Tecnologia, gênero e ativismo: potências e encontros em discussão

 

Quais são as intersecções e potências entre tecnologias, gênero e ativismos? A reposta, para Josemira Reis, do Laboratório Gig@ da Universidade Federal da Bahia (UFBA), passa pelas práticas de mulheres hackers e tecnólogas. Estas dinâmicas, de acordo com ela, são importantes para a militância política e constroem a possibilidade de uma revisão das relações sociais e de poder, além de operaram com dinâmicas de mais transparência.

A pesquisadora aponta que na última década cresceu exponencialmente o número de coletivos de mulheres que propõe uma apropriação da tecnologia. Os motivos são variados e proporcionais à complexidade das relações de gênero. Os números, entretanto, dão pistas. Eles mostram que as mulheres são, em média, 15% a 20% das pessoas matriculadas em cursos de computação, mundialmente. No Brasil, são 15%. Além disso, de acordo com Josemira, o conjunto de entidades, organizações e instituições que são referência na área tecnológica são demasiadamente homogêneos, tanto do ponto de vista racial, quanto de gênero.

Mapeando grupos de mulheres que lutam contra este escamoteio, a pesquisadora encontrou 33 coletivos no Brasil. De acordo com ela, há uma diversificação de focos e estratégias nestes grupos. Em comum, eles têm uma preocupação com a violência a que mulheres, sobretudo as negras, estão expostas em uma sociedade heteropatriarcal.

Josemira propõe um questionamento sobre este foco. Ela se pergunta se as práticas ativistas no Brasil são (mais) reativas em detrimento da invenção. As pesquisadoras Dulcilei Lima e Taís Oliveira, da Universidade Federal do ABC (UFABC), estão justamente estudando os enfrentamentos e invenções de mulheres negras. Taís com foco no empreendedorismo negro e Dulcilei nos feminismos negros online. Ambas discutem as apropriações tecnológicas de mulheres negras como práticas de resistência.

Para elas, há uma lógica de experimentação nestas dinâmicas. Neste sentido, a experimentação é um processo construído coletivamente, a partir de referências próprias e comunitárias. Esta mesma característica foi discutido por Daniela Araújo e Débora Oliveira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que propuseram diálogos sobre tecnologias feministas.

O que elas estão nomeado como tecnologias feministas pode ser caracterizado a partir de três categorias: autonomia, linguagem e segurança/violência, e é uma oposição a suposta neutralidade da ciência e a uma visão reducionista sobre ciência e tecnologia, mas não somente. Para elas, o termo feminista pressupõe um compromisso político que passa pela descolonização do imaginário social.

“É possível construir sistemas sociotécnicos a partir de outros interesses, outras práticas e outros corpos. Nosso papel é ativar estes outros lugares”, afirma Débora.

VI Simpósio Internacional LAVITS

Este debate foi realizado no VI Simpósio Internacional LAVITS, que começou nesta quarta-feira (26) e vai até a sexta-feira (28), na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Nesta edição, o evento discute “Assimetrias e (In)Visibilidades: Vigilância, Gênero e Raça”. A sessão temática foi mediada por Marta Kanashiro, pesquisadora da Unicamp e membro da Rede Latino-americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS).

Saiba mais: www.lavits.ihac.ufba.br

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