{"id":9553,"date":"2018-03-20T19:13:32","date_gmt":"2018-03-20T22:13:32","guid":{"rendered":"https:\/\/lavits.bemvindo.co\/o-rio-vem-sendo-usado-como-uma-especie-de-laboratorio-para-politica-de-seguranca-publica-fracassada-diz-secretario-da-faferj\/"},"modified":"2018-03-20T19:13:32","modified_gmt":"2018-03-20T22:13:32","slug":"o-rio-vem-sendo-usado-como-uma-especie-de-laboratorio-para-politica-de-seguranca-publica-fracassada-diz-secretario-da-faferj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lavits.org\/es\/o-rio-vem-sendo-usado-como-uma-especie-de-laboratorio-para-politica-de-seguranca-publica-fracassada-diz-secretario-da-faferj\/","title":{"rendered":"\u201cO Rio vem sendo usado como laborat\u00f3rio para pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica fracassada\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Logo ap\u00f3s o governo federal decretar a interven\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro, a forma\u00e7\u00e3o de uma Comiss\u00e3o Popular da Verdade foi proposta em uma plen\u00e1ria da Federa\u00e7\u00e3o de Favelas do Rio (Faferj). Contando com aproximadamente 800 associa\u00e7\u00f5es filiadas, a Faferj foi fundada em 1963 para fazer frente \u00e0 remo\u00e7\u00f5es de moradores de \u00e1reas de favela.<\/p>\n<p>Em entrevista, o secret\u00e1rio-geral da federa\u00e7\u00e3o, Fillipe dos Anjos, fala sobre a proposta dessa comiss\u00e3o que seria formada para investigar as arbitrariedades feitas em miss\u00f5es de \u201cGarantia da Lei e da Ordem\u201d (GLO) realizadas desde 1992. O Rio de Janeiro <a href=\"https:\/\/www.poder360.com.br\/governo\/rio-de-janeiro-e-estado-com-mais-glos-na-decada\/\">recebeu 17 dessas miss\u00f5es<\/a> apenas nessa d\u00e9cada. O secret\u00e1rio tamb\u00e9m integra o <a href=\"https:\/\/www.ucamcesec.com.br\/projeto\/observatorio-da-intervencao\/\">Observat\u00f3rio da Interven\u00e7\u00e3o<\/a>, que \u00e9 liderado pelo Centro de Estudos de Seguran\u00e7a e Cidadania (Cesec) da Universidade C\u00e2ndido Mendes, e visa fazer um levantamento sobre as opera\u00e7\u00f5es militares mais recentes no Rio de Janeiro. O Cesec possui um conselho formado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), pelo Observat\u00f3rio da Mar\u00e9, pela pr\u00f3pria Faferj, entre outras entidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>L.: Como est\u00e1 sendo feito esse trabalho que foi descrito pelo Jornal do Brasil como parte das atividades do Observat\u00f3rio da Interven\u00e7\u00e3o, entre elas <\/strong><a href=\"http:\/\/m.jb.com.br\/rio\/noticias\/2018\/03\/09\/rio-se-organiza-para-vigiar-a-intervencao-dos-militares\/\"><strong>\u201cter um grupo criptografado no Whatsapp para den\u00fancias an\u00f4nimas, que s\u00e3o encaminhadas para especialistas e tutoriais distribu\u00eddas na rede<\/strong><\/a><strong>\u201d? Como est\u00e1 o andamento dessas atividades?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fillipe dos Anjos:<\/strong> Nas redes sociais voc\u00ea pode ver que \u00e9 o trabalho do DefeZap.\u00a0 \u00c9 um trabalho anterior \u00e0 interven\u00e7\u00e3o federal militar aqui no Rio e visava o seguinte: o DefeZap recebe as den\u00fancias s\u00f3 pelo Whatsapp, pode ser \u00e1udio, v\u00eddeo \u2013 principalmente v\u00eddeo \u2013 para que essas den\u00fancias sejam apuradas. Atrav\u00e9s de mecanismos que mantenham o sigilo, elas s\u00e3o enviadas para um banco de dados, onde as pessoas v\u00e3o analisar e possivelmente fazer as den\u00fancias. O DefeZap n\u00e3o \u00e9 uma iniciativa da Faferj, mas s\u00e3o os companheiros que est\u00e3o a\u00ed nessa luta de den\u00fancia de