreram clandestinamente, recrutando as jovens gera\u00e7\u00f5es por meio de redes sociais. As festas desenrolaram-se em resid\u00eancias privadas ou em im\u00f3veis de aluguel de curta dura\u00e7\u00e3o. Algumas delas provocaram conflitos entre vizinhos por conta do barulho e das perturba\u00e7\u00f5es ocasionadas. Locais foram invadidos por foli\u00f5es que pouco se importavam com medidas de prote\u00e7\u00e3o ou com o uso de m\u00e1scaras. As medidas sanit\u00e1rias inexistentes colocaram em risco, portanto, a sa\u00fade das pessoas atentas \u00e0s medidas de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\">Nossas sociedades democr\u00e1ticas afirmam a igualdade dos atores, e rejeitam toda posi\u00e7\u00e3o de hierarquia. Os m\u00e9dicos, os infectologistas, os pol\u00edticos implicados nos chamados insistentes para a ado\u00e7\u00e3o de medidas de prote\u00e7\u00e3o s\u00e3o desautorizados. A legitimidade conferida aos pol\u00edticos por meio de elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 mais suficiente, nem mesmo a forma\u00e7\u00e3o dos cientistas. A recusa de toda forma de autoridade sustentada por uma opini\u00e3o multiplica as rela\u00e7\u00f5es de poder. A reivindica\u00e7\u00e3o de liberdade, entendida aqui como um distanciamento do coletivo, faz pouco caso do civismo solicitado pelas autoridades sanit\u00e1rias, traduzindo-se propriamente por um desengajamento moral. O la\u00e7o social se fragmenta num mosaico de indiv\u00edduos perseguindo seus pr\u00f3prios interesses com indiferen\u00e7a ao todo. \u201cJuntos\u00bb agora \u00e9 um termo ocasi\u00e3o quando se trata de compartilhar um momento de interesses privados. O indiv\u00edduo n\u00e3o se sente mais em liga\u00e7\u00e3o com os outros, ele n\u00e3o considera mais ter contas a prestar aos outros. A individualiza\u00e7\u00e3o crescente do sentido e da rela\u00e7\u00e3o<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>com o outro transforma o la\u00e7o social em pura utilidade e cada vez menos em exig\u00eancia moral. Desde ent\u00e3o, a soberania individual pena em tolerar limites.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*\u00a0<em><strong>David Le Breton<\/strong> \u00e9 professor de sociologia da Universidade de Estrasburgo, Fran\u00e7a, autor de v\u00e1rios livros traduzidos para l\u00edngua portuguesa, destacando-se Rostos: ensaio de antropologia (Vozes, 2019), Antropologia das emo\u00e7\u00f5es (Vozes, 2019) e Desaparecer de si: uma tenta\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea (Vozes, 2018).<\/em><\/p>\n<p>**\u00a0<em>Este texto foi originalmente publicado no Jornal Le Monde. Para acessar a publica\u00e7\u00e3o original, clique <a href=\"https:\/\/www.lemonde.fr\/idees\/article\/2020\/08\/06\/coronavirus-ensemble-est-devenu-un-terme-de-circonstance_6048261_3232.html\">aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n<h2><strong>S\u00e9rie Lavits_Covid19<\/strong><\/h2>\n<p>A <strong>Lavits_Covid19: Pandemia, tecnologia e capitalismo de vigil\u00e2ncia<\/strong> \u00e9 um exerc\u00edcio de reflex\u00e3o sobre as respostas tecnol\u00f3gicas, sociais e pol\u00edticas que v\u00eam sendo dadas \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus, com especial aten\u00e7\u00e3o aos processos de controle e vigil\u00e2ncia. Tais respostas levantam problemas que se furtam a sa\u00eddas simples. A s\u00e9rie nos convoca a reinventar ideias, corpos e conex\u00f5es em tempos de pandemia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por David Le Breton* Tradu\u00e7\u00e3o: Alexandre Zarias Artigo originalmente publicado, no jornal Le Monde, em 06 de agosto de 2020.** &nbsp; Apesar das recomenda\u00e7\u00f5es para conter uma poss\u00edvel nova onda [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":8514,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"_EventAllDay":false,"_EventTimezone":"","_EventStartDate":"","_EventEndDate":"","_EventStartDateUTC":"","_EventEndDateUTC":"","_EventShowMap":false,"_EventShowMapLink":false,"_EventURL":"","_EventCost":"","_EventCostDescription":"","_EventCurrencySymbol":"","_EventCurrencyCode":"","_EventCurrencyPosition":"","_EventDateTimeSeparator":"","_EventTimeRangeSeparator":"","_EventOrganizerID":[],"_EventVenueID":[],"_OrganizerEmail":"","_OrganizerPhone":"","_OrganizerWebsite":"","_VenueAddress":"","_VenueCity":"","_VenueCountry":"","_VenueProvince":"","_VenueState":"","_VenueZip":"","_VenuePhone":"","_VenueURL":"","_VenueStateProvince":"","_VenueLat":"","_VenueLng":"","_VenueShowMap":false,"_VenueShowMapLink":false,"footnotes":""},"categories":[978],"tags":[],"tematica":[871,920,934,936],"destaque":[],"class_list":["post-9260","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-lavits_covid19-es","tematica-covid-19-e-tecnologia-es","tematica-lutas-sociais-es","tematica-subjetividade-es","tematica-tecnologia-e-sociedade-es"],"blocksy_meta":{"styles_descriptor":{"styles":{"desktop":"","tablet":"","mobile":""},"google_fonts":[],"version":6}},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9260","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9260"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9260\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8514"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9260"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9260"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9260"},{"taxonomy":"tematica","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tematica?post=9260"},{"taxonomy":"destaque","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/destaque?post=9260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}