{"id":9409,"date":"2019-09-22T08:37:46","date_gmt":"2019-09-22T11:37:46","guid":{"rendered":"https:\/\/lavits.bemvindo.co\/o-que-sao-os-laboratorios-do-comum-por-henrique-parra\/"},"modified":"2019-09-22T08:37:46","modified_gmt":"2019-09-22T11:37:46","slug":"o-que-sao-os-laboratorios-do-comum-por-henrique-parra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lavits.org\/es\/o-que-sao-os-laboratorios-do-comum-por-henrique-parra\/","title":{"rendered":"O que s\u00e3o os \u201cLaborat\u00f3rios do Comum\u201d, por Henrique Parra"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"entry-content\">\n<p><em>Texto originalmente publicado no site do <a href=\"https:\/\/trama.pimentalab.net\/archives\/70\"><strong>Pimentalab<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os sentidos poss\u00edveis para essa express\u00e3o. \u201cLaborat\u00f3rio\u201d e \u201cComum\u201d s\u00e3o conceitos complexos e sob disputa.<\/p>\n<p>Aqui combinadas adquirem contornos espec\u00edficos gra\u00e7as a uma dupla articula\u00e7\u00e3o: cognitiva-epist\u00eamica e \u00e9tico-pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Falar em \u201claborat\u00f3rio\u201d significa adentrar as disputas sobre os modos, locais e formas de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. H\u00e1 sempre uma pol\u00edtica dos modos de conhecer.<\/p>\n<p>Falar em \u201cComum\u201d, substantivo, significa assumi-lo enquanto fundamento pol\u00edtico e ontol\u00f3gico. Interessa-nos tanto investigar o Comum, como produzir e organizar esse modo de conhecer (laborat\u00f3rio) sob a l\u00f3gica do Comum. Portanto, chamamos \u201cLaborat\u00f3rio do Comum\u201d a pr\u00e1tica dessa dupla experimenta\u00e7\u00e3o: simultaneamente cognitiva e pol\u00edtica. Pode-se dizer que o Laborat\u00f3rio do Comum \u00e9, portanto, um lugar de cria\u00e7\u00e3o de novas comunidades pol\u00edticas e epist\u00eamicas [<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/574031-a-politica-do-comum-e-do-prototipo-duas-alternativas-ao-mal-estar-contemporaneo-entrevista-especial-com-henrique-parra\">leia<\/a> a entrevista A Pol\u00edtica do Comum e do Prot\u00f3tipo].<\/p>\n<p>Um laborat\u00f3rio \u00e9 sobretudo um lugar de coinvestiga\u00e7\u00e3o, pesquisa e experimenta\u00e7\u00e3o. Trata-se de melhorar a qualidade das perguntas, dos modos de conhecer e das rela\u00e7\u00f5es que precisamos constituir para conhecer algo. Inspirados na passagem do \u201cparadigma do governo\u201d para o \u201cparadigma do habitar\u201d de Amador Fernandez-Savater, gostamos de dizer que um Labort\u00f3rio do Comum pratica um saber-fazer habitar, em oposi\u00e7\u00e3o ao saber-poder governar [<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/sem-categoria\/nova-cultura-politica-paradigma-do-habitar\/\">leia<\/a> o artigo <em>Nova cultura pol\u00edtica: o Paradigma do Habitar<\/em> do Amador Fernandez-Savater].<\/p>\n<p>O espa\u00e7o que chamamos de laborat\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 um lugar limpinho, ass\u00e9ptico e onde o que se investiga pode ser separado do mundo \u201cl\u00e1 fora\u201d.<\/p>\n<p>Nosso laborat\u00f3rio \u00e9 parte do mundo e \u00e9 atravessado por ele. \u00c9 um laborat\u00f3rio contaminado. Ao dizer que \u00e9 da ordem do \u201cComum\u201d significa que ele n\u00e3o separa o mundo entre n\u00f3s (os que investigam) e os outros (sujeitos\/objetos da investiga\u00e7\u00e3o). O Comum funda portanto uma rela\u00e7\u00e3o de copertencimento e interdepend\u00eancia. Investiga-se e trabalha-se sobre o Comum que nos afeta e que nos constitui enquanto uma comunidade de afetados. Nada mais distante de um Laborat\u00f3rio do Comum do que o chamado \u201ctrabalho de base\u201d. Quem diz \u201cbase\u201d funda uma geografia onde \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d est\u00e3o separados por diversas assimetrias (conhecimento, pertencimento, consci\u00eancia\u2026).