{"id":9659,"date":"2017-01-11T17:49:18","date_gmt":"2017-01-11T20:49:18","guid":{"rendered":"https:\/\/lavits.bemvindo.co\/privacidade-mercadoria-de-luxo\/"},"modified":"2017-01-11T17:49:18","modified_gmt":"2017-01-11T20:49:18","slug":"privacidade-mercadoria-de-luxo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lavits.org\/es\/privacidade-mercadoria-de-luxo\/","title":{"rendered":"Privacidade, mercadoria de luxo"},"content":{"rendered":"<p><em>Como a coleta invasiva de dados pessoais, sob o Capitalismo de Vigil\u00e2ncia, elimina direitos, imp\u00f5e comportamentos e torna totalit\u00e1rio o poder das corpora\u00e7\u00f5es. S\u00f3 escapa o 1% que comanda a m\u00e1quina<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Por <b>Rafael Evangelista<\/b><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/mass-surveillance-2-485x272.jpg\" alt=\"mass-surveillance-2\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Causou pequeno furor na Internet, recentemente, a not\u00edcia de que o Nubank poderia interromper as suas atividades no Brasil. O Nubank \u00e9 uma dessas fintech, empresas de finan\u00e7as que utilizam de ferramentas de alta tecnologia, principalmente <i>big data<\/i>, para realizarem suas opera\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito e que tamb\u00e9m oferecem uma \u201cexperi\u00eancia tecnol\u00f3gica\u201d a seus clientes, como fazerem tudo pelo celular. O motivo do fechamento seriam mudan\u00e7as na regula\u00e7\u00e3o do mercado de cart\u00e3o de cr\u00e9dito propostas pela equipe econ\u00f4mica do famigerado Michel Temer, em especial o encurtamento no prazo de pagamento a ser feito aos lojistas pela financiadora quando algu\u00e9m compra usando o cart\u00e3o. O Nubank, choraram seus executivos, n\u00e3o teria caixa para antecipar pagamentos e n\u00e3o poderia manter pr\u00e1ticas que o diferenciam de seus concorrentes, como a isen\u00e7\u00e3o de cobran\u00e7a de anuidades. Por isso tamb\u00e9m a grita dos clientes.<\/p>\n<p>Mas o ponto aqui n\u00e3o s\u00e3o as agruras dos portadores de cart\u00f5es Nubank, e sim o quanto elas podem falar sobre privacidade. O direito de escolher entre ser totalmente transparente ou manter certos assuntos longe do escrut\u00ednio alheio tende a ser cada vez mais um privil\u00e9gio dos ricos.<\/p>\n<p>No caso acima, mant\u00eam a privacidade aqueles com or\u00e7amento livre o suficiente para pagar a anuidade do cart\u00e3o, ou que gastam tanto no cr\u00e9dito que gozam de benef\u00edcios dos bancos tradicionais. O cliente Nubank, assim que pede seu cart\u00e3o de cr\u00e9dito, oferece poucos dados (e-mail, nome, CPF), mas \u00e9 convidado a integrar seu perfil do Linkedin ao cadastro. Essa integra\u00e7\u00e3o aumentaria a velocidade de resposta do Nubank ao seu pedido. \u00c9 a partir do CPF e dos dados coletados em redes sociais que a empresa vai checar se o cliente \u00e9 quem realmente diz ser e qual sua capacidade de cr\u00e9dito, que est\u00e1 relacionada n\u00e3o somente ao seu cadastro fiscal, mas tamb\u00e9m \u00e0 sua inser\u00e7\u00e3o na sociedade, ou seja, o quem faz, onde trabalha, quem s\u00e3o seus amigos etc. Trata-se de uma escolha emblem\u00e1tica: os que podem pagar a anuidade podem ser mais obscuros ao banco; os que precisam economizar umas dezenas de reais por m\u00eas oferecem sua transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>O exemplo \u00e9 at\u00e9 certo ponto trivial, uso-o aqui n\u00e3o por ser contundente, mas por convocar ao debate de uma quest\u00e3o mais ampla. Trata-se de uma investiga\u00e7\u00e3o que todo banco faz, no entanto \u00e9 uma amostra emblem\u00e1tica de uma mudan\u00e7a mais complexa e que tem a ver com o capitalismo de vigil\u00e2ncia, uma nova l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o do capitalismo. \u201cEssa nova forma de capitalismo informacional pretende prever e modificar o comportamento humano como meio para a produ\u00e7\u00e3o de lucros e o controle do mercado\u201d, escreve