{"id":9411,"date":"2019-09-07T08:28:42","date_gmt":"2019-09-07T11:28:42","guid":{"rendered":"https:\/\/lavits.bemvindo.co\/modos-de-fazer-e-conhecer-etica-e-politica\/"},"modified":"2022-05-19T17:23:17","modified_gmt":"2022-05-19T20:23:17","slug":"modos-de-fazer-e-conhecer-etica-e-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lavits.org\/es\/modos-de-fazer-e-conhecer-etica-e-politica\/","title":{"rendered":"Modos de fazer e conhecer, \u00e9tica e pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"entry-content\">\n<p><em>Texto originalmente publicado no site do <a href=\"https:\/\/trama.pimentalab.net\/archives\/33\"><strong>Pimentalab<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>Os laborat\u00f3rios de inova\u00e7\u00e3o social, no sentido que aqui estamos praticando, funcionam sob um complexo arranjo sociot\u00e9cnico, simultaneamente simb\u00f3lico e material, normativo e pragm\u00e1tico. H\u00e1 uma pol\u00edtica cognitiva que se manifesta numa \u00e9tica e num conjunto de pr\u00e1ticas e tecnologias relacionadas ao modo de conhecer. H\u00e1 uma tecnopol\u00edtica que se realiza nas configura\u00e7\u00f5es das media\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas da intera\u00e7\u00e3o social. H\u00e1 uma economia pol\u00edtica, relativa ao regime de propriedade, posse e uso dos bens e recursos produzidos. H\u00e1 uma pol\u00edtica experimental que se realiza atrav\u00e9s de processos instituintes de novas comunidades. Em s\u00edntese, um laborat\u00f3rio de inova\u00e7\u00e3o social realiza-se com uma combina\u00e7\u00e3o de: abertura; colabora\u00e7\u00e3o; cuidado; media\u00e7\u00e3o; documenta\u00e7\u00e3o; infraestruturas; tecnologias; protocolos; comunidades; prot\u00f3tipos e produ\u00e7\u00e3o do comum. Trata-se de uma trama com muitas camadas, e para que cada um desses elementos se efetive ele precisa ser atravessado pelos demais.<\/p>\n<h3><strong>Abertura e Colabora\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de conhecimentos no contexto dos laborat\u00f3rio \u00e9 aberta, situada e colaborativa. Abertura no sentido de que todos devem ser capazes de aportar uma nova perspectiva, h\u00e1 contraste de argumentos e a possibilidade de n\u00e3o bloquear uma controv\u00e9rsia; isso tamb\u00e9m significa queo conhecimento aberto \u00e9 sempre provis\u00f3rio. Ele n\u00e3o visa encerrar um debate ou um problema, mas ao contr\u00e1rio, torn\u00e1-lo mais denso, mais rico e complexo. \u00c9 colaborativo porque \u00e9 feito entre todos, com o maior n\u00famero de perspectivas e atores poss\u00edveis. \u00c9 situado porque \u00e9 produzido em contextos espec\u00edficos e reconhece o car\u00e1ter parcial, corporificado e perspectivo dos conhecimentos. Mas para que isso ocorra certas condi\u00e7\u00f5es devem ser respeitadas para que diferentes atores possam participar. Essas condi\u00e7\u00f5es implicam em: infraestruturas mais abertas e horizontais; documenta\u00e7\u00e3o rigorosa, acess\u00edvel e reproduz\u00edvel; protocolos (para tecnologias e regime de propriedade) que garantam abertura e controle pelos participantes. Nos laborat\u00f3rios tais caracter\u00edsticas podem alcan\u00e7adas mediante diferentes estrat\u00e9gias: 1) defini\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de protocolos que regulam as condi\u00e7\u00f5es de participa\u00e7\u00e3o dos m\u00faltiplos atores e o regime de acesso e propriedade sobre os bens e recursos produzidos, mediante a ado\u00e7\u00e3o de licen\u00e7as de propriedade intelectual alternativas (FairLicences, Creative Commons, Copypeft, Peer2Peer Licences, GPL); 2) defini\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas f\u00edsicas e do local de realiza\u00e7\u00e3o do laborat\u00f3rio, de forma a propiciar condi\u00e7\u00f5es de maior abertura \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico interessado; 3) defini\u00e7\u00e3o da comunidade de afetados, p\u00fablico concernido ou problema espec\u00edfico que ser\u00e1 abordado.