viola\u00e7\u00e3o e de viol\u00eancia na favela, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo usando a tecnologia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>L.:Qual a sua percep\u00e7\u00e3o sobre as pr\u00e1ticas dos militares, tamb\u00e9m adotadas pela Pol\u00edcia Militar, de fotografar moradores de favelas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>F.D.A.:<\/strong> Isso \u00e9 um constrangimento, isso \u00e9 ilegal. Nas palestras que a Faferj sempre deu nas favelas difundimos que acreditamos no seguinte: os cidad\u00e3os tem direitos e deveres, isso faz parte da constitui\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o. Ser cidad\u00e3o \u00e9 isso, \u00e9 voc\u00ea cumprir com o seu dever e exigir os seus direitos. Em uma abordagem policial, o cidad\u00e3o \u00e9 obrigado a se identificar, \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o perante a autoridade que est\u00e1 abordando ele ali. Ent\u00e3o n\u00e3o posso, em hip\u00f3tese alguma, deixar de me identificar. Isso n\u00e3o significa que eu tenha que estar portando a identidade. Se eu lembrar o n\u00famero da identidade eu vou me identificar onde eu moro, meu nome todo e j\u00e1 estou identificado. \u00c9 dever do agente policial, se ele n\u00e3o se sentir satisfeito com a identifica\u00e7\u00e3o, que conduza o morador at\u00e9 a delegacia e l\u00e1 levante os n\u00fameros com a tecnologia necess\u00e1ria. Mas voc\u00ea abordar uma pessoa, fotograf\u00e1-la, a identidade e a pessoa, isso \u00e9 um constrangimento desnecess\u00e1rio, ilegal, e que n\u00e3o est\u00e1 em nenhuma regra de abordagem poss\u00edvel. A regra de abordagem tem que ser a mesma no asfalto e na favela. Orientamos as pessoas no seguinte: voc\u00ea se identifica ao agente que t\u00e1 lhe abordando, de prefer\u00eancia com o RG, que na favela&#8230; \u00e0s vezes voc\u00ea vai comprar um p\u00e3o ali na esquina e vai levar a identidade para comprar um p\u00e3o, se \u00e9 t\u00e3o perto? Na favela tem isso. Eu fa\u00e7o muita elei\u00e7\u00e3o em favela, que s\u00e3o aos domingos, quando as pessoas elei\u00e7\u00e3o para a associa\u00e7\u00e3o de moradores. Elas vem votar e muitas vezes n\u00e3o tem o RG e se a pessoa \u00e9 um morador conhecido tanto da chapa A quanto da chapa B, j\u00e1 convive com aquela pessoa h\u00e1 mais de 30 anos na favela, por que pedir a identidade? A gente orienta que as pessoas andem identificadas, mas a gente tamb\u00e9m n\u00e3o vai permitir que sejam feitas abordagens constrangedoras com os moradores.<\/p>\n<blockquote><p><em><strong>I<\/strong>sso faz parte de um preconceito, da ideia de que a favela como um todo \u00e9 marginal, isso faz parte de um processo de criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza, onde a favela \u00e9 um lugar a ser temido. <\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>A gente luta contra tudo isso. No fim, isso representa o preconceito, que \u00e9 estrutural, o preconceito se estruturou assim. A favela tem mais de 100 anos. Nesses \u00faltimos 100 anos ela tem sido vista como lugar errado de pessoas desonestas, lugar desorganizado. E quem est\u00e1 l\u00e1? Pessoas de respeito, que tem suas religi\u00f5es, que pagam seus impostos. O pobre paga infinitamente mais impostos, a carga tribut\u00e1ria incide muito mais sobre a popula\u00e7\u00e3o pobre e as pessoas s\u00e3o cidad\u00e3s, consumidoras, s\u00e3o religiosas. Negar isso faz parte da criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza, do Estado abandonar aquelas pessoas, as pol\u00edticas sociais efetivas que podem fazer com que a favela se desenvolva, e s\u00f3 colocar