Shoshana Zuboff, em um denso artigo chamado \u201c<a href=\"file:\/\/\/antonio\/Dropbox\/OutrasPalavras\/Publicar\/(http:\/\/www.shoshanazuboff.com\/new\/recent-publications-and-interviews\/big-other-surveillance-capitalism-and-the-prospects-of-an-information-civilization\/)\">Big Other: surveillance capitalism and the prospects of an information civilization<\/a>\u201d<\/p>\n<p>O artigo \u00e9 um petardo e \u00e9 pr\u00e9via para um livro que deve chegar \u00e0s livrarias no in\u00edcio de 2017. O capitalismo de vigil\u00e2ncia funda-se em tecnologias como o <i>big data<\/i>, a extra\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise de grandes quantidades de dados para an\u00e1lises de mercado. Mas h\u00e1 outros dois pontos importantes de que Zuboff trata que nos ajudam aqui a mostrar como a privacidade vai se tornando cada vez mais dif\u00edcil para os mais pobres.<\/p>\n<p>Um deles \u00e9 a reflex\u00e3o que Zuboff faz sobre o futuro dos contratos. No capitalismo de vigil\u00e2ncia, passamos a ser monitorados por dispositivos informacionais o tempo todo. Eles garantem com muito mais efetividade se estamos ou n\u00e3o seguindo um determinado comportamento. A tend\u00eancia seria, ent\u00e3o, de emerg\u00eancia de novas formas contratuais, que ela chama de n\u00e3o-contratos, pois a forma tradicional desses compromissos legais seria baseada na incerteza e na confian\u00e7a. Estas tendem a ganhar um papel secund\u00e1rio no futuro, dando lugar a um monitoramento maqu\u00ednico.<\/p>\n<p>Por exemplo, imaginemos um plano de sa\u00fade que, como condi\u00e7\u00e3o para oferecer pre\u00e7os mais baixos, oferte ao cliente o uso ininterrupto de uma pulseira de monitoramento card\u00edaco. Antes, a empresa podia apenas recomendar ao cliente que se exercitasse tr\u00eas vezes por semanas por pelo menos 30 minutos ao dia para manter uma vida saud\u00e1vel pelo seu pr\u00f3prio bem. Com a pulseira, a sincronizar dados com os computadores da empresa diariamente, esta tem como estar certa de como o cliente se comportou, se fez exerc\u00edcios ou n\u00e3o, verificando os batimentos card\u00edacos. Se o cliente n\u00e3o cumpriu o \u201crecomendado\u201d ent\u00e3o os pre\u00e7os, automaticamente, sobem. O risco da empresa cai consideravelmente, pois d\u00e1 pre\u00e7os mais altos aos sedent\u00e1rios, condi\u00e7\u00e3o que ela verifica ao vigiar a que velocidade bate o cora\u00e7\u00e3o do segurado.<\/p>\n<p>Parece claro que aqueles que podem pagar, que t\u00eam mais dinheiro, podem se dar ao luxo de se eximir desse tipo de vigil\u00e2ncia pela m\u00e1quina. Isso \u00e9 ainda mais verdade em situa\u00e7\u00f5es profissionais. A revista <i>TechRepublic<\/i> publicou um <a href=\"http:\/\/www.techrepublic.com\/article\/inside-amazons-clickworker-platform-how-half-a-million-people-are-training-ai-for-pennies-per-task\/\">interessante artigo<\/a> ( sobre o Mechanical Turk, o site da Amazon dedicado a oferecer trabalho remoto, a ser feito em casa, por trabalhadores independentes, em troca de micro pagamentos. S\u00e3o tarefas muitas vezes auxiliares aos sistemas de intelig\u00eancia artificial das grandes companhias do Vale do Sil\u00edcio. Incluem trabalhos simples como classificar fotos, classifica\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 usada para \u201censinar\u201d sistemas de intelig\u00eancia artificial; ou coisas traumatizantes, como assistir centenas de v\u00eddeos do ISIS, incluindo cenas de degolamentos, para definir se se trata de conte\u00fado impr\u00f3prio ou n\u00e3o. Tudo isso por alguns centavos: na imensa maioria dos casos o rendimento do trabalhador fica abaixo do sal\u00e1rio m\u00ednimo federal dos EUA, de 7,5 d\u00f3lares a hora. O que a revista descreve \u00e9 um cotidiano exaustivo, em que os trabalhadores passam o tempo todo conectados, pois o rendimento depende de ser estar dispon\u00edvel no momento em que a tarefa aparece. Essas s\u00e3o oferecidas preferencialmente \u00e0queles designados como estando no \u201cmaster\u2019s level\u201d, mas ningu\u00e9m sabe como isso \u00e9 definido. A vida privada, pessoal, fora do mundo do trabalho, desaparece, O trabalhador \u00e9 transparente ao sistema, precisa estar dispon\u00edvel o tempo todo e abrir seus dados em extensos formul\u00e1rios de cadastramento. Mas o contratante \u00e9 obscuro e, muitas vezes, an\u00f4nimo. A Amazon coloca-se apenas como dona da plataforma que conecta trabalhadores e patr\u00f5es.