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o pensamos num laborat\u00f3rio operado pelos experts ou especialistas. Um laborat\u00f3rio do Comum, como descreve Antonio Lafuente, \u00e9 uma pr\u00e1tica onde o saber da experi\u00eancia adquire maior dignidade e centralidade. Ao dizer que \u201ctodos somos experts em experi\u00eancia\u201d Lafuente opera uma simetriza\u00e7\u00e3o que modifica radicalmente a rela\u00e7\u00e3o e as hierarquias entre os participantes do laborat\u00f3rio. Por isso, um Laborat\u00f3rio do Comum n\u00e3o \u00e9 um curso, tampouco se organiza segundo a l\u00f3gica pedag\u00f3gica-formativa, e muito menos deseja criar algo que vai ser aplicado ou transmitido a outras pessoas ou lugares [<a href=\"https:\/\/pimentalab.milharal.org\/2017\/12\/12\/sentidos-de-um-laboratorio-cidadao-por-antonio-lafuente\/\">leia<\/a> essa entrevista com Antonio Lafuente \u2013 Sentidos de um Laborat\u00f3rio Cidad\u00e3o].<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de produzir diagn\u00f3sticos para informar uma a\u00e7\u00e3o de governo. O Comum \u00e9 da ordem da diferen\u00e7a, da multiplicidade e da singularidade. Por isso, o Comum n\u00e3o se confunde com a produ\u00e7\u00e3o de maiorias, de normatiza\u00e7\u00f5es\/padroniza\u00e7\u00f5es ou a disputa por hegemonia. A distin\u00e7\u00e3o entre micro e macro n\u00e3o se aplica aqui. O Comum \u00e9 transversal \u00e0 micro e \u00e0 macropol\u00edtica, \u00e9 outra geometria, pertence \u00e0 dimens\u00e3o imanente da vida [<a href=\"https:\/\/pimentalab.milharal.org\/2018\/07\/16\/politicas-do-comum-aliancas-entre-o-sensivel-e-o-intangivel\/\">leia<\/a> Pol\u00edticas do Comum: alian\u00e7as entre o sens\u00edvel e o intang\u00edvel].<\/p>\n<p>O Laborat\u00f3rio pratica uma forma de conhecer que emerge e sustenta um determinado \u201cComum\u201d, dando forma a essa comunidade de praticantes, que se re\u00fane em torno deste Comum. O Comum n\u00e3o \u00e9 um objeto, uma ess\u00eancia, uma coisa. Ele \u00e9 de ordem relacional, da coprodu\u00e7\u00e3o e do inapropri\u00e1vel (precisa deixar de ser Comum para ser apropri\u00e1vel). \u00c9 produzido entre todos e n\u00e3o \u00e9 de ningu\u00e9m. Mesmo o \u201car\u201d ou a \u201clinguagem\u201d para que seja um \u201cComum\u201d, deve estar submetido a rela\u00e7\u00f5es que o produzam enquanto um Comum. A hist\u00f3ria do capitalismo pode ser contada, de certa maneira, como uma hist\u00f3ria da crescente coloniza\u00e7\u00e3o, codifica\u00e7\u00e3o, cercamento, expropria\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o do Comum, em suas diferentes express\u00f5es. E nessa hist\u00f3ria, como nos relata Silvia Federici, as mulheres sempre estiveram em posi\u00e7\u00e3o de combate \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o do Comum. [FEDERICI, Silvia. Sobre o feminismo e os comuns. <a href=\"https:\/\/www.editoraelefante.com.br\/federici-sobre-o-feminismo-e-os-comuns\/\">Acesse<\/a>].