o bra\u00e7o armado, a repress\u00e3o, a militariza\u00e7\u00e3o. Tudo o que a gente sabe que n\u00e3o vai adiantar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>L.: Por que seria necess\u00e1ria a forma\u00e7\u00e3o de uma Comiss\u00e3o Popular da Verdade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>F.D.A.:<\/strong> Essa necessidade surge porque quem mora nas comunidades e j\u00e1 viveu as opera\u00e7\u00f5es da GLO j\u00e1 p\u00f4de ver um pouco como o ex\u00e9rcito brasileiro atua. O Rio de Janeiro vem sendo usado como uma esp\u00e9cie de laborat\u00f3rio para pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica fracassada, uma atr\u00e1s da outra. At\u00e9 copiadas de outros lugares como a UPP [Unidade de Pol\u00edcia Pacificadora] que \u00e9 uma c\u00f3pia barata do Plano Col\u00f4mbia que na Col\u00f4mbia n\u00e3o deu certo. Esse modelo de combate guerra \u00e0s drogas que foi executado no M\u00e9xico matou milhares de pessoas e os Estados Unidos continuam sendo os maiores consumidores de coca\u00edna do mundo, o ex\u00e9rcito est\u00e1 na rua h\u00e1 11 anos no M\u00e9xico e n\u00e3o resolveu nada. A ocupa\u00e7\u00e3o da favela da Mar\u00e9 custou milh\u00f5es e a\u00ed l\u00e1 tem umas 5 ou 6 fac\u00e7\u00f5es criminosas brigando pelo poder, oprimindo a popula\u00e7\u00e3o. Foram milh\u00f5es de reais jogados na lata de lixo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>L.: Como a Comiss\u00e3o Popular da Verdade agiria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>F.D.A.: <\/strong>A Faferj \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o com essa comiss\u00e3o, estamos acompanhando. Mas para que se monte uma Comiss\u00e3o Popular da Verdade que investigue e possa apurar \u00e9 preciso trabalho t\u00e9cnico, ent\u00e3o precisamos de advogados, da OAB, da defensoria do Minist\u00e9rio P\u00fablico, a gente precisa que eles toquem esse trabalho. Porque n\u00f3s somos comunit\u00e1rios, temos nossos afazeres. A gente pode ajudar com muitos elementos. A Comiss\u00e3o Nacional da Verdade da ditadura envolveu historiadores, antrop\u00f3logos, arque\u00f3logos, advogados. Foi uma grande for\u00e7a-tarefa para apurar os crimes da ditadura. Queremos montar uma coisa muito parecida para pegar pelo menos de 1992 para c\u00e1. Fazer um recorte e pegar todas essas a\u00e7\u00f5es e o impacto que elas causaram, os crimes cometidos, quanto dinheiro foi gasto, qual o retorno disso. O ex\u00e9rcito, na redemocratiza\u00e7\u00e3o, tem vindo \u00e0s ruas frequentemente no Brasil, a seguran\u00e7a cada vez apresentando n\u00fameros mais alarmantes \u2013 a\u00ed desde o crime comum a trafico, a tudo \u2013 e as coisas n\u00e3o melhoram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>L.: Ent\u00e3o a atua\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Popular da Verdade se daria em paralelo ao Observat\u00f3rio da Interven\u00e7\u00e3o, pois esse observat\u00f3rio se volta especificamente para a interven\u00e7\u00e3o e a Comiss\u00e3o investigaria a atua\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito desde 1992 nas favelas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>F.D.A.:<\/strong> Isso, exatamente, o Observat\u00f3rio da Interven\u00e7\u00e3o, lan\u00e7ado pela C\u00e2ndido Mendes e Cesec \u00e9 uma iniciativa muito importante. L\u00e1 tem soci\u00f3logos, pesquisadores, especialistas em seguran\u00e7a p\u00fablica onde somos conselheiros. A Faferj est\u00e1 integrando a Frente Contra a Interven\u00e7\u00e3o que \u00e9 uma iniciativa do Sindicato dos Profissionais da Educa\u00e7\u00e3o no estado do Rio de Janeiro (Sepe-RJ) e