<\/p>\n<p>Outro ponto importante no texto de Zuboff \u00e9 a ideia que o capitalismo de vigil\u00e2ncia n\u00e3o tem as popula\u00e7\u00f5es somente como fonte da coleta de informa\u00e7\u00f5es comportamentais, informa\u00e7\u00f5es essas que v\u00e3o orientar campanhas de marketing, publicidade e informar a produ\u00e7\u00e3o de produtos. Aquele que \u00e9 vigiado \u00e9 tamb\u00e9m alvo de tentativas de orienta\u00e7\u00e3o de comportamento. Tradicionalmente, a publicidade j\u00e1 opera dessa forma, busca fazer com que os indiv\u00edduos se comportem de uma determinada maneira que seja interessante aos lucros da empresa. Mas Zuboff est\u00e1 falando de algo em outro n\u00edvel, que n\u00e3o opera pelo convencimento, pela escolha e decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Trata-se de uma pr\u00e1tica de controle da a\u00e7\u00e3o dos pontos em uma rede \u2013 as pessoas, no caso. Entende-se <i>a\u00e7\u00e3o<\/i> aqui como uma opera\u00e7\u00e3o informacional: um like no Facebook, um clique que confirma a compra em um site, montar uma p\u00e1gina na Internet em que algu\u00e9m oferece seus servi\u00e7os profissionais. \u201cNa l\u00f3gica do capitalismo de vigil\u00e2ncia n\u00e3o h\u00e1 indiv\u00edduos, somente o organismo de escala mundial e todos os min\u00fasculos elementos dentro dele\u201d, escreve ela. O controle a\u00ed significa a limita\u00e7\u00e3o das escolhas ao m\u00ednimo ou a op\u00e7\u00f5es que n\u00e3o fazem muita diferen\u00e7a. A Netflix lhe oferece op\u00e7\u00f5es de filmes que parecem infinitas, a maioria dentro do mesmo padr\u00e3o hollywoodiano e todas sendo comercializadas pelas mesmas distribuidoras do sistema. Voc\u00ea pode optar por n\u00e3o utilizar o dispositivo de rastreamento que a seguradora quer instalar em seu carro, s\u00f3 vai ter que pagar o dobro.<\/p>\n<p>Na pir\u00e2mide social da atualidade \u2013 e que, em condi\u00e7\u00f5es normais, tende a um afunilamento crescente \u2013 apenas o 1% que est\u00e1 no topo pode optar pelo privil\u00e9gio da total obscuridade \u00e0 rede. O grau de escolha sobre privacidade parece ir diminuindo quanto mais se aproxima da base. Inclusive o n\u00edvel mais inferior dessa pir\u00e2mide, hoje desconectado, \u00e9 objeto de desejo das grandes empresas de tecnologia, que lan\u00e7am projetos de inclus\u00e3o digital \u2013 como o Free Basics, do Facebook \u2013 de olho nos dados e opera\u00e7\u00f5es informacionais que essa popula\u00e7\u00e3o pode produzir.<\/p>\n<p>Nessa enorme parte do meio da pir\u00e2mide, para sobreviver, ou apenas para termos um pouco mais de conforto moment\u00e2neo, somos a todo tempo convidados a nos tornarmos mais transparentes. Mas essa transpar\u00eancia, ao mesmo tempo, aumenta nossa vulnerabilidade e o poder do outro. Os efeitos n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 individuais, a invas\u00e3o de uma intimidade, como o sentido comum da express\u00e3o \u201cperda da privacidade\u201d pode nos convidar a pensar. Trata-se fundamentalmente de uma quest\u00e3o de poder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Texto publicado originalmente em 09\/01\/2017, no <a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/privacidade-mercadoria-de-luxo\/\">Outras Palavras<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como a coleta invasiva de dados pessoais, sob o Capitalismo de Vigil\u00e2ncia, elimina direitos, imp\u00f5e comportamentos e torna totalit\u00e1rio o poder das corpora\u00e7\u00f5es. 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