<\/p>\n<p>Para que um laborat\u00f3rio aconte\u00e7a, algumas coisas devem estar presentes: \u00e9 preciso alguma infraestrutura, \u00e9 necess\u00e1rio que se respeitem determinados acordos e sobretudo, \u00e9 preciso que se constitua um coletivo de trabalhadores capaz de elaborar uma linguagem e sentidos compartilhados. No caso de um laborat\u00f3rio situado (sobre um problema, um territ\u00f3rio ou uma coletividade qualquer), como \u00e9 nosso caso, a constitui\u00e7\u00e3o de um laborat\u00f3rio \u00e9 insepar\u00e1vel da constitui\u00e7\u00e3o dessa comunidade que lhe sustenta. A convocat\u00f3ria lan\u00e7ada, a partir de alguns problemas ou inquieta\u00e7\u00f5es, tem o objetivo de interpelar e talvez convocar pessoas que se sintam afetadas por essas mesmas inquieta\u00e7\u00f5es. <a href=\"https:\/\/trama.pimentalab.net\/archives\/33\">Neste post<\/a> listamos algumas dimens\u00f5es pr\u00e1ticas que d\u00e3o forma a um Laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de problemas e controv\u00e9rsias, num laborat\u00f3rio tamb\u00e9m se fabricam coisas: rela\u00e7\u00f5es, evid\u00eancias, artefatos, processos etc. Achamos importante essa passagem de uma a\u00e7\u00e3o exclusivamente discursiva para uma a\u00e7\u00e3o de composi\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de arranjos sociot\u00e9cnicos. Como fazer prosperar a produ\u00e7\u00e3o do Comum? Um laborat\u00f3rio \u00e9 um lugar de uma a\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica, transitando da reivindica\u00e7\u00e3o e do protesto para as a\u00e7\u00f5es de cria\u00e7\u00e3o e prototipagem. Por isso, ainda que provis\u00f3rio, parcial e tentativo, \u00e9 importante que o Laborat\u00f3rio se organize para \u201cproduzir\u201d algo ao fim de um determinado percurso. \u00c9 um desafio importante experimentar no aqui-agora habitar os problemas que enfrentamos. <a href=\"https:\/\/pimentalab.milharal.org\/2018\/03\/17\/do-protesto-aos-arranjos-tecnopoliticos-recursividade-e-reticulacao\/\">Caracterizamos<\/a> essa disposi\u00e7\u00e3o como \u201cpol\u00edtica do prot\u00f3tipo\u201d<\/p>\n<p>O \u201cLaborat\u00f3rio do Comum Campos El\u00edseos: tecnopol\u00edticas do fazer-bairro\u201d inicia-se como um projeto de extens\u00e3o da Unifesp. Tem, evidentemente, as marcas do ac\u00famulo do nosso trabalho no <a href=\"https:\/\/pimentalab.milharal.org\">Pimentalab<\/a> e noutros espa\u00e7os de atua\u00e7\u00e3o. Mas ele deseja ser uma plataforma aberta para adentrar em outras individua\u00e7\u00f5es coletivas, devir outra coisa junto aos participantes. Ele foi concebido para se desenrolar em at\u00e9 dois anos. Neste momento, lan\u00e7amos os primeiros passos para uma primeira vers\u00e3o. Esperamos ir adensando nossa pr\u00e1tica coletiva, criar mais corpo, ganhar novas capacidades para os pr\u00f3ximos passos. Faremos encontros coletivos de investiga\u00e7\u00e3o e atividades pr\u00e1ticas para a cria\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es coletivas. Os desdobramentos e os resultados s\u00e3o indeterminados. Mas, queremos cuidar para que o processo d\u00ea forma a uma mesopol\u00edtica, uma pol\u00edtica do \u201centre\u201d, uma capacidade de produzir alian\u00e7as e composi\u00e7\u00f5es inesperadas que ampliem a pot\u00eancia de nossas pr\u00e1ticas do Comum, logo, gerando mais sa\u00fade e alegria.<\/p>\n<p>A convocat\u00f3ria para participar do Laborat\u00f3rio do Comum Campos El\u00edseos est\u00e1 aberta at\u00e9 25 de setembro, <a href=\"https:\/\/trama.pimentalab.net\/777\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Publicado em: <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/cidadesemtranse\/o-que-sao-os-laboratorios-do-comum\/\">https:\/\/outraspalavras.net\/cidadesemtranse\/o-que-sao-os-laboratorios-do-comum\/<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Texto originalmente publicado no site do Pimentalab S\u00e3o muitos os sentidos poss\u00edveis para essa express\u00e3o. \u201cLaborat\u00f3rio\u201d e \u201cComum\u201d s\u00e3o conceitos complexos e sob disputa. 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