Sindicato Nacional dos Docentes das Institui\u00e7\u00f5es de Ensino Superior (ANDES-SN) com a Faferj. \u00c9 uma grande frente contra a interven\u00e7\u00e3o para envolver a sociedade como um todo. Na Faferj n\u00f3s temos o F\u00f3rum Permanente, que vai ser no dia 28 [de mar\u00e7o]. Esse f\u00f3rum tem como objetivo que essas entidades, essas pessoas que est\u00e3o interessadas em agir contra a interven\u00e7\u00e3o militar e de alguma forma gerar o debate para a popula\u00e7\u00e3o, que elas venham trazendo propostas e a nossa \u00e9 levar esse debate: a interven\u00e7\u00e3o militar \u00e9 capaz de sanar o problema de seguran\u00e7a p\u00fablica? O problema de seguran\u00e7a p\u00fablica no Rio de Janeiro \u00e9 uma quest\u00e3o militar? E temos que debater outros temas: a desmilitariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia, a descriminaliza\u00e7\u00e3o das drogas, temos que debater de onde v\u00eam esses armamentos que est\u00e3o entrando nas comunidades, a droga, que log\u00edstica \u00e9 essa capaz de abastecer uma favela com milhares de muni\u00e7\u00f5es e armas e entorpecentes, quem tem o dom\u00ednio desse aparato log\u00edstico para que isso v\u00e1 parar numa favela? Temos que discutir isso porque n\u00e3o \u00e9 o favelado [que tem esse dom\u00ednio]. \u00a0Eu n\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m na Receita Federal, n\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m na Pol\u00edcia Federal, n\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m chefe de porto aeroporto ou rodovia. Mas essa droga t\u00e1 entrando, ela n\u00e3o se teletransporta. O \u00faltimo culpado disso \u00e9 o favelado, que ocupou essas \u00e1reas por n\u00e3o ter onde morar historicamente no Brasil. Historicamente a favela \u00e9 uma ocupa\u00e7\u00e3o em uma \u00e1rea que ningu\u00e9m queria. Com o crescimento das cidades e as dificuldades da vida as pessoas foram ocupando onde dava. N\u00e3o havia programa de governo nem nenhum tipo de assist\u00eancia social, social, principalmente depois da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Mas, na verdade, o que a gente entende \u00e9 que \u00e9 um processo de criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza. Quando tem uma interven\u00e7\u00e3o militar voltada para a favela sabendo que a favela n\u00e3o produz isso \u2013 n\u00e3o produz arma, n\u00e3o produz droga \u2013 \u00e9 uma criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza. Aquele agente pol\u00edtico que t\u00e1 na favela ali, aquela pessoa, ela \u00e9 a for\u00e7a que trabalha, que move a cidade, o estado, o pa\u00eds. Se a favela parar, para tudo. Governo sabe disso, historicamente no Brasil o povo se rebelou v\u00e1rias vezes. O povo mais pobre, desde o per\u00edodo colonial, a reg\u00eancia, o per\u00edodo republicano, o povo se insurge v\u00e1rias vezes e o Estado de forma violenta ou muito violenta sufoca. Ent\u00e3o quem \u00e9 capaz de se insurgir contra um Estado \u2013 golpista, por exemplo, que nem o nosso, impopular, sem moral, corrupto \u2013 \u00e9 o povo. \u00c9 o povo o principal alvo dessa interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_2673\" aria-describedby=\"caption-attachment-2673\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7395 size-medium\" src=\"https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Ancelmo24_02_18_Laerte-400x300.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Ancelmo24_02_18_Laerte-400x300.jpg 400w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Ancelmo24_02_18_Laerte-768x576.jpg 768w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Ancelmo24_02_18_Laerte-150x113.jpg 150w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Ancelmo24_02_18_Laerte-80x60.jpg 80w, https:\/\/lavits.org\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Ancelmo24_02_18_Laerte.