<\/p>\n<h3><strong>Protocolos, tecnologias e infraestruturas<\/strong><\/h3>\n<p>Modos de tornar dur\u00e1vel uma certa configura\u00e7\u00e3o social; s\u00e3o tamb\u00e9m formas de transmiss\u00e3o de uma ag\u00eancia; e criam determina\u00e7\u00f5es sobre um conjunto de intera\u00e7\u00f5es que ocorrem atrav\u00e9s delas (Latour, 1990; 1994). O desenho dos protocolos, das tecnologias e das infraestruturas utilizadas num laborat\u00f3rio comp\u00f5em uma tecnopol\u00edtica. Tecnologias baseadas em software e hardware livre; protocolos de dados abertos; licen\u00e7as autorais alternativas que fortale\u00e7am a livre apropria\u00e7\u00e3o e uso dos conhecimentos e prot\u00f3tipos produzidos; infraestruturas que amplifiquem a autonomia e autogest\u00e3o da pr\u00f3pria comunidade sobre o processo desenvolvido s\u00e3o algumas das op\u00e7\u00f5es adotadas pelos laborat\u00f3rios. A infraestrutura aqui pode ser tanto a plataforma de comunica\u00e7\u00e3o online utilizada, como o espa\u00e7o f\u00edsico utilizado para o encontro. S\u00e3o infraestruturas que promovem uma intera\u00e7\u00e3o mais aberta e solid\u00e1ria? S\u00e3o infraestruturas que restringem o acesso e a participa\u00e7\u00e3o? Os protocolos s\u00e3o mobilizados como tecnologias sociais capazes de \u201cautomatizar\u201d ou \u201cfacilitar\u201d a resolu\u00e7\u00e3o de certos problemas ou a ado\u00e7\u00e3o de procedimentos que produzem resultados desejados. Em algumas situa\u00e7\u00f5es contribuem para dar agilidade a processos em que \u00e9 necess\u00e1rio tomar uma decis\u00e3o. Eles oferecem estrat\u00e9gias, recursos, procedimentos para situa\u00e7\u00f5es determinadas. Por\u00e9m, devem sempre ser aplicados com respeito ao contexto de efetiva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 protocolo social que possa ser alheio aos efeitos provocados num determinado contexto de aplica\u00e7\u00e3o. Por exemplo, documentar de forma aberta o prot\u00f3tipo desenvolvido \u00e9 um protocolo que est\u00e1 presente em quase todos os laborat\u00f3rios. A prescri\u00e7\u00e3o de que um grupo que seja mais heterog\u00eaneo \u00e9 um protocolo social que influi na composi\u00e7\u00e3o dos membros de um laborat\u00f3rio. A escolha por um espa\u00e7o onde as pessoas possam interagir de forma mais ativa, horizontal e dial\u00f3gica implica num desenho de uma infraestrutura espacial. Mas tamb\u00e9m, como nos indica os trabalhos de Corsin e Estalella (2016), a pr\u00f3pria pr\u00e1tica de documenta\u00e7\u00e3o vai gradualmente se constituindo como uma infraestrutura que sustenta uma comunidade de praticantes. \u00c9 no campo dessa tecnopol\u00edtica que vimos emergir novas preocupa\u00e7\u00f5es em torno da autonomia e soberania tecnol\u00f3gica, ou na busca por arquiteturas (de tecnologias da informa\u00e7\u00e3o) mais descentralizadas e distribu\u00eddas, permitindo minimizar a depend\u00eancia corporativa ou estatal. A infraestrutura torna poss\u00edvel a exist\u00eancia continuada de uma a\u00e7\u00e3o. Ela d\u00e1 o suporte \u00e0s pr\u00e1ticas e modos de exist\u00eancia de uma determinada comunidade, que transforma e sustenta essas infraestruturas em um comum.