{"id":9810,"date":"2014-11-20T19:53:51","date_gmt":"2014-11-20T22:53:51","guid":{"rendered":"https:\/\/lavits.bemvindo.co\/somos-todos-pequenos-big-brothers\/"},"modified":"2014-11-20T19:53:51","modified_gmt":"2014-11-20T22:53:51","slug":"somos-todos-pequenos-big-brothers","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lavits.org\/es\/somos-todos-pequenos-big-brothers\/","title":{"rendered":"Somos todos pequenos \u201cBig Brothers\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Lucas Melga\u00e7o<\/em><\/p>\n<p>Estamos, a todo tempo, sendo vigiados. Quando andamos pelas ruas, somos, in\u00fameras vezes, alvo do olhar indiscreto de c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia. Quando utilizamos cart\u00f5es de cr\u00e9dito, quando fazemos compras no supermercado com nossos cart\u00f5es de fidelidade, quando falamos ao telefone celular ou quando surfamos na internet, geramos rastros digitais pass\u00edveis de monitoramento.<br \/>\nPara descrever essa situa\u00e7\u00e3o de permanente vigil\u00e2ncia, \u00e9 muito comum a utiliza\u00e7\u00e3o da met\u00e1fora \u201cbig brother\u201d. A express\u00e3o \u00e9 normalmente associada ao \u201creality show\u201d criado em 1999 pela empresa holandesa Endemol e reproduzido no Brasil desde 2002 pela Rede Globo de Televis\u00e3o. \u00c9 sabido, entretanto, que o nome do programa foi, na verdade, inspirado no personagem hom\u00f4nimo do romance 1984, de George Orwell. No livro, Big Brother \u00e9 o chefe supremo do \u201cPartido\u201d e \u00e9 capaz de tudo ver e saber: da\u00ed a m\u00e1xima \u201cbig brother is watching you\u201d (o grande irm\u00e3o est\u00e1 te vigiando).<\/p>\n<p>A atual sociedade da vigil\u00e2ncia (LYON, 2001) pode ser explicada n\u00e3o apenas pela met\u00e1fora orwelliana do \u201cbig brother\u201d, mas tamb\u00e9m por uma outra que se tornou conhecida atrav\u00e9s do fil\u00f3sofo franc\u00eas Michel Foucault: o pan\u00f3ptico. No livro Vigiar e Punir, Foucault (1975) retoma a ideia de um modelo prisional desenvolvido no fim do s\u00e9culo XVIII pelo ingl\u00eas Jeremy Bentham. Nesse modelo, chamado por Bentham de pan\u00f3ptico, uma torre instalada no centro do p\u00e1tio da pris\u00e3o permitiria que os vigias monitorassem os presidi\u00e1rios nas celas constru\u00eddas ao redor. A etimologia do termo vem do grego pan, que significa todos, e optik\u00f3s, vis\u00e3o. Uma caracter\u00edstica importante desse modelo prisional era o fato de os presidi\u00e1rios n\u00e3o saberem quando e se estavam sendo monitorados pelos vigias. A d\u00favida sobre a exist\u00eancia ou n\u00e3o de um monitoramento criaria nos detentos um impulso por disciplina. Foucault mostrou que essa rela\u00e7\u00e3o entre vigil\u00e2ncia e disciplina n\u00e3o fazia parte apenas do espa\u00e7o prisional, mas tamb\u00e9m estava presente em muitas outras formas arquiteturais, como o hospital e a escola.<\/p>\n<p>Pode-se afirmar, por\u00e9m, que tanto o termo pan\u00f3ptico quanto a express\u00e3o big brother n\u00e3o s\u00e3o suficientes para explicar a atual sociedade da vigil\u00e2ncia. O modelo pan\u00f3ptico apresenta uma situa\u00e7\u00e3o em que \u201cum\u201d monitora \u201cv\u00e1rios\u201d. Um \u00fanico vigia posicionado na torre central de vigil\u00e2ncia seria capaz de monitorar um grande n\u00famero de prisioneiros. O momento atual \u00e9 marcado n\u00e3o s\u00f3 por situa\u00e7\u00f5es em que \u201cum\u201d monitora \u201cv\u00e1rios\u201d, mas tamb\u00e9m por outras em que, inversamente, \u201cv\u00e1rios\u201d vigiam \u201cum\u201d. Para descrever tal condi\u00e7\u00e3o, Mathiesem (1997) sugere o termo \u201csin\u00f3ptico\u201d, criado a partir do prefixo grego sin, que significa m\u00fatuo, rec\u00edproco. O autor ilustra seu conceito com o exemplo da televis\u00e3o, em que a vida de uma \u00fanica celebridade \u00e9 monitorada por um grande n\u00famero de telespectadores. O