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2673\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o do material de divulga\u00e7\u00e3o do Observat\u00f3rio da Interven\u00e7\u00e3o, por Laerte<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>L.:<\/strong> <strong>O ministro da Seguran\u00e7a P\u00fablica voltou a dizer que <\/strong><a href=\"http:\/\/www.jb.com.br\/rio\/noticias\/2018\/03\/13\/orcamento-para-intervencao-no-rio-vai-demorar-diz-jungmann\/\"><strong>deseja envolver toda a sociedade no combate ao crime<\/strong><\/a><strong> e que vai buscar parcerias e contribui\u00e7\u00f5es junto a empres\u00e1rios, sindicatos, Ordem dos Advogados do Brasil, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais e igrejas para obter doa\u00e7\u00e3o de recursos para financiar a interven\u00e7\u00e3o, embora a responsabilidade maior seja do poder p\u00fablico. A seu ver, que tipo de recursos as favelas precisam?<\/strong><\/p>\n<p><strong>F.D.A.:<\/strong> Na Faferj, na <a href=\"https:\/\/faferj.wordpress.com\/2018\/02\/17\/queremos-uma-intervencao-social-que-traga-a-vida-nao-queremos-uma-intervencao-militar-que-traga-a-morte\/\">nossa nota<\/a>, n\u00f3s defendemos a interven\u00e7\u00e3o social. Tem uma nota publicada no Facebook e no blog. No blog o t\u00edtulo da nota \u00e9 \u201cqueremos uma interven\u00e7\u00e3o social que nos traga vida, n\u00e3o queremos uma interven\u00e7\u00e3o militar que nos traga morte\u201d. Essa \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o da Faferj. Para que o estado ocupe de fato o territ\u00f3rio que ele deixou \u00e0 margem das pol\u00edticas sociais h\u00e1 mais de um s\u00e9culo. O ex\u00e9rcito seria a \u00faltima etapa de uma ocupa\u00e7\u00e3o social. Seria o \u00faltimo, aquela parte da seguran\u00e7a. Porque a favela est\u00e1 abandonada e tem suas regras de conviv\u00eancia. O marginal que atua na favela, atua porque o Estado n\u00e3o ocupa o lugar social que deveria ocupar. Abandona as pessoas \u00e0 pr\u00f3pria sorte, aquele espa\u00e7o n\u00e3o recebe nenhum tipo de olhar por parte do Estado social, muito menos seguran\u00e7a p\u00fablica. Ent\u00e3o \u00e9 l\u00e1 que os marginais v\u00e3o ocupar. Se o ex\u00e9rcito quisesse na verdade fazer uma ocupa\u00e7\u00e3o bem sucedida, os manuais militares de todas as academias do mundo, voc\u00ea vai perceber que o militar precisa ganhar a confian\u00e7a do cidad\u00e3o local. Se n\u00e3o ganhar a confian\u00e7a do cidad\u00e3o local, se ele n\u00e3o estabelecer um per\u00edmetro de seguran\u00e7a m\u00ednimo para que ele possa atuar, as opera\u00e7\u00f5es fracassar\u00e3o. Ent\u00e3o o Estado ele precisa entrar ali com escola, com hospital, com creche, com assist\u00eancia. N\u00f3s estamos com uma crise da sa\u00fade enorme nas cl\u00ednicas da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o do povo com o ex\u00e9rcito \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o desgastada, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o que toda vez que o ex\u00e9rcito tomou as ruas foi atrav\u00e9s da repress\u00e3o, da viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, da criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza. A rela\u00e7\u00e3o do povo com o ex\u00e9rcito, historicamente falando \u00e9 dif\u00edcil, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o complicada. O ex\u00e9rcito \u00e9 a for\u00e7a das armas