<\/p>\n<h3><strong>Documentar<\/strong><\/h3>\n<p>O ato de registrar, sistematizar, organizar e publicizar o conhecimento produzido \u00e9 uma pr\u00e1tica transversal a muitos laborat\u00f3rios. Ela \u00e9 um bom exemplo do encontro entre a cultura dos ativistas e programadores do software livre com a cultura cient\u00edfica de pesquisadores interessados no produ\u00e7\u00e3o e no livre acesso ao conhecimento. N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que muitos dos processos vividos nos laborat\u00f3rios s\u00f3 existem porque s\u00e3o documentados, ou, como dizem, o que n\u00e3o est\u00e1 documentado n\u00e3o aconteceu. A documenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas o registro dos resultados ou a receita objetiva do \u201ccomo fazer\u201d. Uma boa documenta\u00e7\u00e3o deve ser capaz de comunicar os fatos objetivos, os detalhes dos procedimentos, mas tamb\u00e9m as d\u00favidas, os problemas enfrentados e as escolhas que foram feitas. O mais desafiante \u00e9 tornar vis\u00edvel e comunic\u00e1vel as dimens\u00f5es subjetivas, afetivas, t\u00e1citas que emergem durante o trabalho coletivo e que muitas vezes s\u00e3o exclu\u00eddas nos processos habituais de documenta\u00e7\u00e3o. Como indicar os momentos de aprendizagem coletiva? Como descrever o contexto e os vetores que influenciaram uma importante decis\u00e3o se frequentemente negligenciamos esses elementos e registramos apenas o resultado, quando o principal estava no processo? A documenta\u00e7\u00e3o visa combater o desperd\u00edcio da experi\u00eancia, potencializar a intelig\u00eancia coletiva. A replicabilidade alcan\u00e7ada de um processo ou prot\u00f3tipo talvez seja o melhor indicador de \u201cimpacto\u201d da documenta\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma pol\u00edtica do sens\u00edvel, uma pol\u00edtica da escrita (nos termos de Ranci\u00e8re) neste ato de documentar, uma vez que ele produz um mundo compartilhado, dando a ver determinados processos e objetos, criando tamb\u00e9m sua comunidade de \u201cleitores\u201d. Esta documenta\u00e7\u00e3o implica, portanto, em protocolos, tecnologias, infraestruturas e muita media\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>Media\u00e7\u00e3o e Cuidado<\/strong><\/h3>\n<p>Criar uma linguagem comum, promover uma intera\u00e7\u00e3o mais equilibrada entre os part\u00edcipes que assuma suas (nossas) diferen\u00e7as produzindo a possibilidade de alia\u00e7as epistemol\u00f3gicas poss\u00edveis que integram um laborat\u00f3rio \u00e9 uma arte. A documenta\u00e7\u00e3o, por exemplo, s\u00f3 \u00e9 bem sucedida quando os participantes conseguem estabelecer um linguagem comum para descrever o que est\u00e3o fazendo. A media\u00e7\u00e3o, como argumenta Juan Freire e Antonio Lafuente, \u00e9 uma arte da escuta, e est\u00e1 profundamente ligada \u00e0 capacidade de \u201cinfraestruturar os cuidados, faz\u00ea-los vis\u00edveis atrav\u00e9s de pr\u00e1ticas concretas\u201d (LAFUENTE; GOM\u00c9S; FREIRE, 2017). Mediar e cuidar envolve identificar processos sutis que produzem silenciamentos ou protagonismos habituais, desnaturalizar e desconstruir as pr\u00e1ticas de coordena\u00e7\u00e3o e lideran\u00e7a, reconhecendo as din\u00e2micas formais e informais que criam ou reproduzem estruturas formais e informais de micropoder em coletivos. O cuidado, nesta perspectiva, emerge como uma \u00e9tica, uma pr\u00e1tica e uma materialidade. O cuidado \u00e9 um trabalho do corpo, \u00e9 um trabalho material. N\u00e3o \u00e9 algo abstrato, imaterial ou mera express\u00e3o subjetiva. Quando uma pol\u00edtica do cuidado faz-se presente num laborat\u00f3rio as a\u00e7\u00f5es de media\u00e7\u00e3o efetivam-se com atos materiais que produzem e sustentam os v\u00ednculos e os entes envolvidos. Como indicam Freire e Lafuente, a media\u00e7\u00e3o deve promover a \u201ctoler\u00e2ncia com a incerteza e com os indecisos\u201d; para experimentar, escutar e colaborar \u00e9 necess\u00e1rio apreciar a lentid\u00e3o. Certos protocolos para a desacelera\u00e7\u00e3o podem ent\u00e3o ser acionados pela media\u00e7\u00e3o para tornar a escuta poss\u00edvel. O mesmo ocorre para a