pr\u00f3prio reality show Big Brother seria, na verdade, um exemplo de sin\u00f3ptico, pois uma dezena de concorrentes passam a ser monitorados por milhares de pessoas a partir de suas casas e atrav\u00e9s da televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Por sua vez, a concep\u00e7\u00e3o orwelliana estaria incompleta por concentrar o poder de vigil\u00e2ncia em um \u00fanico agente: o Estado. Apesar da import\u00e2ncia ainda crucial do Estado (vejam, por exemplo, o poder da Ag\u00eancia Nacional de Seguran\u00e7a dos Estados Unidos), outros agentes passam a ter semelhante relev\u00e2ncia no controle da informa\u00e7\u00e3o no per\u00edodo atual. Imaginem a enorme quantidade de dados estrat\u00e9gicos concentrados nas m\u00e3os de empresas privadas como o Google e o Facebook, ou ainda as informa\u00e7\u00f5es coletadas pelos bancos e as operadores de planos de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do Estado e de empresas privadas, o indiv\u00edduo tamb\u00e9m passa a ter um papel cada vez mais importante na atual sociedade da vigil\u00e2ncia. Tecnologias como os aparelhos celulares permitem que indiv\u00edduos n\u00e3o apenas sejam monitorados pelas operadoras telef\u00f4nicas (informa\u00e7\u00e3o frequentemente passada aos \u00f3rg\u00e3os estatais de repress\u00e3o, como a pol\u00edcia), mas que tamb\u00e9m se tornem, eles pr\u00f3prios, vigias. H\u00e1, hoje, a possibilidade de uma vigil\u00e2ncia de baixo para cima, uma vigil\u00e2ncia reversa. Para descrever tal situa\u00e7\u00e3o, Mann (2004) sugeriu o termo sousveillance, cujo prefixo franc\u00eas sous significa por debaixo e veillance, vigil\u00e2ncia. Essas novas possibilidades de contravigil\u00e2ncia s\u00e3o exemplos do que o ge\u00f3grafo brasileiro Milton Santos (2000; MELGA\u00c7O, 2013) chamou de contrarracionalidades: a\u00e7\u00f5es que utilizam as mesmas tecnologias de ponta do per\u00edodo atual, mas de forma subversiva. Sousveillance e contrarracionalidade est\u00e3o presentes, por exemplo, no uso de telefones celulares para registrar atos de viol\u00eancia policial. A vigil\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9, portanto, apenas praticada de forma pan\u00f3ptica pelo Estado e pelas empresas, mas tamb\u00e9m de forma sin\u00f3ptica e reversa pelos indiv\u00edduos. Com a banaliza\u00e7\u00e3o das novas tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e de vigil\u00e2ncia, tornamo-nos, todos, de certa forma, pequenos \u201cBig Brothers\u201d.<\/p>\n<p>Para acessar o trabalho original, pelo pr\u00f3prio autor, clique aqui.<\/p>\n<p>Para saber mais, leia os seguintes trabalhos:<\/p>\n<p>FOUCAULT, Michel. Surveiller et Punir: naissance de la prison. Paris: Gallimard, 1975.<\/p>\n<p>LYON, David. Surveillance Society: Monitoring Everyday Life. Open University Press, 2001.<\/p>\n<p>MANN, Steve. \u201cSousveillance\u201d: Inverse Surveillance in Multimedia Imaging. Proceedings of the 12th annual ACM international conference on Multimedia. ACM Press: New York. 620-627, 2004.<\/p>\n<p>MATHIESEN, Thomas. The viewer society: Michel Foucault\u2019s \u201cPanopticon\u201d revisited.\u201d Theoretical Criminology, 1:215\u2013234, 1997.<\/p>\n<p>SANTOS, Milton. Por uma Outra Globaliza\u00e7\u00e3o: Do Pensamento \u00danico \u00e0 Consci\u00eancia Universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.<\/p>\n<p><em>Publicado originalmente em <a href=\"https:\/\/cientistasdescobriramque.wordpress.com\/2014\/11\/11\/somos-todos-pequenos-big-brothers\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cientistas descobriram que&#8230;<\/a> em 11\/11\/2014<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Lucas Melga\u00e7o Estamos, a todo tempo, sendo vigiados. Quando andamos pelas ruas, somos, in\u00fameras vezes, alvo do olhar indiscreto de c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia. 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