que o Estado tem, tecnicamente a fun\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito para o Brasil \u00e9 manter a soberania nacional, ent\u00e3o \u00e9 dever do ex\u00e9rcito cuidar das nossas fronteiras. Num pa\u00eds que j\u00e1 entregou o pr\u00e9-sal, j\u00e1 entregou os min\u00e9rios, nossos aqu\u00edferos, a Amaz\u00f4nia, estamos entregando tudo, n\u00f3s n\u00e3o temos uma soberania para defender, n\u00f3s temos um governo golpista impopular subserviente do capital internacional. E esse ex\u00e9rcito vai defender que soberania nacional? Que soberania nacional \u00e9 essa que a gente est\u00e1 reivindicando que tem um ex\u00e9rcito que a defenda? Para qu\u00ea? O ex\u00e9rcito historicamente no Brasil tem sido usado para reprimir o povo.\u00a0 E a favela \u00e9 alvo n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa. \u00c9 l\u00e1 que est\u00e3o milhares de trabalhadores. N\u00f3s n\u00e3o temos nada contra o ex\u00e9rcito, que tem uma participa\u00e7\u00e3o gloriosa no combate ao fascismo na Segunda Guerra Mundial, tem a sua hist\u00f3ria, \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o em que o povo confia, mas essa rela\u00e7\u00e3o, toda vez que o ex\u00e9rcito v\u00eam \u00e0 rua \u00e9 dif\u00edcil, uma rela\u00e7\u00e3o complicada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>L.: Como agiria a pol\u00edcia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>F.D.A:<\/strong> N\u00e3o podemos ter uma pol\u00edcia militar baseada na guerra \u2013 tem um texto no blog da Faferj que diz que a filosofia da guerra n\u00e3o serve para a favela porque a favela n\u00e3o declarou guerra \u00e0 ningu\u00e9m. A filosofia da guerra transforma o favelado, em especial, em n\u00fameros frios. No \u00faltimo s\u00e1bado, teve um <a href=\"http:\/\/brasil.estadao.com.br\/noticias\/rio-de-janeiro,quatro-pessoas-morrem-em-tiroteio-no-complexo-do-alemao,70002230811\">tiroteio no alem\u00e3o no qual tr\u00eas pessoas morreram<\/a>. S\u00e3o tr\u00eas pessoas que morreram, um beb\u00ea que morreu. A sociedade se comove, mas a gente faz o qu\u00ea? A pol\u00edcia v\u00ea um marginal em uma rua lotada, abre um tiroteio, mata um marginal e tr\u00eas inocentes est\u00e3o ali. N\u00e3o estou acusando a pol\u00edcia, a per\u00edcia vai dizer se foi a pol\u00edcia ou n\u00e3o, mas a filosofia da pol\u00edcia foi de confronto num lugar onde havia v\u00e1rias pessoas passando. A estrat\u00e9gia melhor, se a pol\u00edcia quer servir e proteger, n\u00e3o seria recuar, mas agir com intelig\u00eancia, chamar refor\u00e7o, deixar o marginal passar para fazer uma persegui\u00e7\u00e3o t\u00e1tica? Mas voc\u00ea abre conflito num lugar em que h\u00e1 centenas de pessoas, d\u00e1 um tiro de fuzil 7.72 mm que, pela conven\u00e7\u00e3o de Genebra, s\u00f3 pode ser usado em guerra. Essa filosofia da guerra a gente tem que debater.<\/p>\n<p>Tem gente que fica em casa falando que bandido bom \u00e9 bandido morto, mas a\u00ed \u00e9 muito f\u00e1cil falar quando \u00e9 o policial pobre que vai subir o morro. N\u00f3s j\u00e1 temos 134 policiais mortos. S\u00e3o 134 pais de fam\u00edlia, isso \u00e9 inaceit\u00e1vel em qualquer democracia do mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>L.: Quais s\u00e3o os pr\u00f3ximos passos do Observat\u00f3rio e no sentido de formar uma Comiss\u00e3o Popular da Verdade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>F.D.A.:<\/strong> Infelizmente a companheira Marielle Franco se foi, assassinada brutalmente e covardemente, tudo indica que foi uma execu\u00e7\u00e3o pela forma e pela din\u00e2mica do crime. A partir de agora todos os militantes que militam pelos direitos humanos, principalmente militantes que militam na favela, v\u00e3o ter que redobrar a sua aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 mais para militar como a gente militava antigamente, algumas medidas b\u00e1sicas de seguran\u00e7a v\u00e3o ter que ser tomadas. N\u00f3s temos que ter uma rede para nos proteger, de advogados, de militantes, enfim. Agora \u00e9 a hora da gente. Perdemos a Marielle, uma mulher honesta, trabalhadora, da favela.