manuten\u00e7\u00e3o da comunidade: \u00e9 necess\u00e1rio muito cuidado para se evitar o chamado \u201cfork\u201d. Mas para que seja poss\u00edvel \u00e9 necess\u00e1rio habitar, por mais tempo, as situa\u00e7\u00f5es de incerteza. As escolhas que emergem nesses processos fortalecem a comunidade, e ao mesmo tempo s\u00e3o percebidas como um marco de uma aprendizagem coletiva que modifica, com frequ\u00eancia, a rota do projeto. Documentar esses momentos significa evidenciar o \u201cmatters of care\u201d (BELLACASA, 2010) que participam dos processos e que s\u00e3o invisibilizadas, mas implica tamb\u00e9m em responsabilizar-se pelos efeitos da a\u00e7\u00e3o. Cuidar de um v\u00ednculo, de uma tarefa no coletivo, significa responsabilizar-se por algo. N\u00e3o \u00e9 suficiente \u201cter consci\u00eancia\u201d, \u00e9 necess\u00e1rio responsabilizar-se, agir. Uma pol\u00edtica do cuidado implica, portanto, num deslocamento do saber-poder governar ao saber-fazer habitar (no t\u00f3pico seguinte desenvolvo este argumento).<\/p>\n<h3><strong>Comunidade<\/strong><\/h3>\n<p>Um laborat\u00f3rio cidad\u00e3o \u00e9 um lugar de fabrica\u00e7\u00e3o de comunidades. Para que um projeto de laborat\u00f3rio possa se desenvolver, \u00e9 necess\u00e1rio que ele produza uma nova comunidade que sustente este laborat\u00f3rio. Neste sentido, os diferentes atores devem infraestruturar as condi\u00e7\u00f5es (materiais e simb\u00f3licas) que permitem que o laborat\u00f3rio aconte\u00e7a. O laborat\u00f3rio visa produzir um conhecimento, um artefato, um processo, um prot\u00f3tipo, que amplia o entendimento sobre um problema comum, e que permita uma a\u00e7\u00e3o compartilhada sobre ele. Diferentemente da forma\u00e7\u00e3o de uma comunidade identit\u00e1ria, onde os atores re\u00fanem-se a partir de elementos previamente constitu\u00eddos que d\u00e3o forma \u00e0 identidade (por exemplo, nacionalidade), no laborat\u00f3rio surge uma comunidade de atores distintos que partilham o interesse de enfrentamento de um problema (cient\u00edfico, social, pol\u00edtico etc), e para investig\u00e1-lo \u00e9 necess\u00e1rio inventar uma forma de conviver. \u00c9 por isso que Lafuente dir\u00e1 que os laborat\u00f3rios cidad\u00e3os s\u00e3o espa\u00e7os da experimenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Mas um laborat\u00f3rio tamb\u00e9m fabrica comunidades por um outro caminho quando, por exemplo, ele d\u00e1 exist\u00eancia tang\u00edvel a um comum que est\u00e1 amea\u00e7ado. Quando se constitui um laborat\u00f3rio cidad\u00e3o sobre o \u201cbairro\u201d de uma cidade, o laborat\u00f3rio produzir\u00e1 \u201cevid\u00eancias\u201d sobre os elementos e suas rela\u00e7\u00f5es que participam do \u201cfazer bairro\u201d. Neste sentido, o laborat\u00f3rio participa da produ\u00e7\u00e3o do comum (a trama que faz bairro) que emerge com a comunidade que participa deste processo. Neste exemplo, percebemos como os laborat\u00f3rios cidad\u00e3os, nesta acep\u00e7\u00e3o, integram um outra ontologia pol\u00edtica. Nos dizeres de Lafuente: \u201clas comunidades que crean y son creadas por los nuevos procomunes son entonces comunidades de afectados que se movilizan para no renunciar a las capacidades que permit\u00edan a sus integrantes el pleno ejercicio de su condici\u00f3n de ciudadanos o, incluso, de seres vivos (LAFUENTE, 2007).<\/p>\n<p>Nos laborat\u00f3rios, portanto, esta no\u00e7\u00e3o de comunidade \u00e9 indissociavelmente epist\u00eamica e pol\u00edtica. A aposta que a\u00ed se enuncia \u00e9 que o laborat\u00f3rio seria tamb\u00e9m o lugar onde abrimos e acolhemos as controv\u00e9rsias, criando novos conhecimentos, objetos e artefatos; remontamos o social (reassembling the social) atrav\u00e9s da constitui\u00e7\u00e3o de novos sujeitos (cognitivos e pol\u00edticos) que emergem n\u00e3o a partir de categorias previamente constitu\u00eddas que vem reivindicar um direito institu\u00eddo, mas a partir da produ\u00e7\u00e3o do comum instituinte (LAVAL &amp; DARDOT, 2016) de novos direitos.<\/p>\n<h3><strong>Prototipar<\/strong><\/h3>\n<p>Prototipar \u00e9 uma pr\u00e1tica que torna o laborat\u00f3rio o espa\u00e7o de uma dupla experimenta\u00e7\u00e3o: um modo de conhecer e um modo de intervir politicamente no mundo. \u00c9 isso que torna o laborat\u00f3rio, na acep\u00e7\u00e3o de Lafuente e diversos grupos que atuam nesta campo, um espa\u00e7o de inven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O prot\u00f3tipo \u00e9 aqui compreendido como express\u00e3o da passagem de uma cultura do protesto para uma cultura da experimenta\u00e7\u00e3o. Tal abordagem \u00e9, na realidade, muito cara \u00e0s vertentes cr\u00edticas dos estudos sociais de ci\u00eancia e tecnologia, onde a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, ci\u00eancia e tecnologia \u00e9 indissoci\u00e1vel dos processos de natureza pol\u00edtica. Navegamos, evidentemente, no territ\u00f3rio das entidades h\u00edbridas.<\/p>\n<p><strong>Prototipar como forma de conhecer<\/strong><\/p>\n<p>Significa levar a s\u00e9rio o fato de que todo processo de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento \u00e9 tamb\u00e9m um ato de interven\u00e7\u00e3o no mundo. Uma pesquisa que se realiza atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de um prot\u00f3tipo deve incorporar na sua an\u00e1lise os efeitos e as consequ\u00eancias do que ela est\u00e1 produzindo. \u00c9 tamb\u00e9m uma forma de conhecer baseada na indissociabilidade teoria e pr\u00e1tica. A no\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia ganha for\u00e7a: conhe\u00e7o algo que me acontece; sou part\u00edcipe e implicado com este processo de conhecer. Ao prototipar colocamos em movimento o problema que est\u00e1 sob investiga\u00e7\u00e3o. Ao fazer isso, criam-se novos problemas pelos quais somos respons\u00e1veis. Isso \u00e9 interessante porque a dimens\u00e3o \u00e9tica de qualquer pesquisa torna-se ainda mais vis\u00edvel e urgente, obrigando os pesquisadores a serem mais humildes, cautelosos e lentos. Dessa forma, uma pol\u00edtica do cuidado inscreve-se de maneira imanente ao processo de investiga\u00e7\u00e3o e prototipagem. Mas a no\u00e7\u00e3o de prot\u00f3tipo tamb\u00e9m pode indicar uma outra topografia entre diferentes atores envolvidos num processo de investiga\u00e7\u00e3o. O prot\u00f3tipo, nos casos que acompanhamos, baseiam-se em princ\u00edpios de abertura e colabora\u00e7\u00e3o. Isso significa que distintos saberes (indiv\u00edduos\/grupos) podem ser incorporados na produ\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o do prot\u00f3tipo. Produtores, pesquisadores, usu\u00e1rios, leigos e experts participam de formas distintas da trajet\u00f3ria do prot\u00f3tipo. A depender das condi\u00e7\u00f5es de participa\u00e7\u00e3o dos distintos p\u00fablicos o prot\u00f3tipo ter\u00e1 caracter\u00edsticas muito diferentes. Promover as condi\u00e7\u00f5es de sua cont\u00ednua apropria\u00e7\u00e3o e modifica\u00e7\u00f5es implica portanto num outro regime de propriedade sobre o conhecimento produzido e sobre o processo: deve-se trat\u00e1-lo como um comum (commons). Por fim, essa abertura implica no reconhecimento do car\u00e1ter sempre inacabado e transit\u00f3rio de todo processo de investiga\u00e7\u00e3o e aprendizado.<\/p>\n<p><strong>Prot\u00f3tipo e a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o de um prot\u00f3tipo envolve, primeiramente, a decis\u00e3o de substituir a ades\u00e3o a um projeto abstrato de sociedade futura pela decis\u00e3o de experimentar construir no aqui-agora, sempre parcialmente, aquela mudan\u00e7a que se deseja.