\u00a0 Ela fazia um grande trabalho, um trabalho excelente na C\u00e2mara de vereadores, um lugar onde \u00e9 dif\u00edcil de trabalhar. O Brasil \u00e9 governado por homens ricos, brancos, heterossexuais. Quando uma mulher negra da favela chega ao parlamento, ela assusta, ela causa ali um debate. Ela trazia debates sobre a comunidade LGBT, sobre as mulheres, debates que s\u00e3o necess\u00e1rios num pa\u00eds que tem uma matriz patriarcal, racista e machista. Ela denunciava tudo isso e incomodava muito, e \u00e9 esse inc\u00f4modo que a gente tava querendo.<\/p>\n<p>O caminho \u00e9 a gente debater, levar propostas para que: primeiro, cobrar das autoridades que essa investiga\u00e7\u00e3o seja feita a fundo e n\u00e3o se poupem recursos; e segundo temos que redobrar nossa seguran\u00e7a para que n\u00e3o se repita com nenhum dos outros militantes do Observat\u00f3rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foto: T\u00e2nia Rego\/Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Logo ap\u00f3s o governo federal decretar a interven\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro, a forma\u00e7\u00e3o de uma Comiss\u00e3o Popular da Verdade foi proposta em uma plen\u00e1ria da Federa\u00e7\u00e3o de Favelas do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":7392,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"_EventAllDay":false,"_EventTimezone":"","_EventStartDate":"","_EventEndDate":"","_EventStartDateUTC":"","_EventEndDateUTC":"","_EventShowMap":false,"_EventShowMapLink":false,"_EventURL":"","_EventCost":"","_EventCostDescription":"","_EventCurrencySymbol":"","_EventCurrencyCode":"","_EventCurrencyPosition":"","_EventDateTimeSeparator":"","_EventTimeRangeSeparator":"","_EventOrganizerID":[],"_EventVenueID":[],"_OrganizerEmail":"","_OrganizerPhone":"","_OrganizerWebsite":"","_VenueAddress":"","_VenueCity":"","_VenueCountry":"","_VenueProvince":"","_VenueState":"","_VenueZip":"","_VenuePhone":"","_VenueURL":"","_VenueStateProvince":"","_VenueLat":"","_VenueLng":"","_VenueShowMap":false,"_VenueShowMapLink":false,"footnotes":""},"categories":[957],"tags":[],"tematica":[946,948,950],"destaque":[],"class_list":["post-9553","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-2-es","tematica-vigilancia-es","tematica-vigilancia-e-estado-es","tematica-violencia-de-estado-es"],"blocksy_meta":{"styles_descriptor":{"styles":{"desktop":"","tablet":"","mobile":""},"google_fonts":[],"version":6}},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9553","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9553"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9553\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7392"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9553"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9553"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9553"},{"taxonomy":"tematica","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tematica?post=9553"},{"taxonomy":"destaque","embeddable":true,"href":"https:\/\/lavits.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/destaque?post=9553"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}