[\u2026] \u00c9 portanto uma pol\u00edtica do cotidiano que busca introduzir modifica\u00e7\u00f5es nas formas de vida existentes. Quando ativistas ambientais criam, por exemplo, uma a\u00e7\u00e3o protot\u00edpica de uma alternativa de transporte nas cidades, ela deve ser minimamente capaz de se efetivar no mundo atual. Ou seja, trata-se de uma a\u00e7\u00e3o que reconhece as for\u00e7as em jogo e objetiva criar uma diferen\u00e7a capaz de resistir e persistir. Em alguns casos, a mera percep\u00e7\u00e3o da possibilidade de sua efetiva\u00e7\u00e3o gera efeitos de modifica\u00e7\u00e3o no horizonte de expectativas. Noutros casos, a constru\u00e7\u00e3o de um prot\u00f3tipo pode estar orientada para modificar as condi\u00e7\u00f5es do ambiente em que sua produ\u00e7\u00e3o\/reprodu\u00e7\u00e3o ocorre. Novamente, essas condi\u00e7\u00f5es \u201cambientais\u201d ou contextuais, s\u00e3o consideradas parte deste prot\u00f3tipo pol\u00edtico, indicando portanto a substitui\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o meios X fins, pela necess\u00e1ria combina\u00e7\u00e3o dos meios e fins. Por isso, essa no\u00e7\u00e3o de prot\u00f3tipo pode ser portadora de uma pol\u00edtica imanente ou de uma pol\u00edtica pelo \u201cmeio\u201d (pelo meio, par le millieu, mesopol\u00edtica, entre outros termos).<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Texto originalmente publicado no site do Pimentalab Os laborat\u00f3rios de inova\u00e7\u00e3o social, no sentido que aqui estamos praticando, funcionam sob um complexo arranjo sociot\u00e9cnico, simultaneamente simb\u00f3lico e material, normativo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":7973,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"_EventAllDay":false,"_EventTimezone":"","_EventStartDate":"","_EventEndDate":"","_EventStartDateUTC":"","_EventEndDateUTC":"","_EventShowMap":false,"_EventShowMapLink":false,"_EventURL":"","_EventCost":"","_EventCostDescription":"","_EventCurrencySymbol":"","_EventCurrencyCode":"","_EventCurrencyPosition":"","_EventDateTimeSeparator":"","_EventTimeRangeSeparator":"","_EventOrganizerID":[],"_EventVenueID":[],"_OrganizerEmail":"","_OrganizerPhone":"","_OrganizerWebsite":"","_VenueAddress":"","_VenueCity":"","_VenueCountry":"","_VenueProvince":"","_VenueState":"","_VenueZip":"","_VenuePhone":"","_VenueURL":"","_VenueStateProvince":"","_VenueLat":"","_VenueLng":"","_VenueShowMap":false,"_VenueShowMapLink":false,"footnotes":""},"categories":[589],"tags":[],"tematica":[889,900,914,911,922],"destaque":[],"class_list":["post-9411","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias-2","tematica-divulgacao-cientifica-es","tematica-epistemologias-es","tematica-infraestruturas-tecnologicas-es","tematica-infraestruturas-urbanas-es","tematica-producao-do-comum-es"],"blocksy_meta":{"styles_descriptor":{"styles":{"desktop":"","tablet":"","mobile":""},"google_fonts":[],"version":6}},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9411","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9411"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9411\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9412,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9411\/revisions\/9412"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7973"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9411"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9411"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9411"},{"taxonomy":"tematica","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tematica?post=9411"},{"taxonomy":"destaque","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/destaque?post=9411"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}